Jim Lo Scalzo/EFE
Ativistas das mudanças climáticas pedem mudanças ao presidente Joe Biden, em Washington    Jim Lo Scalzo/EFE

Para fazer sua revolução verde, Biden terá de mudar hábito dos americanos

Presidente projeta um país de carros elétricos, impulsionado por energia renovável e edifícios mais eficientes, mas resultado depende de incentivos fiscais e da montagem de uma infraestrutura nova, que demanda pesados investimentos públicos

Beatriz Bulla / Correspondente , O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Até o fim da década, se depender de Joe Biden, uma em cada cinco crianças nos EUA irá para a escola em ônibus elétricos. Serviços federais, como os correios, só usarão carros movidos a eletricidade. Prédios antigos terão maior eficiência energética. Dos pátios das fábricas sairão painéis solares e sistemas de captura de carbono. No mundo sonhado pelo democrata, o governo investirá em inovação e pesquisa, abandonando os combustíveis fósseis. Metade da energia virá de fontes renováveis. 

O desenho do que será o novo país mescla propostas do próprio presidente e um cronograma rígido para atingir a meta anunciada por Biden na cúpula do clima. Ele prometeu cortar entre 50% e 52% as emissões de carbono dos EUA até 2030, na comparação com os níveis de 2005. Isso exigirá mudanças no consumo de energia, promoverá alterações no mercado de trabalho e na maneira como os americanos se deslocam.

Biden promete acelerar a transição usando dinheiro público para intervir no mercado de eletricidade, com crédito tributário e determinação de padrões mínimos de consumo de fontes renováveis. A ideia é usar o poder de compra do governo federal, que gasta mais de US$ 500 bilhões em bens e serviços todos os anos, para impulsionar a agenda verde. A frota de carros oficiais será substituída por veículos elétricos e todos os prédios federais consumirão energia limpa.

“Investimentos na produção de energia renovável com custo competitivo, implantação estratégica de um imposto de carbono neutro em termos de receita e captura de carbono são os caminhos mais promissores e econômicos para os EUA cumprirem seus compromissos e responsabilidades globais”, afirma Arun Agrawal, professor da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan. Segundo ele, o corte de 50% nas emissões de carbono é “viável” e “o primeiro passo” dos EUA para frear as mudanças climáticas.

Na última década, o país registrou queda nas emissões de carbono após substituir usinas movidas a carvão por gás natural. Para alcançar a neutralidade até 2050, no entanto, os EUA terão de acabar com o uso de combustíveis fósseis e adaptar o consumo do gás natural, que deve ser cortado pela metade nos próximos dez anos, segundo modelo da organização Energy Innovation. 

A Universidade de Maryland projeta que até 2025 todas as novas usinas de gás natural estejam equipadas com mecanismos de captura e armazenamento de dióxido de carbono. O mesmo estudo estima que as fontes renováveis de energia, que hoje representam um quinto da eletricidade total gerada nos EUA, precisam corresponder à metade do total. Isso significa que os americanos terão de quadruplicar a geração de energia renovável.

“São mudanças enormes em eletricidade e transporte. Se falharmos em qualquer área, a tarefa se torna muito mais difícil”, disse Nathan Hultman, um dos autores do modelo proposto pela Universidade de Maryland, ao New York Times. 

Biden tem o próprio plano trilionário para cumprir a meta anunciada, mas depende do Congresso. O projeto de criação de empregos que o presidente americano quer aprovar é apoiado na agenda ambiental e na renovação da infraestrutura do país. No programa, Biden promete, por exemplo, reformar mais de 2 milhões de prédios residenciais e comerciais, escolas, creches e edifícios federais para aumentar a eficiência energética das construções.

Funcionários do governo afirmam que a Casa Branca conseguirá cumprir a meta de reduzir pela metade as emissões de carbono até 2030, ainda que o Congresso não aprove o pacote de infraestrutura de US$ 2,2 trilhões (cerca de R$ 12 trilhões). Especialistas, no entanto, acreditam que sem o plano será difícil tirar as promessas do papel.

A verba prevista no pacote de infraestrutura para reformas no sistema viário dos EUA, segundo Biden, dará mais segurança para pedestres e ciclistas, além de permitir dobrar o financiamento federal para transporte público. Um levantamento do Departamento de Transporte indica que é preciso US$ 105 bilhões para consertar 24 mil ônibus, 5 mil vagões de metrô, 200 estações e trilhos. Tudo isso torna atrasos e interrupções no transporte público frequentes, o que estimula o uso de carros.

