Marcos Correa/ PR
Marcos Correa/ PR

Para governo, Brasil propôs metas ambientais mais ambiciosas que as dos EUA; leia bastidores

Política ambiental brasileira, no entanto, enfrenta muitas críticas da comunidade internacional por causa do aumento do desmatamento e dos incêndios, especialmente na Amazônia e no Pantanal

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 17h17

BRASÍLIA -  O governo avalia que se saiu bem na sua participação na cúpula do clima, convocada pelo presidente americano, Joe  Biden. Para integrantes do governo, o presidente Jair Bolsonaro não chegou ao encontro “de mãos vazias” e propôs metas ambientais até mais ambiciosas do que as que foram apresentadas pelos Estados Unidos no encontro.

A política ambiental brasileira enfrenta muitas críticas da comunidade internacional por causa do aumento do desmatamento e dos incêndios, especialmente na Amazônia e no Pantanal, o que aumenta o ceticismo em relação às promessas feitas por Bolsonaro no encontro. Apesar disso, o governo acha que levou para a mesa de discussões  resoluções mais importantes do que as do governo americano. Para um ministro próximo do presidente Bolsonaro, as novidades levadas por Biden não foram "tão ambiciosas".

Nesse comparativo, o governo ressalta que o Brasil antecipou de 2060 para 2050 a neutralidade climática (zerar emissão dos gases de efeito estufa) do País, algo que os americanos não apresentaram. Bolsonaro prometeu desmatamento ilegal zerado em 2030. Isso, portanto, gera 50% de redução das emissões, o que equivale ao que os Estados Unidos anunciaram como sua meta. Para 2025, o Brasil prometeu reduzir as emissões em 37%, enquanto a meta dos americanos é de 28%.

Na questão do desmatamento ilegal, o governo também acha que marcou uma posição importante, ao se comprometer a eliminá-lo até 2030. E o Planalto entende que foi importante ter incluído no discurso do presidente que há o “desafio de melhorar a vida dos mais de 23 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia. Região mais rica do País em recursos naturais, mas que apresenta os piores índices de desenvolvimento humano”. Segundo um ministro, “não tem nenhum assunto que possa o governo americano vir aqui e apontar o dedo para o Brasil”. 

Pouco depois da fala de Bolsonaro, o ministro da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, reforçou o tom ufanista do governo pelas redes sociais: “O Brasil é um dos países que mais preservam sua vegetação nativa, com mais de 60%. 14% da mata protegida do mundo se deve ao Brasil. O presidente Bolsonaro, defensor da nossa Amazônia, luta para manter esses números. Nossa política contra o desmatamento é dura”, disse o ministro.

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Na prática, o governo tenta construir uma narrativa de engajamento ambiental, mas sabe que continuará enfrentando a incredulidade dos outros países. Apesar dos compromissos feitos pelo presidente, os indicadores de desmatamento, a fragilização dos instrumentos de fiscalização e combate aos crimes ambientais e a flexibilização de regras de proteção ambiental continuam pesando contra a confiabilidade do País nessa discussão.

Antes do encontro começar, a participação dos Estados Unidos era vista como um balizador de como o Brasil deveria agir. Bolsonaro foi aconselhado a aguardar pelo que os americanos poderiam apresentar no encontro antes de o Brasil mostrar suas cartas (Bolsonaro foi apenas o 19º a falar e Biden nem estava mais na sala nesse momento). Pouco antes do início da reunião, outro ministro também argumentou com o presidente que a proposta do Brasil já estava no “limite do nosso comprometimento”. “Vamos ver o que vem do outro lado para ver se vale a pena ou se faz sentido se comprometer com outra coisa”, propôs o auxiliar de Bolsonaro.

 

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