Gianni Cipriano/The New York Times
Gianni Cipriano/The New York Times

Mais pobre, sul da Itália teme fim de isolamento do coronavírus

Com o plano do governo italiano de começar um fim gradual do isolamento em 4 de maio, alguns líderes do sul continuam com tanto medo do potencial do vírus de devastar suas regiões que sugeriram proibir os nortistas de acelerar a reabertura

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 16h52

ROMA - O coronavírus já era um desastre para Meorina Mazza. Em março, o irmão dela adoeceu, sua prima morreu e as autoridades da região sul da Calábria colocaram em quarentena sua cidade de San Lucido, na costa.

Mas o bloqueio também a impediu de trabalhar como auxiliar de cozinha e dificultou a solicitação de assistência social. Agora, ela depende de doações de farinha para alimentar as filhas, mas ainda não tem dinheiro para pagar a conta de luz. "Estamos realmente indo ao desespero total", disse Mazza, de 53 anos.

A epidemia de coronavírus na Itália, entre as mais mortais do mundo, com mais de 24 mil mortes, explodiu pela primeira vez no norte rico do país, onde levou ao limite um dos mais sofisticados sistemas de saúde da Europa. Mas é o sul mais pobre e menos desenvolvido que pairou sobre toda a crise e figurou com destaque na decisão do governo de colocar em isolamento toda a Itália no mês passado.

Agora, com o plano do governo italiano de começar um fim gradual do isolamento em 4 de maio, alguns líderes do sul continuam com tanto medo do potencial do vírus de devastar suas regiões que sugeriram proibir os nortistas de acelerar a reabertura. 

 

Os italianos do sul já estão travando uma guerra em duas frentes, enfrentando tanto os tumultos do vírus quanto a crescente crise econômica não vista desde o período pós-2ª Guerra.

A explosão generalizada do vírus na Calábria "teria sido uma catástrofe", disse Jole Santelli, governadora, ao justificar o passo drástico de isolar toda a região em março, ajudando a evitar um surto desastroso. Mas o dano econômico, disse ela, "será enorme".

Esse cenário já é aparente, ainda que, em geral, o sul consiga evitar o pior da pandemia.

Os pobres, acostumados a procurar empregos na economia informal, dependem cada vez mais da ajuda do governo. Relatos preocupantes de agitação social perturbaram a narrativa italiana de sacrifício patriótico. 

As autoridades estão preocupadas com o fato de o crime organizado estar explorando a crise, intervindo como fornecedores de empréstimos e, em alguns casos, de alimentos.

O coronavírus tem sido o grande revelador das fraquezas de governos, sistemas e sociedades em todos os lugares por todo o mundo. Na Itália, não demorou muito para expor o problema mais confuso e duradouro do país: a desigualdade econômica e social entre o norte e o sul.

Os cuidados de saúde, em particular, continuam a ser uma área em que uma mistura de clientelismo político, má administração e influência do crime organizado deixou o sul para trás.

Mesmo antes do ataque do vírus, alguns hospitais da região estavam tão endividados que precisavam ser postos sob administração externa, e os moradores do sul costumavam viajar para o norte para procedimentos médicos.

Santelli disse que fechou a Calábria por medo de que trabalhadores infectados que retornassem do norte sobrecarregassem um sistema hospitalar "bastante fraco".

Pelo menos por enquanto, o sul está resistindo ao vírus. No sul, houve cerca de 1,5 mil mortes atribuídas ao vírus, em comparação com mais de 20 mil no norte. Mas, à medida que o sul mantém o vírus sob controle, a ameaça se torna econômica.

Em San Lucido, o irmão de Mazza passou mais de um mês no hospital enquanto ela usava farinha para fazer um bolo que serviria de café da manhã para suas filhas por uma semana.

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Sergio Malito, que trabalha na prefeitura, disse que o medo do contágio estava se transformando no temor de as lojas não reabrissem, que a pesca não recomeçasse, que os turistas não viessem. "Estaremos arruinados", disse ele.

Esse sentimento é generalizado. Um vídeo de moradores desesperados gritando do lado de fora dos bancos da cidade de Bari, na costa oposta, se tornou viral.

Esses medos são agravados pelos problemas econômicos predominantes antes mesmo da chegada do vírus. O desemprego no sul gira em torno de 18%, quase o triplo do norte, enquanto a taxa de desemprego jovem é de cerca de 50%, segundo o Eurostat.

Mais de 3,5 milhões de trabalhadores na Itália operam sem registro formal, representando cerca de 12% do produto interno bruto (PIB) do país, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística da Itália. Grande parte dessa atividade está no sul, uma área de cerca de 20 milhões de pessoas que abrange as seis regiões e duas ilhas ao sul de Roma.

Os trabalhadores informais constituem uma vibrante "economia de rua", disse Luca Bianchi, diretora de uma associação para o desenvolvimento da indústria no sul da Itália. Mas isso significava que, quando os bloqueios foram impostos, esses trabalhadores foram mais atingidos porque não tinham acesso aos pacotes de ajuda do governo.

O governador da região de Campania, Vincenzo De Luca, teme que a máfia local, Camorra, tente explorar a crise e disse que uma das razões pela qual a região montou um ambicioso pacote de ajuda foi "fechar a porta ao crime organizado".

Já em Nápoles, a mídia italiana informou que a Camorra está usando o pretexto de entregar comida para estar nas ruas para vender drogas ou para abalar os donos de lojas com doações aos pobres.

Michele Emiliano, governador da região de Puglia e ex-promotor, disse recentemente a repórteres que os chefes da máfia provavelmente estavam se falando por teleconferências como outras empresas.

Emiliano disse que achava que a Itália estava cometendo um "erro estratégico" ao não se concentrar em reabrir o sul antes do norte. Se os surtos menores no sul forem eliminados, ele disse, isso poderia liberar espaço hospitalar para os doentes do norte e também permitir a realocação da produção do norte.

 

Outros líderes do sul consideram a noção de atrair os negócios do norte uma fantasia e argumentam que as regiões precisam se concentrar em manter o vírus fora e as pessoas alimentadas.

"Esses são os novos pobres do coronavírus", disse Cateno De Luca, prefeito da cidade siciliana de Messina.

O prefeito De Luca tornou-se conhecido na Itália por tentar barrar pessoalmente os moradores do continente que tentavam chegar à ilha. Ele insultou os ministros do governo criticando suas ações e argumentou que, dado o estado do sistema de saúde da Sicília - onde os médicos eram forçados a "tirar no palito" (recursos e leitos) -  até um pequeno registro de infecções seria fatal.

Segundo ele, seria um fracasso iniciar um plano de recuperação econômica. "Não começamos do zero", disse ele. “Começamos com menos de zero.” / NYT

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