Para frear o massacre, negocie com Assad

Ideia de dar apoio a grupos armados contra Damasco ignora divisão interna da população síria e aprofunda características sectárias

Asli Bali e Aziz Rana, do The New York Times

12 de abril de 2012 | 03h01

Como resultado da recente conferência dos chamados Amigos da Síria, EUA e governos do Oriente Médio, incluindo Turquia, Catar e Arábia Saudita, vêm aumentando a ajuda a grupos armados de resistência na Síria. Sob a liderança americana, a conferência terminou com a promessa de fornecer US$ 100 milhões em salários aos rebeldes.

Essa estratégia e o debate sobre "zonas seguras" e "apoio não letal" são equivocados, no melhor dos casos, e contraproducentes, no pior. Apesar da conversa sobre proteção de civis, o mais provável é que a proposta intensifique a violência, em vez de reduzir o número de vítimas. Isso porque os argumentos em favor de ajuda direta aos rebeldes omitem as complexidades dentro da Síria.

De um lado, amplos setores do país opõem-se ao presidente Bashar Assad e apoiam os rebeldes. Em cidades como Homs e Deraa a brutalidade das Forças Armadas tem aumentado o apoio aos rebeldes. Mas em outras partes, como Damasco e Alepo, o quadro é mais ambíguo. Algumas áreas apoiam uma rede de organizadores de protestos contra o governo, enquanto amplos setores da sociedade - incluindo cristãos, drusos e alauitas, além da classe média - mantêm-se com Assad. A explicação provável é que temem uma maior instabilidade, como também o possível surgimento de um governo islâmico.

A ajuda às forças de oposição é substituível: mesmo que seja "não letal" ou financeira, ela equivale a armar os rebeldes e tomar partido numa guerra civil. Os que defendem tais medidas são países de maioria sunita, cujo apoio contra o regime dominado pelos alauitas pode alimentar tensões étnicas e sectárias.

Xadrez regional. Então o que mais está em jogo? Se o envolvimento de atores externos transformar o conflito civil na Síria numa guerra por procuração contra o governo Assad e seus aliados - Irã e Rússia -, então a intervenção fortalecerá as potências pró-ocidentais à custa dos civis sírios. Essa ação contribuirá para debilitar as restrições internacionais ao uso da força, especialmente aquelas com base na não intervenção.

A melhor maneira de reduzir a violência é persistir nas negociações de uma transição política que inclua, em vez de explicitamente ameaçar, o governo Assad. Diante do medo das comunidades em cada lado do conflito, a primeira meta seria deixar claro que todos os grupos têm um futuro numa nova Síria.

Se estamos interessados em proteger a população civil, em vez de usar isso como uma oportunidade estratégica para acabar com alianças regionais, os benefícios de uma transição negociada são claros. Ela pode não reforçar nossa posição geopolítica, mas ajudará a proteger os cidadãos sírios pegos no fogo cruzado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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