Para enviado de Lula, oposição vai exigir antecipação das eleições na Venezuela

Apesar de já haver sinais de enfraquecimento e de divergências entre os grupos de oposição a Hugo Chávez, a ala mais radical não abriu ainda nenhuma brecha para negociar com o governo sem impor condições draconianas, como a renúncia do presidente e a antecipação das eleições para o primeiro trimestre de 2003 e a reforma da Constituição. "Parte da oposição não quer Chávez no poder e não pretende esperar oito meses até o referendo revogatório, que será realizado em agosto de 2003, conforme determina a Constituição Bolivariana", disse à Agência Estado Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais do Partido dos Trabalhadores e enviado especial do presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva a Caracas. Garcia se reuniu sábado de manhã com Teodoro Petkoff, ex-guerrilheiro, ex-ministro do governo Rafael Caldera, diretor do jornal Tal Qual e membro da oposição. Petkoff disse ao assessor de Lula, durante um café da manhã na Embaixada do Brasil em Caracas, que "o nível de conflitividade gerado pelo governo do presidente Chávez no país é enorme". O ex-guerrilheiro se disse também desesperançado, tanto com o governo como com a oposição, e mostrou muita preocupação com a possibilidade de os grupos mais radicais decidirem fazer ainda uma marcha de protesto em direção ao Palácio de Miraflores (sede do governo). Essa marcha vem sendo planejada desde a semana passada, mas os líderes da greve não conseguiram consenso algum sobre a data e nem mesmo se vão fazê-la. No sábado, o assessor de Lula se reuniu também com alguns membros do partido Ação Democrática (social-democrata, o maior do país até a ascensão de Chávez). "Eles querem mesmo a reforma da Constituição e a antecipação das eleições. Acreditam que, mesmo saindo candidato, Chávez perderá desta vez", comentou Garcia. Numa eventual reforma constitucional, a AD propõe a redução de seis para quatro anos o mandato presidencial, a inclusão de um segundo turno nas eleições presidenciais e a antecipação do fim do período presidencial de Chávez. Com esse impasse entre o governo e a oposição, as negociações que vêm sendo conduzidas pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria, permanecem em ponto morto. Gaviria tenta, desde o dia 8 de novembro, que o governo e a chamada Coordenadora Democrática (parte de sindicatos mais empresários) alcancem a "saída eleitoral" para a crise. Segundo uma das pessoas próximas a essas negociações, "Gaviria não só tomou partido da oposição como não quer que o presidente Chávez não intrometa nos problemas da PDVSA (Petróleos de Venezuela)". Uma outra fonte que participa da mesa de negociações montada pela OEA em um hotel em Caracas disse que Gaviria é muito prudente, embora alguns representantes de uma e da outra parte acreditem que ele parece estar representando o papel de um "tonto útil". "Acredito que quem pensa dessa forma está enganado. Quando ele (Gaviria) diz ´estamos ainda longe de um acordo eleitoral´ ele não quis ou quer dizer que ´estamos perdendo o tempo´", disse essa fonte ao jornal venezuelano El Nacional. Para chegar um "acordo eleitoral", no entanto, os representantes do governo na mesa de negociações querem garantias totais de que não haverá impedimento alguma para a candidatura do presidente Chávez. Querem ainda mecanismos que permitam impedir a parcialidade "grosseira" dos meios de comunicação em favor da oposição. E mais, exigem a imparcialidade do Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Sem essas três condições, dificilmente o governo aceitará a antecipação das eleições. Enquanto permanece o impasse, a greve decretada pela oposição, que não é e nunca foi geral, entrará na quarta semana nesta segunda-feira. É a quarta greve que organiza a oposição contra o governo desde que Chávez tomou posse, em fevereiro de 1999, a quem acusam de ditador, assassino e castro-comunista. O presidente, por sua vez, afirma que a oposição quer assumir o poder por meio de um golpe de Estado, sustentado pelos mesmos setores que o depuseram durante 48 horas no dia 11 de abril deste ano. Chávez afirma que esses setores golpistas são os mesmos que perderam o poder depois de mandar no país durante quatro décadas.

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