Marcos Martinez Chacon/AP
Marcos Martinez Chacon/AP

Para muitos imigrantes haitianos, a jornada para o Texas começou online

Última crise migratória na fronteira do México com os EUA reflete o poder de redes como Facebook, YouTube e plataformas como o WhatsApp, que os migrantes usam para compartilhar informações que podem ser distorcidas

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 10h58

DEL RIO, EUA - Na última etapa de sua viagem do Chile para os Estados Unidos, o imigrante haitiano Fabricio Jean seguiu instruções detalhadas enviadas a ele pelo WhatsApp por seu irmão que estava na cidade americana de New Jersey e havia feito recentemente a rota para a fronteira com o Texas.

Seu irmão transferiu dinheiro a ele para a viagem e, em seguida, enviou um mapa desenhado meticulosamente, avisando-o sobre áreas repletas de funcionários da imigração mexicana. “Você precisará de cerca de 20 mil pesos (cerca de US$ 1 mil) para os ônibus. Você precisa pegar esse ônibus para este local e depois pegar outro”, contou Jean à agência Associated Press após chegar à cidade fronteiriça de Del Rio.  

O que Jean não esperava era encontrar milhares de migrantes haitianos como ele cruzando o mesmo lugar remoto. O homem, de 38 anos, sua mulher e dois filhos pequenos se juntaram, no início deste mês, a cerca de 14 mil imigrantes, em sua maioria haitianos, acampados sob uma ponte em Del Rio.

Uma confluência de fatores causou o aumento repentino e acentuado nessa cidade do Texas de cerca de 35 mil residentes. Entrevistas com dezenas de migrantes haitianos, advogados de imigração e defensores revelam um fenômeno produzido em parte pela confusão sobre as políticas do governo Biden depois que as autoridades estenderam  recentemente as proteções para mais de 100 mil haitianos que vivem nos EUA.

Também reflete o poder de redes como Facebook, YouTube e plataformas como o WhatsApp, que os migrantes usam para compartilhar informações que podem ser distorcidas ao passar pelas comunidades de imigrantes, direcionando os fluxos de migração.

Isso é especialmente verdadeiro para grupos unidos como os haitianos de língua crioula e francesa, muitos dos quais deixaram sua terra natal após o terremoto devastador de 2010 e estão vivendo na América Latina, atraídos pelas economias outrora prósperas do Brasil e do Chile.

Ao estender a proteção aos haitianos no primeiro semestre, o governo Biden citou preocupações de segurança e agitação social no país mais pobre do Hemisfério Ocidental.

O secretário de Segurança Interna dos EUA, Alejandro Mayorkas, disse que as proteções temporárias eram limitadas aos que já residiam nos EUA antes de 29 de julho, mas essa explicação costumava faltar nos posts das redes sociais, levando os haitianos de fora dos EUA a acreditar que também eram elegíveis.

Mayorkas reconheceu isso nesta semana, dizendo que estava preocupado com o fato de os haitianos que estavam seguindo o caminho da migração irregular estivessem recebendo informações erradas de que a fronteira americana esta aberta ou que eles se qualificavam para o status de proteção, apesar do prazo expirado.

Milhares de haitianos estão presos em cidades da fronteira mexicana desde 2016, quando o governo Obama abruptamente interrompeu uma política que inicialmente permitia a entrada deles por motivos humanitários.

Mensagens online promovendo a cidade mexicana de Ciudad Acuña, em frente a Del Rio, começaram após o presidente Joe Biden tomar posse e começar a reverter algumas das políticas de imigração da administração Trump.

Ciudad Acuña foi poupada das drogas e da violência de gangues observadas em outros lugares ao longo da fronteira. Algumas das postagens nas redes sociais recomendando a cidade parece ter sido feitas por contrabandistas de humanos que buscam ampliar negócios, de acordo com defensores dos imigrantes.

Os haitianos começaram a cruzar para lá este ano, mas seus números dispararam depois de um programa do governo Biden abrir brevemente a porta para alguns requerentes de asilo, disse Nicole Phillips, da Ponte Haitiana, organização com sede em San Diego que defende os migrantes haitianos. O programa permitiu um número seleto de pessoas consideradas por grupos humanitários correrem alto risco no México.

