Para Hillary, violência no México é culpa do ''apetite dos EUA por droga''

Mea-culpa americano marca o primeiro dia da visita oficial da secretária de Estado de Obama ao país vizinho

REUTERS, AP E EFE, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2009 | 00h00

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse ontem que o "insaciável apetite" dos americanos por drogas é o maior culpado pela violência no México. "Nós somos culpados", disse Hillary a jornalistas durante o voo que a levou à Cidade do México para uma visita oficial de dois dias. "Não existe outra explicação." A chegada de Hillary ocorre um dia após os EUA anunciarem um plano de ajuda de US$ 700 milhões para combater a violência causada pelo narcotráfico, que matou cerca de 7 mil pessoas no ano passado e ameaça se espalhar para o território americano. Washington estima que hoje os cartéis já atuem em 200 cidades americanas. "Nossa demanda insaciável por drogas ilegais é o que sustenta o narcotráfico no México. Nossa incapacidade de evitar o tráfico de armas, que saem dos EUA para armar esses criminosos, é a principal causa da morte de policiais, soldados e civis", afirmou Hillary. "Sinto que temos uma grande responsabilidade comum." Um dos objetivos de Hillary é desfazer a impressão entre os mexicanos de que os EUA não se acham responsáveis pelos US$ 40 bilhões que o tráfico ilegal de drogas entre os dois países movimenta anualmente. Ela anunciou ontem a criação de um escritório comum para coordenar as ações contra o narcotráfico e disse que entregará US$ 80 bilhões ao México para a compra de helicópteros destinados à luta contra o crime.Desde que assumiu a presidência do México, em 2006, Felipe Calderón fez do combate ao tráfico uma das prioridades de seu governo - ele gastou US$ 6,4 bilhões e enviou 45 mil homens para diferentes regiões em conflito. Mas o governo mexicano tem criticado o americano e dito que todo esse esforço não dá resultado porque os EUA não cumprem sua parte na contenção do contrabando de armas - 90% do armamento dos cartéis vem dos EUA. Além do combate ao tráfico, Hillary e Calderón conversaram sobre imigração e comércio bilateral. Um dos assuntos mais delicados tratados pelos dois foi a disputa sobre o tráfego de caminhões nos dois países. Na semana passada, Calderón decidiu elevar as tarifas sobre 89 produtos americanos exportados pelo México. A medida foi uma retaliação ao cancelamento do pacto que permitia a circulação de caminhões mexicanos do outro lado da fronteira.PRISÃOMilitares mexicanos anunciaram ontem a prisão de Hector Huerta Ríos, um testa-de-ferro do cartel dos irmãos Beltrán Leyva. Apelidado de "La Burra", ele foi preso na terça-feira em um subúrbio de Monterrey, cidade industrial no norte do México, que será visitada hoje por Hillary.Ríos era um dos 37 traficantes incluídos na lista dos mais procurados do país há dois dias, quando o governo ofereceu recompensas milionárias por informações que levassem à captura dos criminosos. O prêmio pela cabeça de Ríos havia sido estipulado em US$ 1 milhão. As autoridades não informaram se alguém receberá o valor pela prisão.DEPENDÊNCIA MÚTUANarcotráfico90% da cocaína consumida pelos americanos passa pelo México; tráfico movimenta US$ 40 bilhões ao anoViolência ligada às drogas matou 6.300 pessoas no ano passado no México 90% das armas usadas pelos cartéis são compradas nos EUACartéis mexicanos já atuam em 230 cidades americanas EconomiaComércio bilateral em 2008 foi de US$ 367 bilhõesMéxico é o maior exportador de petróleo para os EUA e o segundo maior importador de produtos americanos, perdendo apenas para o CanadáPor causa da crise, exportações mexicanas para os EUA caíram 32% em janeiro; empresas exportadoras demitiram 65 milAno passado, caminhões mexicanos foram proibidos de circular nas estradas americanas por falta de segurança. Em resposta, México taxou 89 produtos dos EUA Imigração EUA têm 12 milhões de imigrantes ilegais, sendo mais da metade deles mexicanos; Obama foi eleito prometendo reformar lei que concede status de imigrante legalPor causa da crise, remessas de mexicanos expatriados nos EUA caiu 3,8% em 2008 em relação a 2007Desde 1994, quando EUA endureceram o controle aos ilegais, pelo menos 4.500 mexicanos morreram tentando cruzar a fronteira

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