Biden também quer tornar os EUA um país de carros elétricos e convencer os motoristas a substituírem seus veículos movidos a gasolina e diesel. A tarefa é difícil, já que os carros do futuro representam 1% da frota total e 2% dos veículos recém-saídos de fábrica. Não só porque custam cerca de US$ 10 mil a mais do que um abastecido a gasolina, mas também porque ninguém sabe onde carregá-los. Para isso, Biden promete construir 500 mil estações de carregamento, além de oferecer incentivos fiscais para indivíduos e empresas que optem pelos carros elétricos. 

As montadoras anunciaram investimentos. A General Motors acredita que terá apenas carros elétricos a partir de 2035. Mas o sucesso dessa estratégia, dizem especialistas, dependerá da capacidade de as empresas americanas produzirem baterias, um item essencial. 

“A meta de redução de emissões de Biden exigirá um enorme crescimento na produção de bateria de íon de lítio para esses carros elétricos futuros”, afirma Anna Stefanopoulou, professora de engenharia da Universidade de Michigan. Segundo ela, os EUA precisam desenvolver uma economia de bateria circular e treinar especialistas para fabricar e fazer a manutenção das baterias. 

Por isso, talvez o braço crucial do programa de Biden seja o investimento público em pesquisa e desenvolvimento, que inclui treinamento de equipe e reforma de laboratórios para posicionar os EUA como líder global em tecnologia de energia limpa. O país quer desenvolver projetos de armazenamento de energia em escala, captura de carbono e energia nuclear.

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Desafios energéticos para as metas de China, Japão e Coreia; leia análise

Discurso ma cúpula foi de fortalecimento de parcerias e cooperação, incluindo com os EUA, mas nota-se a rivalidade também pela liderança nas discussões climáticas globais

Alexandre Uehara* , O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

A Cúpula dos Líderes sobre o Clima marcou a volta dos EUA a um papel de protagonismo nas discussões mundiais sobre o tema, após um período de afastamento promovido pelo ex-presidente Donald Trump. Foi também um movimento em direção às discussões que serão realizadas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26) em novembro em Glasgow.

Líderes de 40 países discursaram sobre a cooperação global para enfrentar a crise climática, entre eles alguns representantes de países asiáticos, que são economicamente importantes e estão também entre os maiores poluidores da atmosfera. De acordo os dados do relatório da Agência Internacional de Energia, em 2018 a China ocupa o primeiro lugar no mundo, representando 28% do total das emissões globais de gases, a Índia (7%) é a terceira, atrás dos EUA (15%), o Japão (3%) o quinto maior e a Coreia Sul (2%) o oitavo. Esses países asiáticos juntos somam cerca de 40% das emissões mundiais, mas neste artigo o foco será sobre os três países do nordeste asiático, China, Coreia do Sul e Japão.

No caso da China, apesar da tensa reunião ocorrida no Alasca há poucas semanas entre representantes do governo de Pequim e Washington, o presidente Xi Jinping marcou presença no evento do presidente Biden. O discurso foi de fortalecimento de parcerias e cooperação, incluindo com os EUA, mas nota-se a rivalidade também pela liderança nas discussões climáticas globais. O presidente chinês afirmou que o pico das emissões ocorrerá até 2030, depois disso haverá reduções das emissões que serão zeradas em 2060. 

Porém, o calcanhar de Aquiles da China é a dependência energética do carvão que abastece, por exemplo, as usinas elétricas e as siderúrgicas nesse país. Quanto maior o crescimento econômico, maior a demanda por aço e energia, consequentemente, maior será a queima de carvão. Portanto, a manutenção da expansão da economia e o cumprimento das metas anunciadas exigirá necessariamente a adoção de fontes sustentáveis de energia.

O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, apresentou o objetivo de se tornar neutra em emissões de carbono até 2050 e reduzir em 24,4% as emissões de gás carbônico em relação ao nível de 2017 até 2030. Mas, a Coreia é o país membro da OECD com menor participação de recursos renováveis para produção de energia elétrica, cerca de 5%. 

