Para Hillary, missão do Brasil no Irã será árdua

Secretária de Estado diz que Teerã só dará uma resposta séria sobre seu programa nuclear depois que o Conselho de Segurança da ONU agir

Patrícia Campos Mello, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2010 | 00h00

A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, disse ontem que o Brasil terá pela frente uma batalha árdua para persuadir o Irã a abandonar suas ambições nucleares. De acordo com Hillary, a conversa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente russo, Dmitri Medvedev, em Moscou, mostra a "montanha" que os brasileiros estão tentando "escalar".

Segundo Medvedev, Lula tem 30% de chances de sucesso. Já o líder brasileiro estimou em 99,9% sua probabilidade de vitória. "Só teremos uma resposta séria dos iranianos depois que o Conselho de Segurança (CS) da ONU agir (para impor sanções)", afirmou Hillary.

Ela disse ter conversado com o chanceler Celso Amorim sobre o assunto. "Os líderes do mundo têm se movido para a mesma direção - embora alguns mais rapidamente que outros - que é reafirmar a autoridade do CS e adotar sanções duras", afirmou.

Lula opõe-se à imposição de sanções ao Irã. O Brasil e a Turquia querem ressuscitar a proposta feita pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) no ano passado. Por ela, o Irã enviaria urânio para França e Rússia, que enriqueceriam o combustível e o devolveriam para ser usado em um reator de pesquisas médicas em Teerã.

São necessários 9 dos 15 votos do CS - e nenhum veto de um membro permanente - para que as sanções sejam aprovadas. Nos EUA, a posição brasileira continua a ser vista com ceticismo e irritação. "Há certa ingenuidade nas boas intenções de Lula", disse à Bloomberg o deputado democrata Gary Ackerman. "Não estou torcendo para ele fracassar, mas sendo realista, não vejo possibilidade de sucesso."

Marcel Biato, da assessoria especial de Política Externa da Presidência da República, escreveu um artigo para o site da revista Americas Quarterly, defendendo a posição brasileira. "É infundado o temor de que o estreitamento das relações entre Brasil e Irã possa enfraquecer o esforço do Ocidente para forçar Teerã a recuar em suas políticas nucleares", escreveu Biato.

Ele diz que Lula condenou a recusa do Irã em cumprir as determinações do Tratado de Não-Proliferação e sua falta de transparência, durante a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad a Brasília, em 2009. "Ele deixou claro que o Brasil só defenderá o direito do Irã de desenvolver energia nuclear pacífica se o país mostrar boa fé para cumprir suas obrigações", disse. "Mas empurrar o Irã contra a parede será contraproducente." Para Biato, "a abordagem do Brasil em relação ao Irã é só uma voz alternativa em um debate sobre uma região que é cada vez mais importante para as ambições brasileiras de ser um participante político e comercial global". Ele diz ainda que o Brasil e sua renúncia às armas nucleares poderiam funcionar de exemplo ao Irã. E afirma apoiar um pacto de desarmamento nuclear para o Oriente Médio, proposta aceita pelo Egito, mas rejeitada pelos EUA.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.