Assim que ele cessou, em agosto, as pessoas entraram em pânico e as mensagens recomendando Ciudad Acuña “se tornaram virais”, disse Phillips. “É por isso que eles correram para entrar”, explicou ela. “Eles perceberam que não seriam capazes de entrar legalmente por uma porta de entrada como esperavam.”

Del Rio é apenas um exemplo de como a tecnologia que colocou um smartphone nas mãos de quase todos os migrantes está transformando os fluxos de migração. Os migrantes costumam monitorar as notícias e compartilhar informações sobre rotas. A plataforma mais popular é o WhatsApp, que conecta 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

Em 2020, depois que a Turquia anunciou que a fronteira terrestre com a Grécia estava aberta, milhares de migrantes se dirigiram para lá - apenas para encontrar os portões fechados no lado grego. Migrações em massa repentinas semelhantes aconteceram em outras partes da Europa.

Em 2018, postagens em mídias sociais e mensagens no WhatsApp abasteceram caravanas que chegavam principalmente da América Central à fronteira EUA-México.

Na semana passada, em um grupo no Facebook para haitianos no Chile com 26 mil membros, um participante postou instruções específicas de rotas pelo México. Incluía caminhos para se evitar e recomendava certas empresas de ônibus. “Boa sorte e tenha cuidado”, dizia o post, escrito em crioulo haitiano.

Outro membro compartilhou uma rota diferente nos comentários. Os membros do grupo, desde então, têm contado histórias de condições terríveis em Del Rio e riscos de serem deportados.

A Organização Internacional para as Migrações descobriu que a maioria dos 238 haitianos entrevistados em março, depois de passar por um trecho de floresta de 100 quilômetros entre a Colômbia e o Panamá, conhecido como Darien Gap, recebeu informações sobre a rota de parentes ou amigos que fizeram a jornada perigosa. Cerca de 15% disseram ter visto instruções na internet.

O porta-voz da agência, Jorge Gallo, disse que as instruções levaram os migrantes a acreditar que cruzar a região era "difícil, mas não impossível". Mas assim como mensagens semelhantes atraíram muitos haitianos a Del Rio, a notícia da deportação de centenas de pessoas pelo governo Biden na fronteira com o Texas fez com que alguns mudassem seus planos.

Uma haitiana de 32 anos que chegou a Del Rio com seus dois filhos adolescentes comprou passagens de ônibus para a Cidade do México depois de receber uma mensagem de áudio de um primo via WhatsApp. Ela já morou no Chile por quatro anos.

“Espere no México até o fim deste mês. Eles vão pegar todos debaixo da ponte. Depois disso, eles vão me dar o contato para entrar em Miami”, disse a gravação em crioulo, que ela encaminhou para um repórter da AP. A agência está ocultando o nome da mulher para proteger sua segurança.

O Facebook Inc., dono do WhatsApp, permite que as pessoas troquem informações sobre a travessia de fronteiras, mesmo ilegalmente, mas sua política proíbe postagens que pedem dinheiro por serviços que facilitam o contrabando de pessoas.

Robins Exile disse que ele e sua mulher, grávida, que deixou o Brasil depois que ele perdeu o emprego em meio à economia devastada pela pandemia, foram para Tijuana, no México, depois de ver avisos no YouTube e no WhatsApp de outros imigrantes haitianos. “Muitos haitianos estão aconselhando agora a não ir para Acuña. Dizem que não é mais um bom lugar”, disse ele.

Na quarta-feira, Antonio Pierre, de 33 anos, que estava acampado em Del Rio com sua mulher e filha, ouviu a notícia no celular do amigo.

“Os EUA estão liberando alguns, mas apenas alguns”, disse ele, referindo-se a autoridades americanas que disseram à AP na terça-feira que milhares de haitianos sob custódia estavam sendo liberados e intimados a se apresentar a um escritório de imigração, contradizendo o anúncio do governo Biden de que todos os haitianos acampados na cidade seriam expulsos para o Haiti.

Nelson Saintil, sua mulher e quatro filhos estavam acampados no Texas, mas voltaram para o México enquanto aguardavam a palavra sobre o próximo destino para evitar a deportação. “Não quero ser como os ratos que não veem que estão caindo em uma armadilha”, disse ele. “Porque voltar ao Haiti é enterrar uma pessoa viva.” / AP

 

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