Apesar disso, o presidente sul-coreano apresentou como meta a eliminação do carvão como fonte de energia no país até 2030. Além disso, afirmou que interromperá o financiamento de projetos no exterior que envolvam energia à carvão. A superação da dependência energética do carvão é um desafio, dado que a economia coreana é a quarta maior importadora de carvão do mundo -- atrás apenas da China, Índia e Japão.

O primeiro-ministro Yoshihide Suga ressaltou a disposição japonesa para assumir uma liderança internacional na descarbonização mundial, mas também declarou a necessidade de abordagens multilaterais à solução do problema das mudanças climáticas. Para o Japão, especificamente, apresentou o compromisso de zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050 e, revelou a elevação da meta de redução nas emissões de gases de efeito estufa para 46% até o ano fiscal de 2030 em relação aos níveis de 2013. Esse valor representou uma resposta às críticas da meta anterior de redução que era de 26% para o mesmo período e que era considerado muito tímido.

Um dos problemas para o Japão cumprir a meta está relacionado ao tríplice desastre ocorrido em Fukushima em 2011, que envolveu o terremoto, o tsunami e a explosão dos reatores nucleares. Por causa desses acontecimentos, há uma lenta retomada da energia nuclear e o país manteve sua matriz energética sustentada no carvão, que é um elemento mais poluidor. Uma política anunciada para tentar contornar essa situação é a iniciativa do governo para criar um ciclo virtuoso entre a economia e o meio ambiente, induzindo o investimento de empresas para maximização do uso de fontes de energia descarbonizadas e de energias renováveis.

Como se pode observar, para cada país há obstáculos a serem superados para o cumprimento das metas, e não só para os países mencionados neste artigo. Ao longo do evento outros líderes apresentaram suas metas, alguns mais ousados outros menos. Mas, algo comum a todos é que os objetivos não serão realizáveis sem real compromisso das partes. Por isso, apesar de ser positiva a realização do evento ao mostrar novamente a importância o tema para o mundo, há a necessidade de que as sociedades em cada país continuem acompanhando e cobrando resultados concretos dos governos, incluindo a do Brasil.

*É COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS E NEGÓCIOS ASIÁTICOS DA ESPM

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Obstáculos internos de Biden para atingir uma economia verde; leia análise

Aprovação do plano de investimentos em infraestrutura, proposto recentemente pela administração Biden, é essencial para o desenvolvimento de uma economia verde

Denilde Holzhacker*, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

O presidente Joe Biden, no seu discurso durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, realizada virtualmente nos dias 22 e 23 de abril, foi contundente ao afirmar que “não temos escolha” e que os governos devem agir agora por questões tanto morais quanto econômicas. A sua mensagem enfatizou que o desafio não é de um país, mas da comunidade internacional e dos 40 líderes presentes na Cúpula. 

Ao evocar a urgência da questão, além da comunidade internacional, Biden também busca convencer o público americano, especialmente os congressistas republicanos, que ainda resistem em apoiar medidas que impactam a economia do país. Por isso, o discurso de Biden e de seus assessores enfatizam que compromissos ambientais colocarão os Estados Unidos na liderança de uma nova economia descarbonizada e de alto grau tecnológico. 

A relevância da agenda climática e ambiental já estava clara no início do seu governo, tanto pela escolha do John Kerry como responsável pelas negociações climáticas, como pela sua decisão de retornar ao Acordo de Paris. Os compromissos de reduzir a emissão de carbono entre 50% e 52% até 2030 e atingir a neutralidade de carbono até 2050 são partes da estratégia de liderança global dos Estados Unidos. 

Apesar dos compromissos anunciados por Biden serem mais ambiciosos do que foi proposto pelo governo Obama, quando comparado com os países europeus (que se comprometeram em reduzir em 55% suas emissões em comparação aos níveis de 1990) a meta americana fica em torno de 41% e 44%. Essa diferença acontece porque os Estados Unidos consideram os níveis de 2005, enquanto os europeus utilizam como métrica os níveis de emissão de 1990.

Além disso, de acordo com projeções do Climate Action Tracker, os Estados Unidos teriam de reduzir a emissão de carbono em 57% para atingir a meta climática de Biden em 2050, ou seja, para alcançar as emissões líquidas de carbono zero até metade do século. 

