'Para os partidos extremistas, só existe uma resposta'

Professor criador do experimento 'A Onda' em escola dos EUA vê risco de disseminação rápida de discursos e ideais autoritários na UE marcada pela crise

Entrevista com

Ron Jones

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

31 Maio 2014 | 16h00

Em 1967, o professor americano Ron Jones tornou-se líder de um grupo com ideias fascistas quando criou o movimento "A Onda". O plano era conduzir um experimento realista com seus alunos sobre a Alemanha nazista, mas o projeto saiu do controle.

Jones ensinava História em uma escola de Palo Alto, na Califórnia. Para mostrar aos alunos as características que levaram ao regime de Adolf Hitler, criou o grupo usando ideais nazi-fascistas.

"A Onda" saiu do controle quando integrantes do movimento começaram a repreender aqueles que não partilhavam das mesmas ideias. Jones encerrou a experiência e precisou mostrar aos alunos que eles estavam seguindo o mesmo comportamento de Hitler.

Em entrevista ao Estado, Jones disse acreditar que o fascismo pode ser espalhado quando se abre mão da liberdade para seguir alguém. "A política extremista ignora a lei que prevê e protege os direitos individuais. O processo político envolvendo a oposição, a realização de referendos, a liberdade, é ignorado". A seguir, trechos da entrevista.

Por que o senhor decidiu realizar o experimento?

Eu já fazia o que chamamos de simulação, em que os alunos experimentam alguma coisa ao invés de lerem sobre o assunto. Por exemplo, para ensinar sobre apartheid eu não permiti que os alunos usassem determinados banheiros da escola e pudessem sentir o que era ser proibido de usar determinada área. Acho que a gente aprende melhor quando se envolve.

Como acabou o experimento "A Onda"?

Acabou com a representação de um comício. Levei os alunos a uma assembleia e disse que os apresentaria ao seu líder nacional. Então, mostrei um filme sobre a formação do Terceiro Reich. Mas, para mim, nunca acabou. Falo com alguns alunos até hoje e falo com muitas pessoas sobre o assunto. Então, é como um fantasma que vive voltando.

Por que o senhor acha que o experimento saiu do controle?

Acho que gostamos demais. Eu pessoalmente gosto da ordem, da disciplina, da sensação de ter poder e controle do destino, isso é muito atrativo. E há outra questão muito importante: a pessoa pensa que descobriu uma resposta para problemas sociais e é o autor ou mensageiro dessa resposta, é apavorante. Você para de ouvir os outros e começa a maltratar aqueles que não são do seu grupo.

O senhor esperava que o experimento ultrapassasse o limite da sala de aula?

Não, foi totalmente inesperado. Eu me tornei uma vítima do meu próprio experimento.

A vontade de ter o poder depende de ideologia?

Acho que é um comportamento humano. É muito difícil não responder de forma violenta a determinadas ações, mas foi isso que Mandela e Martin Luther King nos ensinaram, como ter disciplina sem violência para mudar a sociedade sem matar seus oponentes.

Como o senhor vê a eleição de grupos de extrema direita para o Parlamento Europeu?

É importante entender a ascensão de partidos extremistas. Eles oferecem uma resposta simples para problemas sociais e a colocam como uma causa a ser seguida. O segundo ponto usado por esses partidos é o sentimento da população de não querer mais ser explorada ou silenciada, mas ter a oportunidade de agir para mudar algo. A sensação de agir por mudanças, pertencer a um grupo, é boa.

Extremistas trabalham com a ideia de superioridade. Aqueles que não aderem à sua causa, devem ser difamados, deixados à margem, destruídos. Para partidos extremistas, existe apenas uma resposta, uma solução final.

Como evitar a disseminação de ideias fascistas em uma sociedade?

Quando se olha para qualquer sociedade é preciso perguntar se há diálogo. Há discussão? O povo realmente faz parte da tomada de decisões? Grupos como o Taleban, que impedem o questionamento, são um grande problema. Qualquer sociedade que restringe os questionamentos corre o risco de afundar ou de ter um holocausto.

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