Para ONGs, Calais é pior que campo no Sudão

Não há tendas brancas no mais miserável acampamento de migrantes de Calais, na França. Em "new jungle", onde vivem mais de três mil estrangeiros oriundos de países em guerra ou sob ditadura e miséria, como a Síria e o Sudão, a eventual existência de instalações padronizadas indicariam a presença da Agência das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR).

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / CALAIS, FRANÇA, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2015 | 02h04

Com a ONU presente, os migrantes teriam acesso a serviços básicos como assistência em saúde, água potável, eletricidade, sanitários em condições, assistência jurídica e, nos melhores casos, até escola.

Mas, por uma decisão dos governos francês e britânico, que preferem não institucionalizar o campo informal de candidatos a refugiados em Calais, os migrantes devem enfrentar a mais absoluta miséria em pleno coração da Europa Ocidental. Organizações não governamentais advertem que as instalações hoje usadas pela maior parte dos estrangeiros na cidade não seguem os padrões sanitários, de dignidade e segurança estabelecidos pela ONU. Na prática, a situação no acampamento é pior do que dos refugiados na Jordânia e no Sudão, denunciam ONGs.

Médicos do Mundo, Solidarités Internacional, Socorro Católico e Socorro Islâmico são as únicas entidades presentes de fato em "new jungle". E não por tempo indeterminado. Reunidas, as quatro associações decidiram que abandonariam o local em três meses se os poderes públicos da França e da Grã-Bretanha não assumissem suas responsabilidades.

Essa reunião foi realizada há um mês e meio, e desde então nenhum progresso relevante foi feito. "Além do trabalho das ONGs, nada foi feito pelos Estados além de instalar dois pontos de água e um gerador de luz", disse ao Estado Thierry-Mehdi Benlahsen, diretor do Serviço de Urgência da Solidarités Internacional. "O ultimato é a nossa forma de pressionar as autoridades públicas para colocarem o campo de acordo com as normas internacionais."

Durante 35 anos de existência, a organização, internacional, já esteve presente em 120 locais de conflitos e catástrofes naturais, mas nunca havia atuado em território francês. Ao receber o pedido de auxílio da ONG Médicos do Mundo, a direção hesitou, até conhecer as condições humanitárias do "new jungle". "Na Jordânia e no Sudão os campos são mais organizados e mais bem gerenciados do que na França. Isso mostra o interesse das autoridades pela sorte dessas pessoas", opina Benlahsen. "Há standards humanitários fixados por tratados internacionais que precisam ser respeitados. E esse não é o caso em Calais, porque o Estado se recusa a assumir responsabilidades. O desinvestimento é total."

Precariedade. No acampamento, as condições sanitárias e de saúde são precárias. A reportagem do Estado, que já esteve em campos na Tunísia, Síria e Turquia, encontrou em todos mais estrutura para os refugiados do que em Calais.

Em campos internacionais, o padrão mínimo de assistência social prevê, por exemplo, um grupo de cabines de latrinas para cada 300 pessoas, total que precisa passar a 150 conforme o campo é organizado. Outro padrão a ser respeitado é o de espaços de no mínimo 3,5 metros quadrados por abrigado.

O campo em Calais está longe desses critérios. Jean-François Patry, voluntário da Médicos do Mundo, é testemunha. Quando jovem, ele trabalhou em campos na Argélia, em Bangladesh e na América Central. Hoje usa suas férias para enfrentar o problema humanitário no próprio país.

"New jungle é uma favela, uma verdadeira selva. É chocante", diz ele. "Já estive em outros países em missões humanitárias. O que fazemos aqui é uma missão humanitária em nosso próprio país - situação que vai continuar por muito tempo."

Não bastasse a questão sanitária, em meio à multidão de estrangeiros há mulheres - grávidas inclusive - e crianças, e as condições de segurança são pífias. Na prática, no acampamento impera a lei da selva: cada um por si.

Para Claire Rodier, jurista do Grupo de Informação e de Apoio aos Imigrantes (Gisti), que atua em Calais, essa situação é causada pela falta de uma política objetiva e clara de imigração por parte da União Europeia, o que resulta em campos informais como o "new jungle". "O governo francês leva uma política improvisada que consiste em bloquear os acessos. É essencialmente uma gestão dissuasiva da imigração", diz a advogada.

Para Claire, a instabilidade política e os conflitos armados no Oriente Médio e no Norte da África, às portas da Europa, indicam que a chegada de migrantes não vai parar com mais dissuasão. "Melhor do que tentar em vão pará-los, seria refletir sobre como acolhê-los da melhor forma possível", diz ela, lembrando não faltam recursos para enfrentar o drama.

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