Porém, é inegável que o anúncio de Biden tem um forte impacto para a economia e sociedade americana, especialmente se considerarmos as resistências existentes em setores econômicos e políticos presentes desde o governo Obama. A pergunta, então, que se coloca é o quanto esse compromisso é viável? Quais são os desafios para que os Estados Unidos sigam em direção a uma transformação econômica e social?  Muitos dos estudos mostram que a redução entre 50% e 52% é factível e poderá ser alcançada, mas é preciso fortes investimentos em setores como energia, transporte, produção industrial e tecnologia, por exemplo. 

Estudo do Centro de Sustentabilidade da Universidade de Maryland aponta que o governo Biden terá que negociar com o Congresso investimentos para setores de energias renováveis, infraestrutura e apoio à pesquisa e ao desenvolvimento. A aprovação do plano de investimentos em infraestrutura, proposto recentemente pela administração Biden, é essencial para o desenvolvimento de uma economia verde.

O governo também deve se voltar para alterações regulatórias, que tenham impacto na eficiência energética e na emissão de gases não-CO2. A ampliação da cooperação entre a administração federal com governos estaduais e das cidades americanas para a implementação de políticas públicas deverá ser parte da estratégia do país. As ações devem ser coordenadas em diferentes esferas governamentais para terem impacto no longo prazo.

A transição para uma economia verde e de zero-carbono envolverá também o engajamento do setor privado com a mudança nos padrões de produção e comprometimento com as metas de redução. Nesse sentido, a Cúpula dá um passo importante ao incorporar as empresas nos debates nos dois dias de evento. A aliança público-privada permitirá avanços significativos para mitigação dos riscos ambientais. 

Do ponto de vista internacional, Biden prometeu, sem muito detalhamento, dobrar até 2024 os recursos para financiamentos aos países em desenvolvimento. Também anunciou a criação de um Plano Internacional de Financiamento Climático dos Estados Unidos.  Outra iniciativa internacional foi a criação da Coalizão Leaf  (Lowering Emission by Accelerating Forest Finance), na qual participam empresas globais e os governos dos Estados Unidos, Reino Unido e Noruega.  Essas iniciativas reforçam que a superação dos desafios globais depende da cooperação entre governos, empresas e sociedade.  

O histórico dos Estados Unidos nas negociações climáticas gera um certo ceticismo em alguns setores quanto à capacidade do governo Biden de superar as resistências domésticas e, de fato, garantir avanços nos âmbitos interno e externo. A existência de um movimento global para uma nova economia, com forte engajamento de investidores, empresas e sociedade, se houver empenho político, o governo Biden deu um importante passo para consolidar a agenda climática e ambiental no país. 

*Denilde Holzhacker é cientista política e professora de Relações Internacionais da ESPM São Paulo

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UE enfrenta crise com lei de defesa da sustentabilidade; leia análise

Lei Europeia do Clima é a peça mais recente de uma política do clima robusta, desenvolvida num sistema político complexo que divide competências entre governos nacionais e instituições de Bruxelas

Carolina Pavese*, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Na última quarta-feira, enquanto as principais lideranças mundiais se preparavam para a cúpula do clima promovida pelo governo de Joe Biden, a União Europeia reafirmou seu protagonismo nesta agenda de governança global. Reunidos em Bruxelas, depois de 14 horas de negociações, o Parlamento Europeu e representantes dos 27 Estados membros do bloco aprovaram a Lei Europeia do Clima. Já nomeada de “lei das leis”, o instrumento consolida o comprometimento da UE em atingir a neutralidade de carbono até 2050. 

Um dos itens mais controversos das negociações foi a adoção da meta intermediária de redução em 55% das emissões de gases de efeito estufa até 2030, tendo como referência os índices de 1990. O texto final exclui a proposta de aprofundar a regulamentação de subsídios ao setor energético, sobretudo combustíveis fósseis, discussão adiada para outro momento. Para auxiliar os Estados a atingir a ambiciosa meta e alinhar suas políticas nacionais, a lei também institui o Conselho Científico Consultivo Europeu. Enquanto isso, a Comissão Europeia, braço executivo do bloco e que detém poder de iniciativa legislativa, comprometeu-se a auxiliar governos na elaboração de um plano para a descarbonização de setores industriais.

