Pavel Golovkin/AP
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Para o Kremlin, Alexei Navalni é uma ameaça a respeito da qual não se pode falar

Há mais de 20 anos no poder, Putin nunca pronunciou em público o nome do seu mais importante adversário

Andrew Higgins, The New York Times

03 de setembro de 2020 | 07h00

MOSCOU - Um filme de propaganda favorável ao Kremlin, postado antes das eleições presidenciais da Rússia em 2018, difamou Alexei Navalni, o líder da oposição russa que atualmente se encontra em coma em um hospital alemão, depois de sofrer uma tentativa de envenenamento, como a reencarnação de Adolf Hitler.

Um ex-primeiro-ministro, o alvo da mais forte denúncia de corrupção feita por Navalni, o descreve como um “político golpista”.

Para o presidente Vladimir Putin, entretanto, o defensor da campanha contra a corrupção é uma espécie de Lord Voldemort, uma figura, cujo nome, assim como o arquinimigo de Harry Potter, “não pode ser mencionado”.

Há mais de 20 anos no poder, Putin nunca pronunciou em público o nome do seu mais importante adversário, segundo os arquivos dos seus discursos e entrevistas no site do Kremlin. Quando disse o seu nome depois da insistência de um interlocutor americano durante um evento privado em 2013, ele se tornou um personagem do noticiário nacional.

Além de referências a Navalni que constam de transcrições oficiais de coletivas à imprensa, o site do Kremlin se dignou a usar o seu nome somente na semana passada – e portanto reconheceu que o crítico mais incansável de Putin realmente existe.

“Há um estranho tabu. Ele é uma figura sacral, mística”, disse Dmitri Belousov, um ex-roteirista da televisão estatal que escreveu durante anos relatando o caráter dos assassinatos de inimigos do Kremlin. Temendo ser preso por seu antigo interesse particular pelo anarquismo, ele fugiu da Rússia no ano passado, e busca o asilo político na Holanda.

Ele disse que os alvos de personagens da televisão – ordenados por funcionários do Kremlin e produzidos com as comprometedoras imagens fornecidas pelos serviços secretos – incluíram o ex-prefeito de Moscou, considerado por algum tempo um possível rival de Putin, Mikhail Khodorkovsky, mas foi Navalni que atraiu a ira mais perversa.

“Eles realmente odeiam Navalni”, disse Belousov, porque “o que ele fez foi algo que fugiu realmente do controle deles”. O Kremlin combate todas as forças que não consegue controlar. Esta é a sua estratégia norteadora”.

Outro motivo da ira, prosseguiu, foi o fato de apesar de os serviços secretos o caçarem durante anos, nunca encontraram qualquer material comprometedor a seu respeito.

A luta continua até mesmo enquanto o seu inimigo está em coma em um hospital alemão. Yevgeny Prigozhin, um empresário que tem o apelido de “o cozinheiro de Putin” e alvo das investigações de Navalni nos casos de corrupção, disse na semana passada que adquiriu algumas das dívidas de Navalni e o obrigará a pagá-lo quando tiver a possibilidade.

“Evidentemente, se o camarada Navalni vier a falecer, pessoalmente não penso em processá-lo neste mundo”, acrescentou Prigozhin.

Mesmo inconsciente, Navalni consegue irritar o Kremlin e seus aliados. Na segunda-feira, a sua organização, a Fundação Anti-Corrupção, divulgou um vídeo em que Navalni aparece denunciando políticos corruptos do Kremlin durante uma recente viagem à cidade siberiana de Novosibirsk. Ele mencionou 18 legisladores locais  que teriam estreitos vínculos suspeitos com uma indústria da construção, notória pela corrupção.

No voo de volta a Moscou, no dia 20 de agosto, Navalni adoeceu gravemente e poderia ter morrido se o piloto não tivesse feito um pouso de emergência na cidade de Omsk, onde foi hospitalizado por dois dias e, em seguida, mandado de avião a Berlim para tratamento.

