Para os mexicanos, o norte está cada vez menos atraente

Estudos mostram que o fluxo de imigração ilegal para os EUA vem diminuindo, contido pela melhora das condições de vida no México

Damien Cave, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2011 | 00h00

O extraordinário fluxo da migração mexicana que presenteou os Estados Unidos com milhões de imigrantes ilegais nos últimos 30 anos está hoje bastante reduzido, e uma pesquisa apresenta uma causa surpreendente: as mudanças inesperadas ocorridas no México tornam mais atraente não sair do país.

Inúmeras evidências sugerem que uma série de acontecimentos - o aumento das oportunidades econômicas e educacionais, a expansão da criminalidade na fronteira e a redução das famílias - contribui para suprimir o tráfico ilegal de pessoas, além das crises econômicas ou a repressão.

No planalto de Jalisco, um dos três estados mexicanos de onde saiu a maior onda de emigração no século passado, surgiu uma nova dinâmica. Para uma família rural típica, como a dos Orozcos, ir para o norte sem os documentos necessários não constitui mais um inevitável rito de passagem. Ao contrário, suas casas voltaram a ficar povoadas de parentes que decidiram voltar, enquanto os mais jovens nem pensam em sair.

"Não vou para os Estados Unidos porque estou mais preocupado com meus estudos", afirmou Angel Orozco, 18. Na realidade, no novo instituto tecnológico onde pretende tirar o diploma de engenheiro industrial, todos os estudantes afirmaram recentemente que receberam uma instrução melhor do que os seus pais - e pretendem permanecer no México.

Segundo Douglas S. Massey, codiretor do Projeto da Migração Mexicana em Princeton - uma ampla pesquisa sobre os centros de emigração do México -, seu estudo mostrou que o interesse em se mudar para os Estados Unidos caiu para o menor patamar desde pelo menos a década de 50. "Ninguém quer ouvir, mas o fluxo praticamente parou", disse Massey, referindo-se à travessia ilegal. "Pela primeira vez em 60 anos, o tráfego líquido caiu a zero e provavelmente chega a ser negativo."

O declínio da imigração ilegal, alimentada por um país responsável por cerca de 6 em cada 10 imigrantes ilegais nos Estados Unidos, é persistente. O censo mexicano descobriu recentemente que no México havia quatro milhões de pessoas a mais em relação ao que fora projetado, fato atribuído pelas autoridades a um considerável declínio da emigração. Os dados do censo americano analisados pelo Centro Hispânico Pew, apartidário, também mostram que a população mexicana ilegal nos Estados Unidos encolheu e que menos de 100 mil mexicanos ilegais que cruzaram a fronteira ou violaram o visto se estabeleceram nos Estados Unidos em 2010, em comparação com cerca de 525 mil ao ano entre 2000 e 2004. Embora as estimativas do Pew não incluam os migrantes temporários, a maioria dos especialistas concorda que, nos últimos anos, o número de imigrantes ilegais a entrar no país foi bem menor.

A questão é a razão desse fenômeno. Especialistas e políticos americanos de ambos os partidos em geral se concentram nos problemas do seu país, referindo-se ao sucesso ou ao fracasso do aumento da força policial destacada na fronteira com o México e de leis mais rigorosas que limitem os direitos dos imigrantes ilegais - como as aprovadas recentemente no Alabama e no Arizona. As deportações atingiram altas recorde, e o total de prisões de mexicanos na fronteira caiu mais de 70% desde 2000.

Mas a imigração mexicana sempre foi definida pela pressão (do México) e pela repressão (por parte dos Estados Unidos). A decisão de deixar o país implica uma comparação, uma complexa análise dos custos e benefícios; e como o boom dos nascimentos e das crises econômicas mexicanas desencadearam ondas de emigração nas décadas de 80 e 90, as pesquisas agora mostram que o abrandamento das pressões demográficas e econômicas contribui para a redução das saídas.

Em poucas palavras, as famílias mexicanas são menores do que eram antigamente. O número de possíveis migrantes encolheu. Apesar do predomínio da Igreja Católica no México, o controle dos nascimentos provocou queda das taxas de fertilidade para cerca de 2 filhos por mulher, em comparação com 6,8 em 1970, segundo dados oficiais.

Portanto, embora o México registrasse um milhão ao ano de novos aspirantes a um emprego em potencial na década de 90, desde 2007 esse número caiu para uma média de 800 mil, conforme mostram os registros dos nascimentos do governo. Até 2030, calcula-se que esse número cairá para 300 mil.