O engajamento com uma meta de neutralidade de carbono para 2050 não é novidade, nem exclusividade da Europa. Dados da ONU de 2020 indicaram que mais de 110 países já haviam se comprometido com o mesmo objetivo. A exceção ao grupo inclui a China, que trabalha com 2060 como ano de referência. Assim, não surpreendeu que a menção a 2050 tenha sido presente na retórica de basicamente todas as lideranças que participaram da Cúpula do Clima desta semana, inclusive – pasmem – do Brasil. Ademais, o anúncio de compromissos e metas já estava previsto como exercício preparatório para a COP do Clima que ocorrerá em novembro deste ano, em Glasgow.

É necessário, portanto, diferenciar o joio do trigo. Há aqueles governos que incorporam de maneira irresponsável o compromisso com a governança climática em seus discursos, em uma tentativa cínica de refutar evidências que comprovam que suas políticas ambientais estão na contramão das tendências globais. Em contrapartida, existem aqueles que estão genuinamente comprometidos com a mitigação das mudanças climáticas, mesmo que suas respostas não sejam à altura da seriedade do problema, que beira a irreversibilidade. E é neste grupo que incluímos a União Europeia.

A Lei Europeia do Clima é a peça mais recente de uma política do clima robusta, desenvolvida num sistema político complexo que divide competências entre governos nacionais e instituições de Bruxelas, gerando um modelo de governança exclusivo do bloco europeu. O novo instrumento legal vem, portanto, para integrar o chamado Green Deal (Acordo Verde) da União Europeia. 

Adotado em 2019, o Acordo pode ser traduzido como um plano de ação para a promoção da sustentabilidade. As atividades abrangidas pelo plano incluem desde construção civil, energia, transporte, indústria até biodiversidade. Poluição, mudanças climáticas e economia circular são outros temas centrais no Acordo Verde. Para promovê-lo, a UE adotou um mecanismo de financiamento igualmente complexo com a mobilização de, no mínimo, 1 trilhão de euros até 2030. Apenas da pasta de meio ambiente e clima do orçamento do bloco serão destinados 503 bilhões de euros. O mecanismo ainda prevê contribuições robustas dos 27 Estados membros e da iniciativa privada.

Além de fazer seu dever de casa, a União Europeia tem igualmente firmado seu compromisso com a sustentabilidade no âmbito internacional. Desde a criação do chamado regime internacional de mudanças climáticas, o bloco sistematicamente aumentou de modo voluntário suas metas, indo além do estabelecido nos acordos multilaterais. 

Como uma das principais economias mundiais, e considerando sua responsabilidade histórica com a crise climática, o exemplo da União Europeia é importante por duas razões: primeiro, ele eleva grau de expectativa sobre as demais potências globais para adotarem metas similares, pressionado para que o resultado das negociações multilaterais seja mais próximo das medidas necessárias para se minimizar um problema que requer ação coletiva. Em segundo lugar, há uma contribuição objetiva e direta para a mitigação das mudanças climáticas, uma vez que, em 2018, o bloco foi terceiro emissor de gases de efeito estufa  (8% das emissões globais), atrás da China (26%) e dos Estados Unidos (13,5%), em 2018.

Neste cenário, as medidas adotadas pela União Europeia são bem-vindas, mas também recebidas como insuficientes. Resta saber como outras lideranças se posicionarão, diante da urgência da crise climática. Não nos resta muito tempo.

 

*Carolina Pavese é doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics e professora da ESPM São Paulo

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Cúpula mostrou o papel de Putin na geopolítica global; leia análise

Participação do presidente russo era aguardada em virtude do afastamento pelo qual Rússia e Estados Unidos vinham enfrentando desde o governo de Barack Obama

Roberto Uebel*, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

A Cúpula de Líderes sobre o Clima realizada na semana passada foi a primeira oportunidade do presidente americano, Joe Biden, apresentar para o mundo a agenda que deverá dar a tônica de sua política externa nos próximos anos: as preocupações ambientais e climáticas. 

As mudanças climáticas estão na pauta internacional há, no mínimo, 30 anos. Os eventos mais importantes neste sentido foram realizados na última década -- a Rio+20 (2012) e a assinatura do Acordo de Paris (2015). Porém, a emergência de governos antiglobalização e críticos das pautas ambientais, como o recém-findado de Donald Trump, esvaziou o debate entre as lideranças globais, o que foi agravado pela pandemia da covid-19, que desviou o foco da política internacional e seus atores.

