Para místicos indonésios, 'forças ocultas' mantêm Suharto vivo

No maior país muçulmano do mundo, mistura de crenças tenta explicar como ex-ditador está driblando a morte

The New York Times,

26 de janeiro de 2008 | 17h18

No momento em que o ex-presidente Suharto se encontra no limite da morte, alguns indonésios dizem que não são médicos e máquinas que o estão mantendo vivo, mas uma variedade de forças místicas invisíveis. Suharto, 86, ele mesmo um místico praticante, recuperou-se mais de uma vez nas últimas duas semanas depois de ter atingido o que parecia ser o fim, quando seus pulmões, coração e rins ameaçaram parar. Seus médicos dizem que ficaram bestificados com a recuperação. O diagnóstico entre os crentes em Solo, coração da cultura javanesa, é que as poderosas forças ocultas no corpo de Suharto não deixarão que ele parta, que certos rituais que poderiam limpar seu espírito ainda não foram realizados ou que a natureza ainda não sinalizou que esta pronta para recebê-lo. "O poder dos espíritos dentro de seu corpo o está mantendo vivo", disse Darsono, 34, um espiritualista que se diz capaz de realizar mágicas, expressando uma opinião comum. "A vida de Suharto é sustentada por um poder místico", acrescentou Darsono, que, como muitos indonésios, tem só um nome. A Indonésia é o país com o maior número de muçulmanos no mundo. Mas a versão do islamismo praticada no local é misturada com hinduísmo, budismo e especialmente animismo, que eram presentes antes dos comerciantes muçulmanos trazerem sua religião à região no século 12. A crença animista e as superstições colorem a vida cotidiana para muita gente, e explicações ocultas, inclusive o poder de maldições e magia negra, são às vezes a resposta para os eventos diários. "O islamismo indonésio é o que eu chamo de acomodativo", disse Azyumardi Azra, um dos diretores da Universidade Estatal Islâmica Syarif Hidayatullah, em Jacarta. "Muitos indonésios muçulmanos aceitam a tradição local mesmo que a tradição local não possa ser aceita, digamos por wahhabitas", disse ele, referindo-se aos seguidores da estrita seita islâmica. Quando uma guerra religiosa explodiu nas Moluccas, um grupo de ilhas no leste do arquipélago indonésio, no início da década, tanto cristãos quanto muçulmanos se inclinaram ao misticismo, realizando rituais animistas antes de lutar uns contra os outros. Todos os seis presidentes da indonésia, todos muçulmanos, pagam tributo ao mundo espiritual, visitando lugares que supostamente têm poder místico, entre outras coisas. Suharto seguiu essa mesma devoção. Ele estudou com um líder espiritual quando era jovem e realizou rituais quando já era presidente. Continuou a fazê-lo depois de ter sido deposto por um levante popular em maio de 1998. Ao longo dos anos, segundo seus auxiliares, ele fez freqüentes visitas a lugares sagrados, incluindo montanhas, cavenas, tumbas e ruínas, e tomou banhos rituais no mar e em rios, em lugares supostamente carregados de poderes especiais. Ele teria coletado centenas de artefatos sagrados para absorver o poder mágico deles. Muitos indonésios acreditam que o começo do fim de Suharto foi a morte de sua mulher, Siti Hartinah, em 1996. Ela era membro da família real local, o sultanato de Solo, e seria a fonte de legitimidade de Suharto como governante. Na tradição javanesa, o poder tem uma essência própria, conhecida como wahyu, e é dado a pessoas escolhidas, do mesmo modo que os imperadores chineses ganhavam o "mandato dos céus". Depois da morte da mulher, espiritualistas e cientistas políticos dizem que Suharto começou a definhar como dirigente. Nas últimas semanas, como a prolongada e altamente divulgada agonia de Suharto eletrizou o país, uma variedade de novos sinais está sendo observada por aqueles que acreditam nessas coisas, alguns apontando para a morte, outras para a sobrevivência. A natureza, por exemplo, parece estar enviando sinais mistos. Enchentes e deslizamentos de terra ocorreram recentemente, ambos no sopé do monte Lawu, onde Suharto geralmente meditava, e na estrada que liga uma pequena montanha a um mausoléu onde ele deverá ser enterrado, ao lado da mulher. Duas semanas atrás, quando os médicos disseram que Suharto estava morrendo, uma árvore enorme caiu perto de Parangtritis, a cidade-natal da mística "rainha do mar do Sul", onde Suharto às vezes se banhava. O espectro da rainha costuma visitar os sultões de Poso e da vizinha Yogyakarta para periódicas reuniões conjugais. Uma visão contrária sustenta que o clima está bom demais para que Suharto morra. Java está ensolarada nas duas últimas semanas. Segundo essa crença, a terra deve ser revolvida e tremer quando o ditador morrer. Isso às vezes acontecia quando reis javaneses morriam, segundo um artigo recente no jornal Suara Merdeka. O jornal acrescentou, no entanto, que o poder místico descrito "não pôde ser verificado". A preocupação entre muitos místicos é que elementos positivos espiritualmente implantados no corpo de Suharto possam ter se transformado em elementos do mal, prolongando seu sofrimento. Espiritualmente, ele está pronto para morrer e deve ser aliviado da sua dor, dizem eles, mas os tais elementos introduzidos não perderão efeito até que sejam ritualmente removidos.

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