EFE/NATO
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Como Putin contra-ataca para impedir avanço da Otan para o Leste Europeu

A reinvenção da Otan após a Guerra Fria e a resposta russa à expansão militar do Ocidente

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2019 | 09h00

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança defensiva criada em 1949, é um símbolo da ordem internacional do pós-guerra e um dos marcos da Guerra Fria. O objetivo principal foi definido pelo primeiro secretário-geral, o britânico Hastings Ismay: "Manter os americanos dentro (da Europa), os russos fora e os alemães sob controle". 

A alma da Otan está no Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte: "Um ataque armado contra um ou mais países-membros será considerado uma agressão contra todos", uma disposição legal que se tornou referência do direito de defesa coletiva. 

A concepção do célebre Artigo 5º da Otan, contudo, não é original. Ela foi inspirada no Tratado do Rio de Janeiro, assinado dois anos antes, em 1947, que criou o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar) -- que hoje vem sendo utilizado pela oposição venezuelana para isolar o regime chavista de Nicolás Maduro.    

Na maior parte de seus 70 anos de existência, a Otan teve sua nêmese: o Pacto de Varsóvia, a coalizão militar socialista. Por meio século, os dois blocos mantiveram o mundo em profundo suspense com a troca de ameaças e o risco de extinção nuclear. A aliança soviética, no entanto, surgiu apenas em 1955, em resposta direta à incorporação da Alemanha Ocidental como membro da Otan -- e não em represália à fundação da aliança atlântica em si.

 

Em março de 1966, a Otan viveu sua primeira grande ruptura, protagonizada pelo governo nacionalista de Charles de Gaulle, reeleito presidente três meses antes. Em uma cartada para relançar sua política externa e recuperar a soberania francesa sobre seu território, ainda ocupado por tropas americanas, o general retirou o país do comando militar integrado da aliança atlântica. No ano seguinte, os EUA foram obrigados a repatriar 27 mil soldados e 37 mil funcionários de 30 bases áreas e navais da França.

Após o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética, a Otan perdeu sua razão de ser, as se recusou a morrer. Segundo Margaret Thatcher, então primeira-ministra britânica, "não se cancela a apólice de seguro de sua casa só porque foram registrados menos assaltos nos últimos 12 meses". A aliança, no entanto, teve de se reinventar. E encontrou novas missões.

Aos poucos, a Otan adquiriu um objetivo político, de defender os valores ocidentais, de organizar missões de paz e de trabalhar contra a proliferação de armas de destruição em massa. A aliança militar foi crucial na guerra civil iugoslava, nos anos 90, e se expandiu, incorporando ex-repúblicas soviéticas e países do Leste da Europa -- e é extamente neste momento que a Rússia ressurge.

Após um período pós-soviético de turbulência, quando o país se desintegrou e chegou ao fundo do poço nas mãos de Bóris Yeltsin, a Rússia ressurgiu sob o comando de Vladimir Putin, um ex-agente da KGB, o serviço secreto da União Soviética. Desde que assumiu o Kremlin, em maio de 2000, ele tem uma missão: recuperar o prestígio russo no cenário internacional. E uma das frentes de batalha era conter o avanço da Otan. Desde então, Moscou trabalha incessantemente para impedir o avanço da aliança atlântica em sua antiga zona de influência. A julgar pelos desentendimentos explícitos na cúpula de Londres, a política externa de Putin vem sendo bem sucedida.

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