Para EUA, o B dos Brics tem menos importância

Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que visitará a Índia em novembro. A Rússia e a China ganharam visitas oficiais de Obama no ano passado. Ou seja, dos chamados Brics, ele só não visitou o Brasil. E não há previsão para isso.

Análise: Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

Na realidade, o Brasil nem é parte dos Brics, para o governo americano. Uma leitura cuidadosa da Estratégia de Segurança Nacional americana, divulgada há dez dias, mostra que os EUA sempre agrupam Rússia, Índia e China, os "centros-chave de influência", enquanto o Brasil aparece ao lado de Indonésia e África do Sul , "países de influência crescente". "Algumas relações bilaterais ? como as dos EUA com China, Índia e Rússia ? serão críticas para construir cooperação mais ampla em áreas de interesse mútuo", diz a estratégia, sem mencionar o B dos Brics. Enquanto o Brasil é "parceiro importante", a Índia tem "parceria estratégica", e a relação com a China "é essencial para abordar os grandes desafios do século 21".

A diferença no discurso da Casa Branca para a Índia e para o Brasil mostra como os canais de comunicação entre Washington e Brasília estão entupidos. Índia ganhou o primeiro jantar oficial da Casa Branca dos Obamas, em novembro. Na semana passada, realizou-se uma reunião do diálogo estratégico Índia-EUA. Na ocasião, Obama disse que "as relações com a Índia são uma das maiores prioridades" de seu governo, "a parceria que define o século 21", Hillary Clinton é "uma grande admiradora da Índia", segundo Obama. E para ela, a relação com a Índia "é um assunto do coração, não apenas da cabeça".

Bem menos carinho Hillary reservou para o Brasil há duas semanas. Chamou o Brasil de "parceiro responsável e eficiente em vários assuntos", mas não deixou de destacar "as sérias divergências" em relação ao Irã. Foram muitos os desacordos nos últimos tempos ? bases americanas na Colômbia, golpe em Honduras, mas o Irã certamente é o mais irritante.

Os dois países apressam-se em dizer que são "parceiros" e a relação "envolve muitos outros aspectos". Mas ninguém ainda levantou a bandeira branca. Hillary, aliás, aproveitou para alfinetar o Brasil em seu primeiro dia de giro pela região. Após se reunir com o presidente peruano, Alan García, ela voltou a tocar no ponto nevrálgico das sanções contra Teerã. "Irã vai tentar de novo dar algum golpe" para adiar as sanções", disse Hillary. Para a secretária, o acordo de troca de combustível obtido por Brasil e Turquia foi apenas um "golpe do Irã" para evitar as sanções, e o governo brasileiro foi usado.

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