Martin Zabala/AP
Martin Zabala/AP

Para Obama, Macri devolve a argentinos liderança regional

Presidente americano reafirma promessa de divulgar documentos que comprovam apoio dos EUA à ditadura argentina

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2016 | 23h14

Após 12 anos de má relação entre EUA e Argentina, o presidente americano, Barack Obama, selou ontem na Casa Rosada mais do que uma reaproximação protocolar. Ele se disse impressionado com as políticas econômica e externa implementadas pelo argentino Mauricio Macri “em apenas 100 dias” e o alçou a exemplo de líder para a região e o mundo.

Eleito por uma coalizão de centro-direita, o argentino assumiu o poder em 10 de dezembro, eliminou a maior parte dos impostos a exportações, reduziu travas a importações e aliviou rígido controle cambial do kirchnerismo. O efeito colateral é uma inflação em alta (4,3% em fevereiro, 33,9% nos últimos 12 meses).

Nas relações exteriores, Macri colocou a Venezuela como alvo e exigiu a libertação de presos políticos opositores. A duas linhas de atuação, em consonância com o que Washington espera da região, fizeram Obama “encaixar” a visita a Buenos Aires depois de sua viagem a Cuba.

“Macri é um homem que tem pressa. Me impressionou como se movimentou rápido para concretizar as reformas que propôs para conectar a Argentina com o mundo. Fico triste porque só teremos nove meses de governo simultâneo. A Argentina está retomando seu papel de líder na região e no mundo”, afirmou o americano, depois de ser chamado de “inspiração” pelo colega argentino.

Obama mencionou que investimentos de milhões de dólares estão sendo feitos na Argentina e brincou que conhece de perto a polarização local. “Sou atacado pela direita e pela esquerda”.

Questionado sobre a influência que sua visita poderia ter no acordo encaminhado pela Argentina com os “fundos abutres”, apelido dado por Cristina Kirchner aos credores que não aceitaram as renegociações de 2005 e 2010, Obama foi evasivo. “Não posso me pronunciar diretamente, por questões legais. Mas posso dizer que a proposta construtiva de Macri abriu uma possibilidade de solução”, elogiou. O Senado argentino tende a aprovar o acordo que resolveria mais de 80% da dívida e recolocaria o país no mercado de crédito internacional.

O clima de camaradagem durante a declaração conjunta levou analistas locais a apontarem uma aproximação similar à dos anos 90, quando Carlos Menem se ligou a Washington a ponto de o período ter sido lembrado na Argentina como o da “relação carnal”. 

Foi no final dessa etapa, em 1997, que Bill Clinton esteve em Buenos Aires, na última visita do tipo. George W. Bush foi apenas a Mar del Plata para a Cúpula das Américas em 2005, quando Área de Livre Comércio das Américas (Alca) foi rejeitada, sob a liderança de Néstor Kirchner.

Ditadura. Durante os 12 anos de kirchnerismo, o governo americano foi atacado por sua participação no golpe militar que hoje completa 40 anos. Questionado sobre que autocrítica fazia sobre o tema, Obama referiu-se ao apoio às ditaduras latino-americanas como uma medida com a qual ele não está de acordo, mas ponderou: “Se olharmos o que os governos pensavam sobre outros países nos anos 30, 50 ou 60, e comparamos com o fato de podermos hoje ter uma conversa no Salão Oval, isso mudou com o tempo. E acredito que mudou de forma positiva”, argumentou Obama.

Ele participará hoje de uma homenagem às vítimas do regime militar no Parque da Memória, monumento que reúne o nome de 10,7 mil dos 30 mil mortos ou desaparecidos durante 1976 e 1983. Ele formalizou ontem a promessa de abrir documentos secretos sobre o período de exceção. Desde 2000, são conhecidos textos do Departamento de Estado que comprovam o apoio ao golpe, mas na nova leva estarão dados da CIA.

Obama enfrentou uma pequena manifestação contra sua presença na tarde de ontem. A maior mobilização deve ocorrer na manhã de hoje, na Praça de Maio. Grupos de defesa dos direitos humanos farão uma marcha que tradicionalmente reúne milhares e adicionarão o repúdio a Obama a suas bandeiras. 

O presidente americano participou ontem de um jantar de gala e hoje à tarde irá passear em Bariloche com a família. Ele disse estar realizando um sonho juvenil ao conhecer a Argentina, porque era fã dos autores Borges e Cortázar. Na entrevista coletiva, arrancou risos da plateia ao contar que havia tomado mate pela primeira vez.

“Achei muito bom. Estou pensando em levar um pouco para Washington, não sei que controles de importação ou exportação vou desobedecer. Mas quando estou no Air Force One em geral posso fazer o que quiser”, brincou.

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