REUTERS/Hannah McKay
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Para May, 95% do Brexit está decidido

Premiê britânica tenta reduzir pressão por referendo e acalmar sua base parlamentar conservadora, dividida entre separação “suave” e “dura”

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2018 | 20h38

O acordo para o divórcio entre o Reino Unido e a União Europeia está “95% pronto”. A garantia foi dada nesta segunda-feira a deputados britânicos pela primeira-ministra Theresa May e tem como objetivo acalmar sua base parlamentar conservadora, dividida sobre o Brexit “suave” e o “duro”, e também reduzir a pressão pela realização de um novo referendo para deliberar sobre o resultado das negociações. 

No sábado, centenas de milhares de pessoas foram às ruas de Londres pedir uma nova votação popular, comprovando que a pressão da opinião pública sobre o governo é crescente.

Sem o impasse sobre a Irlanda, o acordo para o Brexit, que precisa entrar em vigor em 29 de março, estaria quase fechado, a julgar pela avaliação da premiê. Na semana passada, líderes europeus dos 28 países da UE não chegaram a um acordo em dois dias de negociações. Mas, segundo May, tudo corre bem.

“Temos um amplo acordo sobre a estrutura e a extensão da futura relação, com progressos importantes realizados sobre questões como segurança, transportes e serviços”, argumentou a premiê.

Até aqui as negociações continuam bloqueadas em razão do impasse sobre a fronteira entre a Irlanda, país-membro da UE, e a Irlanda do Norte, província do Reino Unido. Os dois Estados dividem a ilha irlandesa, mas sem fronteira física. Com o divórcio, a Irlanda do Norte deixará o mercado comum.

A situação cria um problema, pois, em tese, a aduana teria de ser recriada, o que é rejeitado por Dublin, Bruxelas e Londres. O governo May propõe uma espécie de seguro no lugar da fronteira física, uma hipótese até aqui rejeitada pelos negociadores europeus.

A proposta europeia é que a Irlanda do Norte permaneça no mercado comum após o Brexit, se nenhuma outra solução for encontrada. Com isso, uma “fronteira” imaginária seria criada no oceano, entre a Ilha da Irlanda e a Grã-Bretanha, e apenas Inglaterra, Escócia e País de Gales seriam atingidos pela separação.

Em seu discurso aos parlamentares, May reiterou que essa proposta não será aceita – pelo menos enquanto estiver no cargo. “Creio que nenhum primeiro-ministro britânico jamais poderia aceitá-la. Eu certamente não.”

As declarações de May, entretanto, não reduziram a pressão. No Parlamento, o deputado do Partido Trabalhista Peter Dowd, ironizou o otimismo da chefe de governo afirmando que a parte final das negociações ainda pode levar todo o acordo ao fracasso. “Eu deveria lembrar que 95% da viagem do Titanic foi completada com sucesso?”, brincou.

May vem sofrendo ataques não apenas da oposição trabalhista, que busca a antecipação das eleições gerais, mas também da ala mais radical do Partido Conservador, que não gosta do acordo “suave” com a UE e preferiria o rompimento abrupto.

Em declarações anônimas, um deputado conservador afirmou que a premiê deveria levar “o próprio laço” ao Parlamento, insinuando que ela deveria se enforcar. No Parlamento são crescentes os rumores de que May terá a liderança do partido contestada na próxima semana, o que na prática pode afastá-la da chefia do governo.

 

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