Daniel Leal-Olivas / AFP
Daniel Leal-Olivas / AFP

Para manter poder, Netanyahu insiste em lei que inibe voto árabe

Premiê quer levar câmeras a locais de votação; medida reduziria comparecimento de opositores, dizem rivais

Carla Bridi , O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 05h00

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, enfrenta uma nova prova de força no dia 17, quando os israelenses votam pela segunda vez no ano. Em Israel, Bibi é conhecido como “Mágico”, por conseguir sair das urnas vitorioso mesmo quando parece vulnerável. Desta vez, o premiê tem usado um projeto de lei que suprime o voto da minoria árabe para arregimentar sua base e se manter no cargo.

O projeto de lei que será votado esta semana permite que fiscais de cada partido portem câmeras para filmar os locais de votação – supostamente para evitar fraudes. A ideia foi do Likud, partido de Netanyahu. O premiê diz que “é o único jeito de prevenir fraudes”. 

Nas eleições de abril, membros do Likud levaram câmeras escondidas a seções eleitorais em redutos árabes. Críticos afirmam que a prática inibiu o comparecimento – de fato, na eleição, menos da metade da população árabe votou, aumentando a proporção dos votos do Likud. Kaizler Inbar, um dos publicitários da campanha de Bibi, chegou a se gabar do feito. “Só aqueles que querem fraudar a eleição são contra as câmeras nos locais de votação”, disse o premiê.

Seu principal rival, Benny Gantz, do Partido Azul e Branco, diz que a obsessão de Bibi pelas câmeras é uma desculpa preventiva para não reconhecer os resultados. “Netanyahu está preparando o terreno para questionar a legitimidade do processo eleitoral”, afirmou o general, que ficou bem perto do premiê, mas em segundo lugar, na votação de abril.

Se for eleito, Netanyahu obterá um quinto mandato e será dono absoluto do recorde de premiê que governou Israel por mais tempo (ele governou de 1996 a 1999 e começou o período atual em 2009). Em julho, ele ultrapassou Ben Gurion, espécie de patriarca do Estado.

Desafios

Desta vez, mais do que nas outras, ele terá de tirar um coelho da cartola. Além de enfrentar o desgaste de dez anos de mandato, ele está prestes a ser indiciado em três casos de corrupção. Além disso, em um ambiente polarizado, Bibi enfrenta uma aliança de partidos heterogênea que estaria disposta a se unir se o objetivo for destituí-lo.

Pesquisas apontam um resultado parecido com as eleições de abril, com Likud e Partido Azul e Branco empatados na frente, podendo eleger cerca de 30 deputados cada – metade de um Parlamento de 120 cadeiras. Bem atrás, cerca de meia dúzia de partidos disputam a terceira posição e serão o fiel da balança. 

No sistema parlamentar, no entanto, o vencedor não é necessariamente o próximo premiê. O analista Tal Shalev lembra que o vencedor é aquele que consegue negociar uma maioria no Parlamento. “O jogo começa apenas depois das eleições”, disse. Foi exatamente isso o que aconteceu com Bibi em abril.

Apesar de ter tido mais votos que Gantz, e de ter recebido sinal verde para formar o governo, Bibi não obteve apoio do líder nacionalista Avigdor Lieberman, do partido laico Yisrael Beitenu. Lieberman defende que os ultraortodoxos sirvam o Exército, posição que bate de frente com os partidos religiosos da coalizão de Netanyahu. Sem acordo, o premiê foi obrigado a convocar novas eleições. 

“O resultado da eleição será determinado pelo número de pessoas que vão votar. Se a presença for pequena, como em abril, Netanyahu será favorecido”, disse ao Estado Eytan Gilboa, professor de política da Universidade de Bar-Ilan, em Tel-Aviv.

Imprensa vira alvo em eleição

No esforço para motivar seus eleitores, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, também transformou a imprensa em alvo legítimo. Para Eytan Gilboa, professor de política da Universidade de Bar-Ilan, em Tel-Aviv, o premiê “tem uma obsessão pela mídia tradicional”. “Netanyahu tem um histórico de confrontos com a imprensa, assim como Donald Trump”, afirma. 

O mais recente e diretamente relacionado com as eleições é contra o Canal 12 israelense, que divulgou relatos vazados pela imprensa de testemunhas que depuseram contra Netanyahu nos processos em que ele é investigado por corrupção. 

Dois dos três processos estão relacionados a benefícios concedidos a magnatas da imprensa em Israel, em troca de uma cobertura favorável de seu governo. Após os vazamentos, Bibi acusou os CEOs do Canal 12 de promoverem um “ataque de terror”. Seu pedido na Justiça para impedir que os vazamentos fossem publicados, no entanto, não foi aceito. 

O Canal 12 também coproduziu uma série de TV ao lado do canal americano HBO sobre a história real do assassinato de um adolescente palestino pelo Exército israelense em Jerusalém. O programa foi considerado por Bibi como “antissemita”. Ele pediu a seus apoiadores um boicote ao canal. 

“Netanyahu se apresenta como uma vítima da cobertura da imprensa e ataca os jornalistas, o que funciona muito bem com seus seguidores. Ele usa o apelo emocional, dizendo que a eleição está entre uma direita forte e uma esquerda enfraquecida”, disse Gilboa.

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