REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

‘Para o chavismo, diálogo seria o fim da impunidade’

Governo evita acordo com oposição porque está envolvido em casos de corrupção e tráfico de drogas, diz analista

Entrevista com

Harold Trinkunas, diretor da Iniciativa para América Latina do Brookings Institution

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2016 | 05h00

WASHINGTON - O chavismo aposta no controle das forças de segurança e na alta do preço do petróleo para permanecer no poder e empurrar para o próximo ano o referendo revogatório do mandato do presidente Nicolás Maduro, avalia Harold Trinkunas, diretor da Iniciativa para América Latina do Brookings Institution, um dos principais centros de pesquisa de Washington.

Venezuelano nascido em Maracaibo e criado em Caracas, Trinkunas diz que o governo não tem incentivos para compartilhar o poder com a oposição porque isso significaria o fim da impunidade de seus integrantes. “Há muitos na liderança do regime chavista que são associados a decisões políticas equivocadas, corrupção, tráfico de drogas e violações de direitos humanos. O diálogo é perigoso para eles.” A seguir, trechos da entrevista.

Qual a chance de sucesso do diálogo promovido pela Unasul?

As condições não estão presentes, porque o governo não tem nenhum incentivo para compartilhar poder com a Assembleia Nacional, controlada pela oposição. Também não tem incentivos para mudar políticas para contribuir para o diálogo. Sou cético.

Por que não têm incentivos?

O custo de compartilhar o poder é a perda da impunidade. Há muitos na liderança do regime que são associados a decisões políticas equivocadas, corrupção, tráfico de drogas e violações de direitos humanos. O diálogo é perigoso para eles. 

Como Maduro pode sobreviver à crise sem acordo com a oposição?

O governo conta com o apoio do Exército e das forças de segurança. Além disso, eles esperam que o preço do petróleo suba a um patamar que permita sua permanência no poder, apesar da séria crise econômica, da escassez, da elevada inflação e de um segundo ano de profunda recessão. O governo controla os instrumentos de coerção e está apostando neles para permanecer no poder. 

Qual o impacto do recente aumento no preço do petróleo?

A Venezuela já está passando por um ajuste econômico. O governo impôs uma drástica retração do consumo por meio da redução das importações. O custo de produzir a cesta de petróleo venezuelana gira em torno de US$ 21 o barril. Quando o petróleo custa US$ 28, que era o patamar de fevereiro, o governo tem um ganho líquido pequeno. Mas, quando ele sobe para US$ 50, como agora, o ganho é muito maior e é nisso que eles estão apostando. O problema é que a Venezuela também tem de pagar os serviços de sua dívida internacional, já que devem muito aos chineses. Além disso, eles têm de importar bens de consumo, porque 70% do que os venezuelanos consomem é importado. 

Por que a oposição se recusa a dialogar com os três escolhidos pela Unasul?

Esse grupo é integrado por pessoas que não têm a confiança da oposição. Eles são vistos como muito favoráveis ao governo venezuelano. Eles não são considerados imparciais pela oposição. 

Qual é a alternativa?

Vejo três cenários possíveis. Maduro é muito impopular, mesmo dentro de seu partido, e existe a possibilidade de a Venezuela convocar o referendo revogatório. Se isso ocorrer depois do dia 10 de janeiro, o vice-presidente poderá assumir, o que seria aceitável para o governo. As pessoas ainda teriam impunidade pelo que fizeram. Outro cenário é ter o referendo em 2016, como propõe a oposição. Isso cria tantos riscos para o governo que ele tentará adiá-lo o máximo possível. Mas há uma variável imprevisível que é a situação econômica e social, porque os níveis de escassez, fome e falta de medicamentos são tão altos que vemos um aumento de saques e episódios de violência. Há preocupação de que essa situação se degenere e a Venezuela fique ingovernável. O maior risco é um cenário caótico. Países da região estão preocupados com esta possibilidade e o seu impacto em questões como refugiados e necessidade de prover assistência humanitária. 

Qual o cenário mais provável?

Por enquanto, o adiamento do referendo para depois de 10 de janeiro. O melhor seria a votação ainda neste ano, seguido de eleições presidenciais para resolver a crise. Assim, o país poderia adotar políticas econômicas para retomar o crescimento e enfrentar escassez e inflação. Mas, como o preço do petróleo está subindo e o governo ainda controla as forças de segurança, tudo aponta para o cenário no qual o referendo é adiado para 2017. Apesar disso, muita coisa pode acontecer nos próximos meses. A situação pode mudar ou outros países podem pressionar pela realização do referendo neste ano. 

Como o ajuste econômico está ocorrendo?

Por meio da contração do consumo provocada pela restrição das importações. Temos de lembrar que 95% dos dólares que a Venezuela recebe são controlados pelo governo, porque vêm da venda de petróleo. Vemos o efeito disso nas longas filas para comprar produtos, na escassez de medicamentos, na subnutrição. A receita do governo caiu desde que o petróleo estava US$ 120 o barril (de 2012 até o início de 2014). Com menos receita, ele teve de gastar menos. Até agora, eles escolheram pagar a dívida com China e Wall Street e contrair o consumo. Claro que isso tem um impacto negativo e vemos isso no nível de pobreza, que passou de 30%, há três anos, para mais de 75% agora.

Qual é o papel da China? 

A China desempenhou um papel de facilitador na América Latina. Em países com boa governança, como Chile, isso foi positivo. Mas, em países com corrupção, como a Venezuela, o efeito foi negativo. A China emprestou US$ 60 bilhões à Venezuela em troca de embarques de petróleo. O problema é que a Venezuela não gastou esse dinheiro no aumento da produção de petróleo. Na verdade, está diminuindo. E o preço do petróleo caiu de US$ 120 para US$ 40. A decisão que a China terá de fazer é se empresta mais ou não. Parece que estão dispostos a emprestar. 

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