Para Frei, já é tempo de aplicar as penas aos envolvidos

Filho do ex-presidente contaminado por toxinas atribui à persistência de um juiz chileno o avanço das investigações

O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h06

O cenário da morte de Eduardo Frei Montalva, que governou o Chile entre 1964 e 1970, traz à tona mais um capítulo do ódio de Augusto Pinochet contra os que lutavam pelo fim de seu regime sanguinário. Em 1980, ao liderar a reação popular contra uma Constituição ditatorial, Frei Montalva colocou-se na linha de tiro do general. Era só uma questão de oportunidade.

No ano seguinte, fatos estranhos cercaram a internação deste democrata-cristão que apoiou o golpe contra Allende, mas depois se bandeou para a oposição: era para ser submetido a uma operação simples de hérnia. Dois meses depois, estava morto. É sobre esse período que há anos se debruça o juiz Alejandro Madrid, da Corte de Apelações do Chile, num processo com três dezenas de volumes e cadernos secretos.

Para a Justiça, este assassinato político pode ser entendido como uma peça em três atos: vigiar, envenenar, ocultar. Pinochet, que se gabava de seu controlismo - "nenhuma folha cai neste país sem que eu saiba" -, recebia relatórios sobre Frei Montalva. Os venenos, conforme os autos, foram administrados durante período de internação na Clínica Santa María, em Santiago, em doses controladas e sucessivas: um coquetel à base de mostarda sulfúrica, tálio e um imunodepressor. Médicos o introduziam pela veia, sem dar registro do procedimento na ficha do paciente. Assim fez o doutor Juan Carlos Valdivia, segundo a investigação.

A clínica encarregou-se da autópsia menos de uma hora após a morte, feita numa maca, no quarto do doente, sem autorização da família. O corpo do presidente foi pendurado, esvaziado e seus órgãos, descartados. Assim trabalharam os médicos Helmar Rosenberg e Sergio González, trazidos de outra clínica para fazer o serviço. "Sabíamos que aquilo era estranho, irregular, mas não podíamos fazer grande coisa. Estávamos sob uma ditadura feroz", admite hoje o senador Eduardo Frei, eleito presidente em 1993, pela Concertação. E tudo pairaria nas sombras até 2004, quando o juiz ordenou a exumação e perícias, constatando a presença das substâncias.

A investigação do caso Frei vem ampliando o conhecimento sobre experimentos radicais, envolvendo produtos químicos e bacteriológicos, no extermínio dos adversários de Pinochet. Desde a ordem para assassinar o ex-ministro de Allende, Orlando Letelier - que acabou se materializando num brutal atentado a bomba, em Washington -, o químico chileno Eugenio Berríos vinha trabalhando em parceria com o agente da CIA Michael Townley, na casa deste, no Chile. Townley, hoje em programa de proteção a testemunhas nos EUA, revelou detalhes da cooperação ao ser interrogado pelo juiz Madrid.

Testemunhos sinalizam que a dupla Berríos-Townley testou a eficácia de venenos em presos, antes de aplicá-los em figuras proeminentes. Bactérias (Clostridium botulitium) teriam sido remetidas pelo Brasil, por mala diplomática, indo parar no Laboratório de Guerra Bacteriológica, órgão secreto do Exército chileno. O juiz Madrid deve investigar esse elo também.

Há seis réus no caso Frei Montalva - entre eles, Luis Becerra, motorista do presidente assassinado, que tinha livre trânsito na residência da família. Entre os médicos, a dupla que realizou a autópsia, em 1982. Já o caso Neruda, sob a instrução do juiz Mario Carroza - o mesmo que atuou na comprovação do suicídio de Allende -, ajudará o de Frei na medida em que está pesquisando a colaboração entre agentes e médicos, nos serviços de saúde. Procura-se até hoje um certo doutor Price, para quem o médico Sergio Draper, que atendia Neruda na clínica, passou o turno. Nunca mais se soube dele. Pela descrição física, Price poderia ser o próprio Townley. Berríos não viveu para falar. Seu cadáver foi achado em 1995, com tiros no crânio, numa praia de Montevidéu. / L.G.

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