A cúpula organizada por Biden contou com a participação de mais de 40 líderes mundiais, dentre eles, os governantes das maiores potências econômicas – e as mais poluidoras –, como Rússia, Índia, China, países da União Europeia, Reino Unido e o Brasil, além da presença do secretário-geral da ONU. No caso brasileiro, 24 governadores enviaram uma carta ao presidente americano pontuando suas preocupações com relação à inação do governo federal na pauta ambiental e propuseram um canal de diálogo direto com Washington. Esta atitude se consolida como mais um elemento da diplomacia subnacional, que vem ganhando força no Brasil desde o começo da pandemia.

Outro destaque da cúpula foi a participação de Xi Jinping e de Vladimir Putin, líderes da China e Rússia, cujos países foram e têm sido alvo de críticas por parte do governo norte-americano, gerando inclusive animosidades geopolíticas nos últimos anos. Ambos se comprometeram a reduzir as emissões de carbono e de gases causadores do efeito estufa, bem como a adotarem energias limpas em suas economias.

A participação de Putin era aguardada em virtude do afastamento pelo qual Rússia e Estados Unidos vinham enfrentando desde o governo de Barack Obama e pela expectativa de como Biden se relacionará com os líderes das demais potências mundiais. Ou seja, a conferência organizada pelo governo americano não tinha como objetivo apenas a discussão climática e ambiental, mas também buscava preparar o terreno para uma aproximação calculada, de acordo com o modus operandi de Moscou e Pequim.

Em sua exposição sobre o comprometimento da Rússia com a redução de carbono e adoção de energias limpas, Putin continuou o seu discurso do dia anterior sobre o estado da nação, proferido anualmente ao Parlamento russo, e que neste ano enfatizou a meta de reduzir as emissões até o ano de 2050, um prazo distante daquele proposto por Biden e pela ONU, de 2030, e que abre margem para que a Rússia siga em um processo lento e gradual. Apesar disso, o destaque foi o tom diplomático adotado pelo presidente russo e pela preocupação que levantou sobre a emissão de metano, cujos maiores emissores são a Rússia e os Estados Unidos.

O discurso de Putin apresenta uma visão de globalização pragmática (ou contida), que começa a dar os seus primeiros passos neste momento em que a pandemia, embora continue na prioridade dos governos nacionais, é freada gradualmente pela vacinação. Não devemos esperar uma conciliação ou uma proximidade de tempos passados entre Moscou e Washington, se é que existiu. Porém, a depender do discurso de Putin, há indícios de que a política externa russa de fato está preocupada com as questões globais - nos moldes russos, evidentemente. Entretanto, qualquer movimento de provocação por parte da potência americana terá resposta equivalente, como de costume.

Portanto, a cúpula organizada por Joe Biden serviu para mensurarmos a temperatura das Relações Internacionais após um ano de uma pandemia que trouxe impactos significativos para a geopolítica mundial, e o estágio em que a agenda climática se encontra. Foi possível ver um comprometimento contundente dos líderes da Índia, China, Rússia, Reino Unido e países da União Europeia, e uma preocupação com relação às promessas brasileiras.

Se Biden estava fadado a cumprir um 'governo Obama 3', a sua cúpula sobre o clima foi um interessante evento para prospectarmos o futuro das relações internacionais e os próximos movimentos das grandes potências, sobretudo da Rússia e China. Se todos irão cumprir com as suas promessas, restará aguardarmos e fiscalizarmos até 2030. Ou, no caso russo, 2050. 

*Roberto Uebel é professor de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre

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Panorama da América Latina na Cúpula do Clima 2021; leia análise

É provável que o discurso de Bolsonaro tenha retomado a velha política internacional 'para inglês ver', a fim de atenuar a imagem negativa causada pelo seu governo

Paulo Niccoli Ramirez*, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2021 | 05h00

Entre os dias 22 e 23 de abril, a cúpula do clima foi realizada por videoconferência devido à pandemia. A principal novidade é o retorno dos EUA como protagonista nos debates ambientais, após o governo de Trump se caracterizar por postura negacionista e promover em 2017 a retirada de seu país do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas (2015).

