''Para mim, 4 anos foi pouco'', diz Bachelet

Presidente do Chile tenta fazer sucessor e lamenta mandato curto

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

31 de julho de 2009 | 00h00

A oito meses do fim do mandato, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse ontem que lamenta ter de sair agora que seu governo alcançou o recorde de 74% de aprovação, um dos índices mais altos entre os presidentes latino-americanos. "Preferiria um mandato de cinco anos, ou quatro com direito à reeleição", afirmou Bachelet, em entrevista ao Estado (leia nesta página), em São Paulo, onde reuniu-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para discutir acordos de cooperação bilateral.Desde os anos 90, a maioria dos países sul-americanos aumentou o mandato de seus presidentes e criou o direito à reeleição, enquanto o Chile encurtou a gestão de seus presidentes de seis para apenas quatro anos, o mandato mais curto, ao lado do Uruguai. Mas Bachelet descartou qualquer surpresa ao estilo bolivariano: "Jamais mudaria a Constituição para me beneficiar."Se pudesse se reeleger, Bachelet resolveria a maior crise política que a Concertação (coligação de partidos de centro-esquerda) enfrenta desde que chegou ao poder há 19 anos, sucedendo o regime militar do ditador Augusto Pinochet (1973-1990).Nas eleições locais de outubro, a coligação que sustenta o governo de Bachelet foi derrotada pela primeira vez. Na época, a presidente lançou uma advertência: "A Concertação deve renovar-se, atualizar sua mensagem e dar dinamismo à sua política", sob risco de perder as eleições presidenciais de dezembro.A resposta de seus colegas de coligação foi escolher Eduardo Frei, de 66 anos, como candidato à presidência. Frei é o avesso da novidade. Ele já governou o Chile de 1994 a 2000 e é visto como um democrata-cristão moderado que não herda a alta aprovação que tem Bachelet.Enfrentando a desconfiança dentro da própria Concertação, o recauchutado Frei terá como adversário nas eleições o direitista Sebastián Piñera, da Renovação Nacional (RN), um dos maiores empresários chilenos, dono de uma fortuna de US$ 1,2 bilhão, que inclui ações da companhia aérea LanChile e de outras 29 empresas, incluindo um dos principais jornais (La Tercera) e um canal de televisão. Piñera tentou chegar à Presidência em 2005, mas foi derrotado por Bachelet."Quando falei de renovação, falei de um novo estilo de liderança", disse a presidente. "Renovação não significa mudar as caras. Há muitas caras novas com pensamentos antigos por aí."REBELDIAA cara mais nova a qual Bachelet pode estar se referindo é a do deputado socialista Marco Enríquez-Ominami - um prestigiado cineasta de 35 anos, filho do fundador do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, na sigla em espanhol), Miguel Enríquez, morto pela ditadura Pinochet.O jovem político rebelou-se contra a escolha de Frei e lançou seu nome como candidato independente, desafiando a ordem unida que imperava no governo.O que no início parecia um protesto isolado revelou-se aos poucos uma alternativa viável de confrontar Piñera nas urnas. A cinco meses da escolha do novo presidente do Chile, Enríquez-Ominami aparece com índices que variam de 13% a 15% das intenções de voto, porcentual nunca antes alcançado por um candidato independente na história política chilena.É improvável que o azarão roube a cena e vá para o segundo turno, seja contra Frei, que tem 30% das intenções de voto, seja contra Piñera, que lidera, com 37%.Para lançar sua candidatura, o jovem deputado precisa reunir 35 mil assinaturas de eleitores que não sejam filiados a nenhum partido político. "Essa é a menor das ameaças (conseguir as assinaturas)", disse Enríquez-Ominami ao Estado. "É só ver o que dizem as pesquisas. Estamos subindo de forma contínua, mesmo num ambiente muito hostil."O jovem candidato sabe que sua candidatura também rouba votos de Frei, o que pode favorecer o direitista Piñera. "O mais importante é que minha candidatura representa a possibilidade uma competição política real", rebate Enríquez-Ominami. "Se o meu crescimento se mantém tal como as pesquisas têm mostrado, passaremos ao segundo turno."

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