Para Irã, relação com Brasil deve ser modelo

Ahmadinejad diz que é ilimitado o potencial de cooperação com o País, que aprovou linhas de crédito aos iranianos, apesar de pressão dos EUA

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

No momento em que as potências discutem, em Washington, a adoção de sanções contra o Irã, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, com uma camisa da seleção brasileira nas mãos, mandou ontem um recado às potências ocidentais. Segundo Ahmadinejad, a relação que o Brasil tem com Teerã deve servir de "modelo" à comunidade internacional.

O líder iraniano procurou mostrar que seu país não está isolado defendendo que o potencial de cooperação com o Brasil é "ilimitado" e ambos "compartilham um entendimento sobre temas internacionais". Ahmadinejad recebeu, por cerca de 15 minutos, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, que chegou a Teerã na segunda-feira, acompanhado de mais de 80 empresários brasileiros.

O grupo viajou em um avião da Força Aérea Brasileira. E os custos do trajeto foram bancados pelo governo brasileiro - os empresários precisaram pagar apenas as despesas com hotéis. O Brasil não apoia o isolamento ou a imposição de sanções ao Irã.

Na reunião, falou-se, basicamente, de comércio e investimentos. Foram negociadas, por exemplo, linhas de crédito para superar a pressão americana sobre os bancos que financiam exportações para o Irã. Um acordo sobre o tema deve ser assinado na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país, em maio.

Miguel Jorge entregou uma carta de Lula a Ahmadinejad. Mas, de acordo com fontes diplomáticas, seu texto trata apenas de assuntos econômicos, ignorando tanto a questão nuclear quanto o tema dos direitos humanos no Irã.

"Hoje, Irã e Brasil chegaram a um entendimento claro e comum sobre temas globais e sobre suas capacidades", disse Ahmadinejad, após ser presenteado com a camisa da seleção e um livro sobre a vida de Pelé.

Há dois meses, a ativista de direitos humanos iraniana e Prêmio Nobel da Paz Shirin Ebadi fez um apelo a Lula para que visite dissidentes durante sua passagem por Teerã.

Na embaixada do Brasil, porém, diplomatas dizem que, por enquanto, não há nenhuma negociação por parte do governo para fazer essas visitas. "Isso seria algo delicado", admitiu um diplomata.

Negócios. Brasil e Irã criaram uma comissão bilateral para estudar formas de ampliar o comércio e os investimentos entre os dois países. O Brasil quer ocupar mais espaço no mercado iraniano, principalmente no setor de alimentos (o Irã importa 80% do que come). A Brasil Foods é uma das empresas que fizeram parte da delegação. As multinacionais Cargill e Parmalat também foram incluídas.

Segundo o governo, o Irã é o segundo principal destino para as carnes brasileiras no mundo, depois da Rússia. Os iranianos ainda estão interessados em comprar soja, milho e etanol do Brasil. "O Irã é uma boa porta para a entrada do Brasil no Oriente Médio e o Brasil é uma boa porta para o Irã para uma vasta área da América Latina", afirmou Ahmadinejad.

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