A principal meta anunciada por Biden, organizador do evento, foi a redução de 50% das emissões de gases de efeito estufa até 2030. A mudança de governo e de tom na política climática dos EUA explica por que o discurso de Jair Bolsonaro também mudou. Antes braço direito de Trump na América do Sul, o atual presidente brasileiro perdeu seu principal avalista (e negacionista) internacional, o que para muitos justificaria a busca de um alinhamento do Brasil ao novo governo americano. 

Desde o primeiro ano de mandato, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão têm criado atritos com ambientalistas e institutos de pesquisas, como o INPE, contrariando dados científicos obtidos por meio de satélites, que demonstraram recordes de desmatamento e queimadas no Brasil. Em 2019, Jair Bolsonaro se referiu como “pirralha” à mais importante ativista ambientalista jovem, Greta Thunberg.  O atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerado imperito em seu ofício, é acusado de fazer vistas grossas aos interesses predatórios de grileiros, desmatadores e agricultores dotados de técnicas primitivas de manejo nas florestas e de violência contra índios. 

Salles tem se envolvido em polêmicas em redes sociais, principalmente com personalidades. Chegou a postar nessa semana imagens de índios com celulares nas mãos, sugerindo que a incorporação desta tecnologia faria com que o índio deixasse de ser índio. Seria como dizer que o consumo de hambúrguer em um fast food fizesse com que um sujeito não fosse mais brasileiro. Salles demonstra absoluto desconhecimento antropológico.

A lição primária dessa disciplina, nos mostra Lévi-Strauss, é compreender que historicamente todas as culturas estão em transformação ou metamorfose, são plásticas e, com maior ou menor grau, realizam intercâmbios de toda espécie com outras sociedades. Mesmo uma eventual sociedade indígena ainda isolada do contato do mundo ocidental, não foi e nunca será exatamente idêntica ao seu passado ou futuro, ainda que muitas de suas tradições e costumes possam perdurar ou ser modificadas em menor ritmo.

Bolsonaro, o 19º a discursar na cúpula do clima desse ano, surpreendeu aos EUA de Biden e outros chefes de estado. Contradizendo dados sobre desmatamento e queimadas, e sob os olhos céticos dos movimentos ambientalistas e das mídias nacionais e estrangeiras, Bolsonaro realizou um gesto em direção à proteção do meio ambiente pela primeira desde que se tornou presidente, afirmando que o Brasil eliminará o desmatamento até 2030 com redução de 50% de gases poluentes - vale lembrar que, mesmo reeleito, Bolsonaro não estará na presidência até o fim do prazo. Além disso, afirmou o fortalecimento de órgãos ambientais e aumento do orçamento para fiscalizações, apesar de ser criticado por realizar cortes nessas áreas desde que assumiu o cargo. Solicitou auxílio econômico das potências mundiais para o seu (suposto) programa.

É provável que o discurso de Bolsonaro tenha retomado a velha política internacional “para inglês ver”, a fim de atenuar a imagem negativa causada pelo seu governo. Ao lado da ausência de uma política pandêmica minimamente eficaz, a imagem do país tem sido tomada e discutida como preocupante devido aos retrocessos das políticas ambientais. Investidores têm pensado duas, três vezes antes de associar suas marcas e produtos a um governo desorganizado que põe em risco o meio ambiente e os povos tradicionais da floresta. 

Pode-se dizer que o discurso de Bolsonaro foi preparado também para “brasileiros decepcionados verem”. Pressionado internamente pela CPI da Covid; com o retorno da fome e aumento da miséria; abandonado por parte da cúpula das Forças Armadas no último mês; e com o provável retorno de Lula à cena política, o discurso foi direcionado aos seus eleitores decepcionados ou prestes a “pular do barco”. 

A proposta do presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador agradou a Biden. Destacou-se por tratar de uma parceria com os EUA para promover um gigantesco reflorestamento na América Central. Especula-se que o acordo envolva a negociação da pauta imigratória, sendo uma solução possível a redução da imigração por meio da geração de empregos nesse projeto ambiental. 

Alberto Fernández, presidente da Argentina, reiterou em seu discurso o compromisso de elevar para 30% a matriz energética de origem renovável e a aprovação de leis ambientais contra o desmatamento de bosques nativos. Criticou o endividamento de seu país durante a pandemia e solicitou a renegociação da dívida com o FMI, a fim de que direitos ambientais e sociais possam ser realizados adequadamente.

 

*Paulo Niccoli Ramirez é sociólogo e professor da ESPM São Paulo

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