AFP PHOTO / Thomas URBAIN
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Para opositor turco exilado nos EUA, Turquia deixou de ser uma democracia

Fethullah Gülen nega envolvimento na tentativa de golpe de Estado que deixou ao menos 300 mortos na sexta-feira

O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2016 | 15h19

SAYLORSBURG, ESTADOS UNIDOS - Acusado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan de estar por trás da tentativa de golpe de Estado na sexta-feira na Turquia, o opositor Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos, nega qualquer envolvimento e se declara inquieto pelas instituições de seu país, que para ele já não é uma democracia.

Com mais de 70 anos de idade, Gülen sofre complicações cardiovasculares e diabetes, segundo seus parentes, e diz que quase não sai de casa há dois anos. Ele nega estar envolvido na tentativa de golpe que deixou ao menos 300 mortos, entre eles 100 rebeldes.

"Sempre fui contra a intervenção dos militares na política interna", afirma. Ele reitera sua condenação à tentativa de golpe, que considera como "uma traição à nação turca".

Para Gülen, o desenvolvimento do golpe provoca dúvidas, principalmente sobre o eventual papel desempenhado pelo governo. "Vocês têm informações da imprensa que indicam que os membros do partido no poder estavam cientes da tentativa 8, 10 e inclusive 14 horas antes", afirma. "Este golpe frustrado, quaisquer que sejam seus autores ou líderes, reforça" o presidente Erdogan e seus partidários, acrescenta.

Ex-aliado de Erdogan que se tornou opositor, Gülen se preocupa atualmente com as consequências das medidas adotadas pelo governante turco após o fracasso da tentativa de golpe de Estado.

O ex-imã menciona os apelos lançados, segundo ele, pelos partidários do presidente Erdogan, para atacar os simpatizantes do Hizmet, o movimento de Gülen. "Em um panorama como esse, não é possível falar de democracia, de constituição, de uma forma republicana de governo", indica o clérigo opositor.

"Este regime se parece mais com um clã ou com um governo tribal", afirma com voz fraca. "A história nos ensina que os ditadores podem chegar ao poder com o apoio de um grande número de pessoas", indica, mencionando Adolf Hitler, Saddam Hussein e Gamal Abdel Nasser.

Estado de direito. Consultado sobre sua eventual extradição, exigida por Erdogan, Gülen diz não estar inquieto diante de uma tentativa que ele considera destinada ao fracasso.

Interrogado pela CNN, Erdogan disse em Ancara que apresentará o pedido a Washington, no âmbito do "acordo recíproco de extradição de criminosos" que as duas nações mantêm.

Gülen lembrou ainda que o governo já tentou, em vão, obter sua extradição depois de um escândalo de corrupção que abalou a Turquia em 2013 e que provocou a renúncia de três ministros.

Os Estados Unidos "são um Estado de direito", explicou o imã, em um salão suntuoso. "Aqui a lei está acima de tudo. Não acredito que este governo preste atenção a qualquer coisa que não tenha a lei como base", afirma.

O secretário de Estado americano, John Kerry, indicou na segunda-feira que uma extradição de Gülen não é factível na ausência de provas, e disse que cabe às autoridades turcas fornecê-las.

Ainda que o pedido de extradição prospere, o opositor diz estar tranquilo. "Eu morrerei algum dia. Seja na minha cama ou na prisão, eu não me importo", afirma.

Embora diga que não está inquieto com o próprio destino, Gülen se preocupa com as relações entre a Turquia e os Estados Unidos. Ele lembra que as tropas turcas lutaram ao lado das americanas durante a Guerra da Coreia e que as duas nações colaboram há décadas na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), à qual a Turquia se uniu em 1952. "Se tivesse que deixar a Otan, a Turquia estaria em um caos, evaporaria. Estaria acabada", afirma o clérigo. /AFP

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