Embaixada do Irã
Embaixada do Irã

Para manter sua independência, o Irã teve de pagar caro, afirma embaixador

Segundo embaixador do Irã no Brasil, escolhas do novo governo brasileiro, que o aproximaram de Israel, não devem afetar relações com Teerã

Entrevista com

Seyed Ali Saghaeyan

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 05h00

Para manter sua independência, a República Islâmica "teve de pagar caro" desde a Revolução de 1979, afirma, em entrevista ao Estado, o embaixador do Irã no Brasil, Seyed Ali Saghaeyan. "Os EUA tentaram criar atritos e desentendimentos étnicos e religiosos, projetaram vários golpes de Estado, impuseram a guerra de oito anos no período de Sadam Hussein e, enfim, impuseram injustos embargos econômicos, tudo com a finalidade de enfrentar a independência do Irã", disse.  

A Revolução Islâmica está completando 40 anos. Nessas quatro décadas, o que mudou no Irã e o que poderia ter sido melhor?

A República Islâmica do Irã, com sua revolução de natureza plenamente popular desde o início, focou na manutenção de sua indenpendência. Aproveitando seus potenciais e a capacidade de seus talentos, conseguiu ter avanços notáveis em diferentes áreas. Mas, para romper laços de dependência e insistir na manutenção da sua independência, a República Islâmica do Irã teve de pagar muito caro. Os Estados Unidos tentaram criar atritos e desentendimentos étnicos e religiosos, projetaram vários golpes de Estado, impuseram a guerra de oito anos no período de Sadam Hussein e, enfim, impuseram os injustos embargos econômicos, tudo com a finalidade de enfrentar a independência do Irã. Mas desses 40 anos, a República Islâmica do Irã elaborou uma nova Constituição e, nesse período, com voto direto, o povo iraniano vem elegendo o presidente da república, os membros do Parlamento e da Assembléia dos Notáveis, os vereadores, das cidades e das áreas rurais. Assim, a República Islâmica do Irã consegue dar passos importantes no sentido de consolidação da democracia. A República Islâmica do Irã, graças ao apoio popular e de seus jovens talentosos, obteve conquistas importantes em diversas áreas (quinta força cibernética; um dos países mais avançados na precisão e pontaria de mísseis; entre outros). Apesar da imposição de oito anos da guerra do Iraque contra o Irã e os embargos injustos, o Irã teve essas conquistas sem essas dificuldades.

Existe um novo momento de isolamento contra o país após a decisão dos EUA de se retirarem do acordo nuclear?  

O acordo nuclear, denominado Plano de Ação Conjunto e Abrangente (JCPOA), é um acordo que visa o fim da 'iranofobia' e dos atritos internacionais. Esse acordo demonstrou a veracidade do programa nuclear iraniano de ter fins pacíficos. Mas os Estados Unidos abandonaram unilateralmente esse acordo internacional, como abandonaram outros acordos. Assim, mais uma vez, demonstraram sua incompatibilidade com a sociedade internacional e suas estratégias de unilateralismo. Neste sentido, o ministro das Relações Exteriores do Irã, o doutor Zarif (Mohammad Javad Zarif ) falou que se existe uma coisa que os EUA ainda não abandonaram é o planeta Terra. O programa de mísseis iranianos tem objetivo de autodefesa. O lançamento do satélite ao espaço ou o experimento dos mísseis, pelo Irã, não violam a Resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU. É preciso considerar que durante oito anos Saddam Hussein bombardeou as cidades e o povo iraniano com mísseis, em um momento em que o Irã não tinha acesso aos instrumentos de defesa. Além disso, a venda de armamentos americanos, franceses e ingleses aos países da região a transformou em um depósito de pólvora. O Irã decidiu, para manutenção de sua força de defesa, projetar esse programa.

Após a revolução, muitos iranianos deixaram o país. O que o governo diria a eles? 