Segundo os médicos alemães, Navalyn foi envenenado. O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, menosprezou este julgamento como “um barulho vazio” e informou que a Rússia não via nenhuma razão para abrir uma investigação sobre o acontecido o que acontecera ao “paciente”, uma nova maneira de referir-se a Navalni, como os outros termos “o cavalheiro”,  “a pessoa que você mencionou”, “o réu” que o Kremlin usa para evitar mencionar o seu nome.

O momento escolhido para o envenenamento, depois de protestos em massa na vizinha Bielo-Rússia por causa da disputada eleição presidencial, e de semanas de manifestações de rua no Extremo Leste da Rússia, gerou muitas especulações. Por que, depois de tantos ataques  ao caráter de Navalni ao longo dos anos e, em pelo menos duas ocasiões, à sua pessoa, as ameaças repentinamente aumentaram, chegando, ao que tudo indica, à tentativa de assassinato?

Uma teoria amplamente difundida é que o Kremlin, assustado pelos protestos no oeste na Bielo-Rússia, e no leste em Khabarovsk, quis tirar Navalni do caminho a fim de impedir que mobilizasse o descontentamento mais perto de Putin e tumultuasse seus planos para as eleições parlamentares do próximo ano.

Uma teoria alternativa, entretanto, é que o envenenamento de Navalni não aponta para a força de um sistema de repressão impiedosamente eficiente, mas para a fraqueza de um sistema cuja resposta  a ameaças potenciais se tornou tão degradada que o Estado não mais funciona como uma unidade, mas como uma mescla de clãs rivais e de executores freelances com rancores, como Prigozhin.

“Cada elemento do sistema age de acordo com sua própria lógica, e não no interesse do sistema como um todo”, disse Tatiana Stanovaya, fundadora de um escritório de análises políticas, R. Politika, e autora de um recente artigo  que define o envenenamento como “o ato de um regime doentio”. “O envenenamento não é a maneira mais eficiente de lidar com um adversário. É uma idiotice total”.

À confusão, acrescenta-se o fato de que, ao contrário das vítimas de vários outros horrorosos casos barrocos de envenenamento, ligados à Rússia, Navalni nunca foi classificado como traidor, uma categoria de inimigo que Putin despreza particularmente, e que, segundo ele, não merece misericórdia.

Putin e outros na elite governante da Rússia não temem tanto Navalni, segundo Stanovaya, quanto o desprezam como um intruso incômodo.

“Eles são como os moradores de um bairro residencial de luxo que querem livrar-se de um vagabundo que começa dormindo perto de sua maravilhosa fonte”, ela disse. “Navalni não faz parte do seu mundo, e querem que desapareça”.

Stanovaya acrescentou que a elite governante da Rússia – particularmente  os ex-funcionários da KGB como Putin e muitos dos seus assessores mais próximos – consideram o líder da oposição “um instrumento” usado pelos inimigos externos da Rússia, “e não como um rival e nem mesmo como uma pessoa”.

“O nosso país é governado pela lógica da KGB”, afirmou.

“Ninguém inspira tanta hostilidade e temor quanto Navalni”, observou Nikolai Petrov um pesquisador da Chatham House de Londres e especialista no processo de tomada de decisões do Kremlin. Isto, acrescentou, significa que existe uma lista muito longa de inimigos em potencial que poderiam querer que ele morresse, ou pelo menos ficasse incapacitado.

Mas, acrescentou, Navalni é um alvo tão importante que ninguém por rancor pessoal faria algo contra ele sem pelo menos o tácito consentimento de Putin.

“É como a máfia: nada pode ser feito sem a aprovação e a garantia de impunidade do chefão”, afirmou. “Não estou dizendo que Putin tenha dado uma ordem direta para envenená-lo, mas ninguém pode agir a não ser que tenha a certeza de que o chefão ficará satisfeito e não o punirá”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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