Manuel Claure / Reuters
Manuel Claure / Reuters

Para entender: Os fatos que levaram a novas eleições na Bolívia

Após um mês de violência que deixou 32 mortos, o país iniciou o caminho rumo a eleições que, pela primeira vez em 18 anos, não terão como candidato o agora ex-presidente indígena Evo Morales

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 08h00

LA PAZ - Com o cancelamento das eleições de 20 de outubro - nas quais o então presidente da Bolívia, Evo Morales, conquistou um quarto mandato consecutivo em meio a denúncias de fraude -, foi promulgada neste domingo, 24, uma lei para convocar novas eleições no país. 

Desta forma, e após um mês de violência que deixou 32 mortos, o país iniciou o caminho rumo a eleições que, pela primeira vez em 18 anos, não terão como candidato o agora ex-presidente indígena, asilado no México. Relembre os principais fatos da crise boliviana:

Eleição presidencial

Em 20 de outubro foi celebrada na Bolívia a eleição presidencial. O esquerdista Evo Morales, primeiro chefe de Estado indígena no país e no poder há 13 anos, tenta o quarto mandato, apesar de a possibilidade ter sido rejeitada em um referendo em 2016 e posteriormente avalizada pela justiça.

De nove candidatos, só o centrista Carlos Mesa, que exerceu a presidência entre 2003 e 2005, estava na corrida para enfrentá-lo em um eventual segundo turno.

Rumo a um segundo turno

Na noite da votação, Evo liderava a apuração com 45,28% dos votos à frente de Mesa, que tinha 38,16%. Os dois candidatos se encaminhavam, assim, para um segundo turno sem precedentes na Bolívia, após a apuração de 84% dos votos.

Para evitar um segundo turno, o candidato principal deve obter a maioria absoluta ou pelo menos 40% dos votos com uma diferença de dez pontos porcentuais sobre o segundo colocado.

A oposição e os observadores internacionais criticaram o ritmo lento das autoridades para divulgar o resultado final, temendo uma possível fraude.

Começam manifestações nas ruas

Na segunda-feira, 21 de outubro, o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) atribui 46,4% dos votos a Morales contra 37,07% para Mesa, com 95,63% das urnas apuradas. A brecha se aproxima dos dez pontos necessários para a vitória no primeiro turno. Mesa denuncia "fraude".

As ruas ardem

Em várias regiões eclodiram incidentes violentos, que incluíram incêndios, confrontos com a Polícia e saques. Manifestantes queimaram na segunda-feira três escritórios regionais do TSE em Potosí (sudoeste), Sucre (sudeste) e Cobija (norte).

Na terça, 22, organizações civis opositoras convocaram uma greve gera por tempo indeterminado. Na quarta, 23, Evo denuncia que "está em andamento um golpe de Estado" por parte da direita boliviana, com apoio internacional.

A greve, replicada em todo o país, é salpicada de incidentes entre partidários dos dois lados.

Vitória oficial

Na sexta, dia 25, após os resultados definitivos, Evo é declarado oficialmente vencedor com 47,08% dos votos contra 36,51% para Mesa. A oposição, a União Europeia, os Estados Unidos, a Organização de Estados Americanos (OEA), a Colômbia e a Argentina exigem um segundo turno.

Os bloqueios nas ruas e os confrontos continuam. No domingo, dia 27, Evo descarta a possibilidade de qualquer "negociação política".

Auditoria da OEA

Na segunda, 28, os protestos se intensificam com vários bloqueios e enfrentamentos com a polícia ou entre simpatizantes e opositores de Evo. No dia 31, começa uma auditoria da OEA sobre a apuração, solicitada pelo governo, mas rejeitada pela oposição.

Camacho lidera o desafio

Em 2 de novembro, Luis Fernando Camacho surge como a face mais visível e radical da oposição, ao chamar o Exército e a Polícia a "se colocar ao lado do povo" e exortar o presidente a renunciar. Evo convoca as Forças Armadas a "servir ao povo boliviano", mantendo-se junto de seu governo.

No dia 4, Mesa exige que se realize uma nova votação. No dia 6, ocorrem violentos confrontos em Cochabamba e bloqueios em outras partes do país.

Em Vinto (centro), manifestantes ateiam fogo à prefeitura e obrigam a prefeita a caminhar descalça pela cidade, coberta de tinta vermelha, sob insultos e ameaças. Ela havia determinado o transporte de manifestante pró-Evo na cidade, segundo jornais locais. 

Motins

Na sexta-feira, 8 de novembro, três unidades da Polícia se amotinam em Cochabamba, Sucre e Santa Cruz. Veem-se cenas de comemoração entre policiais e manifestantes em La Paz e a rebelião se espalha para outras regiões do país.

Evo denuncia um golpe de Estado "em curso", mas o governo descarta a possibilidade de uma operação militar contra os amotinados. 

Renúncia

No domingo, 10, Evo anuncia que vai convocar "novas eleições nacionais que, mediante o voto, permitam ao povo boliviano eleger democraticamente novas autoridades". 

Pouco antes, ao divulgar o relatório preliminar de sua auditoria, a OEA havia exigido a anulação das eleições presidenciais de outubro e a realização de novas eleições. A organização assegurou ter encontrado várias "irregularidades" em sua análise das eleições.

Ministros e deputados governistas renunciam. As Forças Armadas e a Polícia exigem a renúncia de Evo.

De sua região natal, no centro da Bolívia, Evo renuncia, depois de quase 14 anos no poder.

Asilo no México 

Em 11 de novembro, Moscou denuncia a violência orquestrada pela oposição e a saída forçada de Evo, enquanto Madri critica os papéis do Exército e da polícia. 

Os Estados Unidos recebem com satisfação o sinal enviado aos "regimes ilegítimos".

Em 12 de novembro, Evose asila no México. A senadora direitista Jeanine Áñez proclama-se presidente interina, em um Parlamento sem o quórum necessário.

Novas eleições 

Em 22 de novembro, o Ministro do Interior apresenta uma denúncia contra Evo por "sedição e terrorismo". Moradores de La Paz enfrentam uma grave escassez de alimentos.

Em 24 de novembro, Jeanine Áñez promulga uma lei aprovada pelo Parlamento convocando eleições presidenciais e legislativas sem a participação de Evo. / AFP 

 

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