O Irã, como todos os outros países, tem Constituição, leis e regulamentos que são aprovados democraticamente, pelo procedimento de referendo ou pelos representantes eleitos pelo povo na Assembleia do Conselho Islâmico. O principio de administração do país se baseia nessas leis. Os países, na dimensão interna de seus territórios, tem soberania nacional. O direito internacional, inclusive a Carta Magna da ONU, os vários documentos da Assembleia-Geral da ONU reafirmam o respeito à soberania nacional dos países. Os cidadãos têm liberdade de escolher o local para viver. Por exemplo, os chineses e os indianos são as maiores minorias que vivem fora do seu país, muitos libaneses vivem no Brasil, muitos iranianos instruídos e cientistas são absorvidos pelas instituições educacionais e de pesquisa de outros países, inclusive os EUA. A República Islâmica do Irã está sempre disposta a recebê-los com braços abertos. Alguns grupos de iranianos voltam ao Irã após terminar seus estudos especializados. Podem existir iranianos enganados pelos serviços de espionagens estrangeiros que entram no Irã como espião. O tratamento para essas pessoas que agem contra segurança nacional é definido nas leis de todos os países.

Como as relações com o Brasil evoluíram desde a Revolução Islâmica? 

Os países são livres na projeção de seus programas de comércio exterior. É provável que as relações econômicas e comerciais entre dois países, em diferentes períodos, tenham momentos de altos e baixos. Além disso, os governos mudam, mas um Estado com três elementos essenciais - soberania nacional, população e território - permanecem. É preciso observar, porém, que as relações dos países são entre Estado-Estado e não governo-governo. As relações com o Brasil são, sempre, uma das prioridades políticas, econômicas, comerciais e culturais do Irã. Ressaltamos que o aniversário do 116.º ano dessas relações coincide com a nossa festa do 40.º ano da Vitória da Revolução Islâmica do Irã. A visita do doutor Zarif ao Brasil, ocorrida no ano passado, acompanhado de uma grande missão econômica, demonstra a determinação da República Islâmica do Irã para desenvolver as relações com o Brasil. O volume do intercâmbio comercial bilateral no ano de 2018 atingiu mais de US$ 2,6 bilhões. Esperamos que neste ano de 2019, com a colaboração do novo governo do Brasil, no sentido de interesses recíprocos dos dois países, o volume do nosso comécio bilateral aumente ainda mais.

Como o Irã vê a aproximação entre o governo Bolsonaro e Israel? 

A República Islâmica do Irã, conforme as resoluções da ONU, considera o regime sionista um regime ocupador. Ele usurpou os territórios palestinos. Infelizmente, 61 resoluções contra esse regime foram barradas pelos vetos dos países ocidentais, especialmente pelos EUA. Mas a definição da política das relações exteriores é dentro dos direitos e a autonomia de cada país. Assim, as relações do Brasil com Israel não têm nada a ver com a República Islâmica do Irã. A posição do Brasil conforme foi declarada é por reconhecimento de dois Estados e as resoluções da ONU declaram que Jerusalém tem identidades islâmicas, cristãs e judaicas. Porém, o conhecimento de Jerusalém como capital judaica é contrario às leis internacionais. Espera-se que as relações bilaterais da República Islâmica do Irã e o Brasil estejam longe de influência de qualquer insinuação maldosa externa que visa destruí-las... 

Houve uma proximidade maior entre Irã e os governos petistas? 

As relações da República Islâmica do Irã com o Brasil não se limita somente há 13 anos (governos petistas) como foi pensado, mas passam de um século. As relações da República Islâmica do Irã com outros países incluindo Brasil se baseiam nos princípios de respeito mútuo, na igualdade de interesses, no respeito à soberania nacional, à não ingerência nos assuntos internos, no repúdio ao unilateralismo na cena internacional. Assim, nós respeitamos o voto do povo brasileiro para eleger o presidente da República, representantes no Congresso e legislativos estaduais e municipais, e desejamos a manutenção e desenvolvimento das relações bilaterais conforme os princípios relacionados.

Por que o Irã declarou apoio ao governo de Nicolás Maduro enquanto cresce seu isolamento internacional? 

O respeito à soberania nacional dos países é um dos pilares dos direitos internacionais. A legitimidade interna de cada país depende do voto do povo. A tentativa de alguns países para isolar outra nação não elimina sua legitimidade interna. Mas do ponto de vista dos direitos internacionais essa tentativa é considerada ingerência nos assuntos internos dos outros países. Se essa atitude virar um procedimento, será uma ameaça à independência de outros países. Por exemplo, na Venezuela as eleições foram realizadas livremente por meio do voto eletrônico e Maduro foi eleito. Portanto, a República Islâmica do Irã apoia e reconhece o resultado das eleições democráticas. É preciso lembrar que a ingerência estrangeira nos países como o Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria não tinha outro resultado a não ser destruição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.