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Para o Black Lives Matter, é hora de reformar democracia

Membros do grupo, que estão no Brasil, dizem que retórica de Trump escancarou a realidade não resolvida do racismo

Antonio Pita / RIO, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2016 | 20h00

A onda de violência racial nos Estados Unidos, próximo às eleições presidenciais, é uma oportunidade para a reforma da democracia e da polícia americanas. A avaliação é de ativistas do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), o mais contundente nos EUA desde a luta por direitos civis, na década de 50. O grupo busca frear o discurso conservador de que fomenta a divisão racial e a violência nos EUA, após os atentados contra agentes policiais há duas semanas. 

“Esse discurso é pura retórica. Somos contra a violência. O movimento foi criado em resposta à violência contra pessoas negras”, disse o reverendo John Selders Jr., líder do grupo, em entrevista ao Estado. “Criamos uma consciência no país de forma tão eloquente e significativa como nunca antes nos EUA. Por isso, a reação.” 

Ele e outros cinco ativistas do grupo estiveram no Rio para debater a violência policial contra a população negra. Nos EUA, o movimento estima que 285 pessoas foram mortas pela polícia neste ano. Apenas no Estado do Rio, foram 320 vítimas até maio – 79% negras. 

“Rejeito a ideia de me acostumar com essa realidade. Nossa luta é global”, diz Selders. “Vivemos um momento em que precisamos fazer avançar a democracia e, para isso, reformar a polícia ou até nos desfazer dela. Desde a fundação da América, e também no Brasil, África do Sul, a polícia foi criada com base no princípio de que algumas pessoas, em razão da cor da pele, têm menos valor. Estamos aqui para lutar contra esta mentira”, disse o reverendo, que atua na base do movimento em Connecticut. Ele é a terceira geração de sua família a militar pelos direitos civis dos negros.

“Não é o caso de um policial ruim, é assim que a polícia funciona. Somos criminalizados por sermos negros e pobres e isso é inaceitável”, disse Daunasia Spacey, uma das fundadoras do grupo que assessora a campanha da democrata Hillary Clinton à presidência. Os ativistas refutam a tese de que há uma crescente tensão racial nos EUA, como propaga o republicano Donald Trump. 

“A retórica dele é a mesma do Klu Klux Klan, é a retórica do ódio. Não importa se ele vencer, Trump escancarou a realidade não resolvida do racismo e da xenofobia na sociedade americana. Ele e seus seguidores fazem propagar valores perigosos contra a humanidade dos outros”, afirma Waltrina Middleton, de Boston. 

Ela passou a seguir o Black Lives Matter após seu primo ser morto pelo atirador que, em 2015, abriu fogo contra oito jovens que participavam de uma missa em uma comunidade negra da Carolina do Sul. No Brasil, o grupo se encontrou com parentes de jovens mortos pela Polícia Militar, visitou favelas e debateu com movimentos sociais.

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