Sean Gallup/Reuters
Sean Gallup/Reuters

Para geração de jovens ativistas pelo clima, tempo para palavras acabou

Demandas na justiça e ceticismo com líderes mundiais mostram o anseio de uma geração por ações concretas

Renato Vasconcelos e Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 20h00

O enfrentamento às mudanças climáticas retomou um papel central na agenda internacional em 2021. A convocação da Cúpula de Líderes sobre o clima pelo presidente americano, Joe Biden, e as recentes decisões ligadas ao tema em instâncias legislativas e judiciárias pelo mundo abrem uma nova perspectiva de avanço para este debate - mas ainda são vistas com desconfiança por jovens ativistas ambientais.

Ao redor do mundo, a nova geração de ativistas está tomando ações com um nível de organização e seriedade cada vez maior, pressionando a classe política e acionando meios jurídicos para garantir ações concretas. É o caso da ação movida por nove jovens e adolescentes, de 15 a 24 anos, acatada pelo Tribunal Constitucional da Alemanha na semana passada. A mais alta corte alemã decidiu em favor dos ativistas, determinando que o governo deve expandir uma lei de 2019 para zerar as emissões de carbono até 2050.

Os ministros ainda repreenderam o governo da chanceler Angela Merkel. “Os recorrentes, alguns dos quais ainda são muito jovens, tiveram suas liberdades violadas pelas disposições contestadas”, diz o texto. E assinala: “Para preservar a liberdade fundamental, o legislador deveria ter tomado providências para mitigar esse fardo”.

A decisão, celebrada por jovens ativistas de diferentes países e organizações, veio duas semanas após a realização da cúpula do clima de Biden. Apesar dos pronunciamentos enfáticos sobre a necessidade de transição para uma economia sustentável e pelo anúncio de novas metas de redução das emissões de carbono atmosférico, o evento não foi suficiente para causar entusiasmo em jovens ativistas.

“É apenas mais uma cúpula. As soluções apresentadas não são suficientes para mitigar o aquecimento global”, afirma a estudante Mikaelle Farias, de 19 anos, ativista da Fridays For Future (FFF) no Brasil, organização da qual fazem parte a ativista sueca Greta Thunberg e a maioria dos demandantes da ação julgada pela Suprema Corte alemã, em conversa com o Estadão durante a realização da cúpula.

Um dia antes da cúpula do clima, Mikaelle e outros cinco ativistas endereçaram uma carta ao presidente  Joe Biden, a fim de alertá-lo sobre a política ambiental do governo Jair Bolsonaro. “Relatamos uma série de desmontes ambientais que o governo Bolsonaro vem fazendo, e destacamos que as consequências de uma decisão, de uma assinatura em um novo acordo sem um compromisso real, transparente e comprometido, pode custar a vida de toda a humanidade”, disse a ativista. E completou: “Nosso objetivo é sermos realmente escutados”.

Paraibana da cidade litorânea de Cabedelo -vizinha a João Pessoa-, Mikaelle se tornou ativista após o derramamento de petróleo que afetou o litoral brasileiro. “Ao perceber o tamanho do desastre ambiental, que prejudicou não só a vida marinha, como também as pessoas que vivem da pesca, eu precisei entender porque o governo não estava agindo de forma eficaz sobre o assunto”, explicou.

A mais de 17 mil quilômetros do litoral nordestino, o mesmo ceticismo pelos líderes mundiais é compartilhado pela ativista Mitzi Jonelle Tan, de 22 anos, nas Filipinas. Co-fundadora do Youth Advocates for Climate Action Philippines, a ativista também falou com o Estadão, antes da reunião de cúpula, e disse não ter grandes expectativas sobre uma solução prática.

"Estamos ficando sem tempo, mas tudo o que eles estão fazendo é realizar cúpulas para se sentirem importantes e se parabenizarem. Mas pelo quê? Por todas as suas metas distantes ou por seus novos 'planos incríveis' para suas metas de curto prazo, que ainda são fortemente insuficientes, e cheios de lacunas", disse a ativista."Não precisamos mais das mesmas discussões. Precisamos de ações decisivas em matéria de ação climática e justiça climática. Estamos fartos de promessas vazias e de blá-blá-blá."

Mitzi fala a partir de um dos países mais propensos a sofrer com os efeitos das mudanças climáticas. Formada por um conjunto de 7.641 ilhas a sudeste da China, as Filipinas têm 60% de sua população vivendo em áreas costeiras. O aumento do nível do mar e a perda de vida marinha seriam catastróficos para o país.

O Youth Advocates for Climate Action Philippines defende a urgência da ação climática, principalmente para o país. “Nós vimos o que acontece quando os líderes mundiais são deixados por conta própria”, diz Mitzi. "As decisões certas e necessárias para a justiça climática serão tomadas não por essas reuniões, mas pela união da juventude e do povo nas ruas e online. O impulso massivo de ativistas e a mobilização de jovens exigindo justiça climática é a única maneira de mudarmos".

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