Para muçulmanos, Obama não cumpriu promessas feitas no Cairo

Em visita à Indonésia, Obama reconheceu que é preciso fazer mais para reparar os laços

Reuters

10 de novembro de 2010 | 13h56

A promessa feita nesta quarta-feira pelo presidente norte-americano, Barack Obama, de trabalhar por melhores relações dos Estados Unidos com o mundo muçulmano recebeu críticas no Cairo, onde o democrata pediu no ano passado um "recomeço" nos laços com o Oriente Médio após anos de desconfiança mútua.  

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Em visita à Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo, Obama reconheceu que é preciso fazer mais para reparar os laços com o mundo islâmico.

"Assim que Obama assumiu o poder, afirmou que faria isso e aquilo, muitas coisas. Mas ele ainda não cumpriu uma só meta", afirmou Saad Zaki Khalil, de 56 anos, que vendia isqueiros no centro do Cairo.

Dezessete meses depois do discurso de Obama na Universidade do Cairo, a Al Qaeda ainda ameaça o Ocidente, as negociações de paz entre Israel e os palestinos estão travadas devido aos assentamentos na Cisjordânia e as tropas norte-americanas permanecem no Iraque e no Afeganistão.

Muitos no Oriente Médio acreditam que a estreita aliança de Washington com Israel torna impossível encerrar o sofrimento dos palestinos, o que causa desconfiança entre os muçulmanos sobre as intenções dos EUA para a região.

"É tudo discurso. No fim, as mesmas políticas norte-americanas, as políticas judaicas, continuam", afirmou Mohamed Abdel, um aposentado do Cairo. "Esse é o porque de nada do discurso de Obama ter se traduzido em ação com as nações árabes."

Obama citou o Alcorão em seu discurso de junho de 2009, na cidade mais populosa do mundo árabe, enquanto tentava mostrar que as ideias do Ocidente e do Islã tinham princípios em comum e que nutrir as diferenças só incentivava os radicais islâmicos.

Em Jacarta, Obama repetiu nesta quarta-feira que os EUA não estão em guerra contra o Islã, que está determinado a levar a segurança para o Afeganistão e que não poupará esforços para conseguir a paz entre Israel e os palestinos.

"Eu pessoalmente tinha maiores expectativas de mudança" depois do discurso de 2009, afirmou o advogado Hatem Khalil, também do Cairo. "É ignorância pensar que Obama resolverá o caso palestino... Também concordo que, se os EUA tirassem todos os seus militares do Iraque de uma só vez, o país entraria em colapso, mas acho que, com o Egito, é preciso fazer mais."

O discurso de Obama em Jacarta enfatizou a democracia e o progresso da Indonésia na resolução das diferenças religiosas, mas Hassan Nafaa, professor de ciências políticas da Universidade do Cairo, afirmou que os países árabes se distanciaram das reformas democráticas desde o governo Bush.

Nafaa afirmou que Obama não mencionou a situação recente dos governos árabes em relação à reforma política e que seus comentários otimistas sobre a democracia indonésia foram vistos como uma referência velada a países muçulmanos autoritários, que deveriam imitar a nação do Sudeste Asiático.

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