Angela Weiss / AFP
Angela Weiss / AFP

Para famílias de vítimas do 11 de Setembro, novas técnicas de DNA reabrem feridas

Especialistas que trabalham na maior investigação forense da história dos EUA criaram técnica que permite extrair material genético de restos mortais considerados degradados em razão do contato com condições extremas, como as do atentado em Nova York

O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2018 | 16h45

NOVA YORK, EUA - Um avanço nas análises de DNA está ajudando a identificar mais vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York, mas o progresso científico consola pouco as famílias daqueles cujos restos mortais podem ter sido enterrados em um aterro sanitário.

O número oficial de mortes dos ataques ao World Trade Center de Manhattan é de 2.753, incluindo os desaparecidos e dados como mortos. Só 1.642 deles, ou certa de 60%, foram identificados.

O Instituto Médico Legal de Nova York trabalha há 17 anos para identificar as mais de 1 mil vítimas restantes, e fez mais cinco identificações positivas aproveitando avanços nas técnicas de coleta de DNA nos últimos cinco anos.

Essas inovações foram contraditórias para as famílias que lutaram em vão para impedir a cidade de criar um parque no enorme aterro de Fresh Kills de Staten Island, onde 1,8 milhão de toneladas de escombros das Torres Gêmeas foram lançados e enterrados.

“Estamos gratos por a identificação continuar, mas há mais material que poderia ter sido parte disso”, disse Diane Horning, que comandou uma batalha judicial fracassada de um grupo chamado Famílias do World Trade Center por um Enterro Adequado, que esperava impedir parte do projeto do parque.

Diane liderou o grupo apesar de seu filho Matthew, de 26 anos, ter sido um dos primeiros identificados. Administrador de bases de dado de uma seguradora, ele trabalhava no 95º andar da Torre Norte quando os aviões atingiram os edifícios.

Em 2009 o Tribunal de Apelações do Segundo Circuito de Nova York determinou que as acusações de que a cidade lidou equivocadamente com os restos de Fresh Kills equivaleu a uma “falta de cuidado apropriado”, o que não bastou para vencer um processo contra a cidade.

À época autoridades de Nova York disseram que a cidade não queria ser insensível ou ofender as famílias das vítimas.

Para criar o parque, o aterro de Fresh Kills foi coberto com uma camada de solo e outros materiais para evitar a liberação de gases tóxicos vindos do lixo em decomposição na atmosfera, de acordo com a Aliança do Parque de Freshkills, parceira sem fins lucrativos da cidade de Nova York no empreendimento.

Charles Wolf perdeu a esposa, Katherine, no 11 de setembro, e seus restos não foram identificados - mas, se eles estiverem no aterro selado, ele considera que foi “a vontade de Deus” e está “em paz” com isso.

"Qual a solução? Cavar tudo e arriscar expor todas essa toxinas no meio ambiente?", questionou Wolf. "Não, esta não é a resposta, porque esse 'remédio' no fim das contas seria pior do que a 'doença'."

Avanços científicos

A habilidade para identificar mais vítimas é o mais recente capítulo de uma dolorosa saga que começou na manhã de 11 de setembro de 2001, quando dois aviões comerciais se chocaram contra as Torres Gêmeas do World Trade Center.

A destruição dos edifícios fazia parte de um plano coordenado da Al-Qaeda envolvendo o sequestro de quatro aviões e que deixaram mais de 3 mil mortos em Nova York, Washington e na Pensilvânia, onde uma das aeronaves caiu em uma área rural. Os ataques desencadearam uma escalada militar dos EUA no Oriente Médio que continua até os dias atuais.

Relembre os atentados de 11 de setembro de 2001

O avanço científico na extração de material genético aconteceu neste ano e foi anunciada na semana passada pelo chefe do IML de Nova York, poucos dias antes do 17º aniversário dos ataques terroristas.

A nova técnica coloca fragmentos de ossos em uma câmara contendo nitrogênio líquido para deixá-los mais frágeis de forma que possam ser pulverizados como um pó fino. Quanto mais o osso for pulverizado, maior é a possibilidade de extrair DNA dele.

Este é o mais recente esforço na maior investigação forense da história dos Estados Unidos, que envolve um time de 10 cientistas que ainda trabalham nos restos que eram considerados degradados em razão do contato com combustível de aviação, do calor e de outras condições extremas.

"Voltamos a analisar os mesmos restos mortais que testamos 5, 10 ou 15 vezes", disse Mark Desire, chefe do laboratório de criminalística do IML. "Estamos fazendo perfil de DNA de restos que no passado não tinham nenhuma esperança de identificação."

Wolf, que está entre os que não eram contra o projeto do Parque Freshkills, ficou feliz pelo esforço das equipes forenses. "Isso me deixa esperançoso de que possivelmente haverá restos mortais identificados para pessoas que ainda os querem", disse ele.

"Eu passei por muito trauma por não ter nada (físico) para lamentar", afirmou Wolf, com a voz embargada ao telefone. "Me lembro de ver Nancy Reagan tocar o caixão do marido. Eu senti falta de não poder ter feito isso." / REUTERS

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