Para ex-embaixador em Havana, decisão favorece relações com Brasil

Na opinião de Tilden Santiago, papa Francisco atuou nos bastidores; novo cenário, segundo ele, pode indicar uma intensificação nas relações entre Brasil e Cuba

Entrevista com

Tilden Santiago

Ricardo Chapola , O Estado de S. Paulo

17 de dezembro de 2014 | 18h41

Os governos de Estados Unidos e Cuba anunciaram nesta quarta-feira, 17, a retomada de relações após 53 anos e uma série de medidas para cooperação e relaxamento das restrições econômicas vigentes entre os dois países. O embaixador do Brasil em Cuba entre os anos de 2003 e 2007 (governos de Fidel Castro e Raúl Castro) Tilden Santiago comentou o impacto da retomada das relações. 

Qual é a sua avaliação sobre a retomada das relações diplomáticas entre EUA e Cuba depois de mais de 50 anos?

Acho que deve ter causado em muitos lugares. Para mim, não é surpresa. Eu acho o povo cubano tem uma formação histórica, embora seja um país latino, muito ligada à cultura americana, à cultura intelectual dos EUA. Essa ruptura era uma ruptura, a meu ver, que forçava muito a barra. É uma decorrência da Guerra Fria. Para mim não é surpresa. E para mim tornou menos surpresa ainda depois que o papa Francisco assumiu o trono de São Pedro. 

Por quê?

Vendo o tipo desse papa, ele é uma espécie de outro João XXIII, um outro Paulo VI. Parece uma continuidade de João XXIII e Paulo VI. Era inevitável que ele exercesse uma influência sobre o Barack Obama e sobre o Raúl Castro para que esse passo fosse dado. É um papa com uma visão nova da relação da igreja com o mundo. E sabendo quem é o papa Francisco, acho que pelos bastidores ele deve ter atuado muito. Deve ter sido fundamental, deve ter sido muito escutado tanto pelo Barack Obama como pelo Raúl Castro. 

Qual outro fator o sr. acha que contribuiu para essa reaproximação?

Acho também que o caráter da globalização do mundo exige um pouco isso, mesmo que os países mantenham suas diferenças. Só que o campo diplomático é diferente do político. Na diplomacia se aposta na aproximação e se tira a diferença. Ao contrário da política, que investe na diferença para  poder adquirir poder. É um exemplo muito positivo da diplomacia de Cuba, dos EUA e do Vaticano. 

O que pode mudar com relação ao Brasil?

Desde o governo Sarney que tínhamos relações diplomáticas com Cuba. A semelhança e a proximidade do povo cubano com o povo brasileiro agora vai poder se intensificar com essa quebra da separação entre a ilha e os EUA. Acho que tudo indica que vamos intensificar as nossas relações, a cooperação com Cuba. Sobretudo com os EUA tirando os entraves que ainda havia. Mas é uma coisa que ainda depende também do congresso americano.



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