RODRIGO SALES/FOLHABV
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Para fugir de crise, venezuelanos vivem na rua em Roraima

Segundo a PF, 40 migrantes do país vizinho entram no Estado a cada 24 horas; há pobres, mas também professores e comerciantes

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2016 | 05h00

Todos os dias cerca de 500 cidadãos da Venezuela cruzam a fronteira com o Brasil, em Roraima, na cidade de Pacaraima. Os que têm dinheiro vão às compras nos mercados da cidade – levam arroz, feijão, milho, macarrão, enlatados, carne e frango congelados, além de artigos raros no país, como papel higiênico, sabonete e desodorante. 

A maioria, segundo a pesquisa da delegacia regional da Policia Federal, volta ao território venezuelano no fim da tarde, eventualmente um dia depois. Mas há os que rompem a regra da divisa e ficam do lado brasileiro – se possível, para sempre.

O número cresce depressa. Até o dia 27, haviam sido formalizados pela Polícia Federal local 959 pedidos de refúgio de venezuelanos. Em 2015, o total de processos do ano bateu em 234. Em 2014 foram apenas nove casos.

São 40 imigrantes a cada 24 horas, desembarcando com poucos recursos e quase sem dinheiro, índios e pequenos agricultores, mulheres e crianças – mas não apenas. São pobres, ocupam praças e ruas. Mas também há entre eles professores, comerciantes e profissionais liberais – todos fugindo da crise que destroçou a economia e a segurança interna. 

A inflação do país atingiu estratosféricos 700% em setembro e pode chegar a 2.200% em 2017, de acordo com a projeção do Fundo Monetário Internacional. As pessoas têm medo. O governo do presidente Nicolás Maduro não consegue manter a estrutura da polícia em atividade regular contra a crescente criminalidade, mas sustenta uma temida agência de informações, que atua na repressão aos dissidentes políticos, com maior atenção aos abrigados sob o partido Primero Justicia, do líder oposicionista Henrique Capriles.

O fluxo de fugitivos preocupa o governo federal. O País tem uma longa tradição humanitária em relação ao atendimento de estrangeiros em situação de risco. Entretanto, ainda não tratou de montar qualquer estrutura especial na área. As ações oficiais estão sendo conduzidas pela Polícia Federal. O delegado Alan Robson lembra que depois de uma abordagem para verificação da situação dos grupos que circulavam pelo município, 285 pessoas foram conduzidas de volta à Venezuela. “As extradições esse ano somam mais de 400”, destaca. Um agente da unidade lembra que a entrada pelo posto da divisa representa talvez 50% dos imigrantes, “enquanto a outra metade entra clandestinamente, fora das rotas controladas”.

Na brasileira Pacaraima e na venezuelana Santa Helena, cidades vizinhas de uma Amazônia onde faz frio – a temperatura média é de 15 graus –, a altitude passa de 900 metros e a paisagem é de savana, com vegetação baixa, a vida anda agitada. O prefeito Altemir Campos, reconhece que não tem como acolher os imigrantes em Pacaraima. “Eles ficam por qualquer lugar, às vezes montam barracas ou dormem em volta da estação rodoviária, mas não temos nenhum barracão para receber o pessoal”, diz. Voluntários ligados à Igreja Católica têm acomodado pontualmente famílias com crianças pequenas.

A prefeitura, em certos dias da semana, oferece nas praças um cozido de carne e legumes ou um sopão. “É o máximo que podemos fazer”, destaca Campos. O município tem 11,6 mil habitantes. A presença dos imigrantes e de compradores venezuelanos de mercadorias brasileiras fez surgir uma central de abastecimento informal. Ali, estacionam por semana 105 carretas carregadas de cereais, produtos industrializados e até frutas e legumes, para abastecer a demanda. “O problema é que desse jeito os preços dispararam”, lamenta o prefeito.

A entrepostagem também não é bem-vista em Santa Helena, com 29 mil habitantes. Na prefeitura, um secretário que não quis se identificar afirmou que a “evasão de dinheiro rumo ao Brasil não é boa” e pode haver “apreensão dos artigos". 

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