Para os alemães, Romney já mostrou seu despreparo

Visita a Israel é descrita como esforço para atrair eleitorado judaico

É JORNALISTA, RENUKA, RAYASAM, DER SPIEGEL, É JORNALISTA, RENUKA, RAYASAM, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h07

Além de arrecadar dinheiro, os sete dias de viagem em visita a importantes aliados americanos deveria conferir ao provável candidato republicano à presidência, Mitt Romney, credenciais para falar em política externa. Mas a viagem de Romney não teve o efeito desejado.

Em Londres, ele foi criticado por suas gafes e sua falta de tato. Em entrevista a uma TV americana, Romney descreveu como "inconvenientes" os preparativos para a Olimpíada, questionando a adequação do aparato de segurança e citando uma possível greve entre os funcionários da alfândega e da imigração.

Em Jerusalém, Romney foi recebido com mais entusiasmo pelo premiê Binyamin Netanyahu - os dois trabalharam juntos no Boston Consulting Group depois de concluírem a faculdade de administração. Em discurso feito na noite de domingo na Cidade Velha de Jerusalém, Romney deixou claro que defende uma maior cooperação entre EUA e Israel. "Reconhecemos o direito de autodefesa de Israel e consideramos que, para os EUA, o correto é estar ao seu lado", disse Romney, indicando que poderia estar aberto a ações militares israelenses.

Na segunda feira, jornais alemães criticaram a visita de Romney a Israel, descrevendo-a como tentativa de conquistar o eleitorado judaico nos EUA.

Opinião do conservador Die Welt: "A primeira parte da viagem, em Londres, deu errado porque Romney criticou abertamente a falta de organização nos preparativos para a Olimpíada. Foi uma atitude inadequada para um visitante que espera ser eleito para a Casa Branca, levando a uma forte reação à possibilidade da sua vitória. Em comparação, ele foi recebido em Israel pelo premiê Netanyahu como 'um amigo pessoal e um grande aliado de Israel'. Romney conseguiu colocar Barack Obama na defensiva." "O Oriente Médio é um ponto fraco para Obama, que exigiu concessões unilaterais em Jerusalém, lançando assim uma grande sombra no relacionamento bilateral entre os dois países. Portanto, a luta pelo eleitorado judaico, que sempre apresentou a tendência de votar nos democratas, pode fazer sentido para os republicanos. ...Mas, na prática, a essência das propostas políticas (de Romney) não é muito diferente daquela apresentada pelo presidente: opções militares não serão excluídas, mas existe a preferência por soluções diplomáticas." "No fim, tudo se resumirá a um único elemento: a economia vai decidir a eleição presidencial, e não os discursos vigorosos nem as visitas desajeitadas a países estrangeiros." Opinião do conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung: "A viagem de Romney a Londres, Israel e Polônia teve como objetivo incrementar o perfil internacional dos republicanos e impressionar o eleitorado americano. Mas o resultado até o momento mostra que ele pode (e precisa) melhorar. Quando tentou dar o seu melhor em Londres, seus anfitriões consideraram a fala dele extremamente descortês. Seja como for, sua visita a Israel é ainda mais importante para o eleitorado doméstico. Com suas crenças previsíveis a respeito do relacionamento entre EUA e Israel - e como crítica indireta às políticas de Obama para o Oriente Médio - Romney quer conquistar o eleitorado judaico, cuja maioria sempre pertenceu ao Partido Democrata. Mas, independentemente do quanto tente parecer respeitável e diplomático, do quanto ele se revele amador e desajeitado e do quanto comente os supostos erros e fracassos do atual presidente - que ainda se gaba de ter eliminado Bin Laden - na política externa, o impacto de tudo isso na eleição de novembro será mínimo. A eleição presidencial é um referendo das políticas de Obama para os EUA. Seu resultado será decidido principalmente pelos temas da situação econômica e das perspectivas para o futuro."

Opinião do Süddeutsche Zeitung, de centro esquerda: "Viajar é aprender. Como resultado, seria de se esperar que Mitt Romney, o desafiante republicano que enfrentará Barack Obama na eleição presidencial, queira aprender algo durante sua viagem a Israel. Nada disso! Quase tudo aquilo que o candidato organizou em Jerusalém alimenta a impressão de que ele não pretende compreender o quanto é complicada a situação no Oriente Médio. Em vez disso, Romney demonstra compreender a crise na região em termos de preto e branco: Israel representa o bem, e o restante - os palestinos e os mulás iranianos - são reunidos numa mesma categoria. Esta visão de mundo unilateral não é um simples resultado da burrice, e sim de um frio cálculo. Romney está pedindo em Jerusalém doações para a sua campanha (o preço mínimo do café da manhã de dois pratos é US$ 50 mil). E ele está capturando os eleitores judeus nos EUA. A viagem a Israel pode ajudar Romney no curto prazo. Mas, no longo prazo, o republicano causou um estrago. O Oriente Médio precisa da mediação dos EUA. Neste sentido, o candidato à presidência já demonstrou seu despreparo." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.