Para líder da Al-Qaeda, levantes árabes eram 'evento tremendo'

Cenário: Lourival Sant'Anna

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2012 | 03h04

Uma das questões mais atuais é o impacto que as revoluções no mundo árabe terão sobre os movimentos fundamentalistas islâmicos. Há um ano, Osama bin Laden acreditava ter a resposta. Documentos encontrados em seu esconderijo e divulgados agora pelos EUA revelam um Bin Laden eufórico com a Primavera Árabe. Num comunicado escrito um mês antes de sua morte, no dia 1.º de maio de 2011, ele descreveu os levantes como um "evento tremendo" e assinalou que a Al-Qaeda deveria incentivar "as pessoas que ainda não se juntaram às revoltas a se rebelarem".

O texto foi escrito no calor da guerra civil na Líbia, quando veteranos treinados no Afeganistão organizavam grupos de combatentes, alguns com ajuda financeira do Catar e armas da França, para enfrentar as forças de Muamar Kadafi. Combatentes islâmicos de outros países, alguns reivindicando filiação à Al-Qaeda, tentaram entrar na Líbia para participar do que viam como uma jihad (guerra santa) contra um ditador secular. Foram repelidos pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), de inspiração predominantemente laica e preocupado com a perda do apoio do Ocidente que a ingerência fundamentalista acarretaria. Uma vez derrubado o regime, a influência islâmica sobre o governo de transição líbio cresceu e o CNT teve de ceder fatias de poder, como o comando do Conselho Militar de Trípoli, que passou para as mãos de Abdel-Hakim Belhaj, líder do Grupo Combatente Islâmico Líbio, cujos homens treinaram ao lado da Al-Qaeda no Afeganistão.

Na Síria, o Ocidente hesita em ter uma participação direta contra o regime - talvez pelo receio de ele ser substituído por uma república islâmica. Na falta desse contrapeso, o Conselho Nacional Sírio, a oposição no exílio, sofre marcada influência da Irmandade Muçulmana. Ao menos dois atentados na Síria em janeiro tiveram digitais da Al-Qaeda ou de grupos a ela filiados. Os partidos islâmicos Ennhada, Irmandade Muçulmana e Al-Nur venceram as eleições parlamentares na Tunísia e no Egito, respectivamente. Embora as sociedades dos quatro países citados tenham expressivas correntes liberais e seculares, os grupos islâmicos emergem como o que sobrou de oposição organizada - sob abrigo das mesquitas - depois de décadas de repressão.

Bin Laden expressa nos documentos sua preocupação com as agendas locais das "franquias" da Al-Qaeda pelo mundo. Ele observa o fracasso da Al-Qaeda no Iraque, onde o grupo disputou poder com xeques locais, que acabaram aliando-se aos americanos para derrotá-lo. E alerta que a rede deve se ater a seu objetivo principal: atacar os EUA. Há muito a Al-Qaeda deixou de ser uma organização vertical para tornar-se uma marca e Bin Laden, um símbolo. Sua conversão em "mártir" tende a consolidar essa tendência.

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