Até as famílias mais numerosas como a Orozco - Angel é o nono de dez filhos - o cálculo da migração mudou. Atravessar a fronteira "mojado", molhado, ilegalmente, tornou-se mais caro e mais perigoso, particularmente com os cartéis da droga que dominam a região. Ao mesmo tempo, as oportunidades de educação e de emprego aumentaram consideravelmente no México. Desde 2000, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita e a renda familiar registraram um salto superior aos 45%, de acordo com um respeitado economista, Roberto Newell. Apesar de o México ser retratado como "um Estado quase falido", afirmou, "o conceito convencional está errado".

Também está havendo uma significativa expansão da imigração legal - com a ajuda das autoridades consulares americanas. O Congresso deverá debater a reforma da imigração, mas no México os vistos sem um limite obrigatório estabelecido pelo Congresso quanto ao número de pessoas que podem entrar no país aumentaram no período de 2006 a 2010, em comparação com os cinco anos anteriores.

Dados do Departamento de estado mostram que os mexicanos que se tornaram cidadãos americanos levaram legalmente para os Estados Unidos 64% mais parentes próximos, 220.500 de 2006 a 2010, em comparação aos números dos cinco anos anteriores. Também estão sendo concedidos vistos de turista a taxas de aproximadamente 89%, em comparação com 67%, e, desde 2006, os produtores agrícolas americanos contrataram legalmente 75% mais trabalhadores temporários.

Edward McKeon, a mais alta autoridade americana em assuntos consulares no México, informa que se preocupou em facilitar o ingresso legal nos Estados Unidos na tentativa de impedir que as pessoas desistam e procurem entrar ilegalmente. Ele também ajudou os que antes eram ilegais a superar barreiras de entrada. "Se as pessoas procuram fazer a coisa certa", disse McKeon, "precisamos fazer com que elas saibam que serão recompensadas."

Progresso. Outro importante fator para o recuo na imigração ilegal está no próprio México. Nos últimos 15 anos, o país outrora definido pela pobreza e pelas praias progrediu em termos políticos e econômicos de uma maneira raramente admitida pelos americanos que debatem o problema da imigração. Mesmo longe da costa ou do setor manufatureiro da fronteira, a democracia está mais sedimentada, a renda em geral aumentou e a pobreza declinou.

Em Jalisco, houve um boom da tequila que acelerou a década de 90, criou novos empregos para os produtores de agave e para engenheiros nas destilarias. Em 2003, David Fitzgerald, especialista em migração da Universidade da Califórnia, foi para Arandas e achou que a disparidade dos salários em relação aos Estados Unidos havia se reduzido: os migrantes no norte ganhavam 3,7 vezes mais do que ganhariam em seu país.

Recentemente, essa discrepância diminuiu. Nos Estados Unidos, a recessão cortou os ganhos dos imigrantes, segundo o Centro Hispânico Pew, enquanto no México os salários subiram, segundo dados do Banco Mundial. A qualidade de vida em Jalisco melhorou de outras maneiras também. Há cerca de dez anos, os ranchos dos Orozcos, nos arredores de Água Negra, receberam eletricidade e água encanada. Novos dados do censo mostram uma grande expansão desses serviços: água e coleta de lixo, outrora desconhecidos fora das cidades, agora estão disponíveis em mais de 90% dos lares de Jalisco. Apenas 3% das casas continuam de terra, em comparação com 12% em 1990.

No entanto, a educação representa a mudança mais importante. O censo mostra que em todo o estado de Jalisco o número de escolas preparatórias para a universidade para estudantes dos 15 aos 18 anos aumentou para 724, em 2009, ante 360 em 2000, ultrapassando consideravelmente o crescimento populacional. O Instituto Tecnológico de Arandas, onde Angel estuda engenharia, é um dos 13 campi de ciência criados em Jalisco desde 2000 - uma das principais razões pelas quais o número de profissionais do Estado, com um diploma de bacharel ou mesmo superior, também mais que dobrou para 821.983, em 2010, em comparação com 405.415 em 2000.

Dados referentes às escolas secundárias, como a frequentada pelos meninos Orozco em Água Negra, sugere que a tendência continuará. Graças a um programa do governo mexicano chamado "escolas de qualidade", o campus de três edifícios pintados de amarelo girassol tem novos computadores para os 71 estudantes, assim como novos livros. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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