Mohammed Abed/AFP
Mohammed Abed/AFP

Para palestinos, acordo entre Israel e Emirados Árabes Unidos troca um pesadelo por outro

Golpe diplomático rompeu décadas de unidade árabe em torno da causa palestina

Isabel Kershner e Adam Rasgon, The New York Times

15 de agosto de 2020 | 04h00

JERUSALÉM - Quando um avião não identificado dos Emirados Árabes Unidos pousou na pista de Tel Aviv numa noite de maio, trazendo para os palestinos 16 toneladas de ajuda médica não solicitada, a aeronave foi rejeitada pela liderança, que disse que ninguém avisara sobre o carregamento.

Era apenas o prelúdio para uma humilhação ainda maior. As autoridades palestinas afirmam que ninguém as consultou antes do anúncio surpresa do presidente Trump na quinta-feira: Israel e os Emirados Árabes Unidos haviam concordado com a “normalização total das relações”, em troca de Israel suspender a anexação de partes da Cisjordânia ocupada.

O acordo foi apresentado como uma espécie de bálsamo para os palestinos, mas muitos deles o consideraram uma facada nas costas ou um punhal no coração. O golpe diplomático perpetrado por Israel rompeu décadas de unidade árabe em torno da causa palestina. Trocou um pesadelo palestino – a anexação, que muitos líderes mundiais haviam alertado que seria uma apropriação ilegal de terras – por outro, talvez ainda mais sombrio.

“Este acordo é muito prejudicial para a causa da paz”, disse Husam Zomlot, chefe da missão palestina no Reino Unido, falando de Londres, “porque tira um dos principais incentivos para que Israel encerre sua ocupação: a normalização com o mundo árabe”.

“Basicamente, o acordo diz que Israel que pode ter paz com um país árabe”, acrescentou, “em troca de um adiamento do roubo de terras palestinas”.

As manchetes de sexta-feira explicitaram essa cisão. O popular jornal israelense Yediot Ahronot celebrou o “acordo histórico” e a oferta de “paz em troca da anexação”. Mas o palestino Al-Hayat al-Jadida falou em “agressão tripartida contra os direitos do povo palestino”, em letras vermelhas e furiosas.

A nova relação entre Israel e os Emirados é a conquista mais proeminente daquilo que Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, chamou de abordagem de fora para dentro. Essa abordagem envolveu um cortejo ao círculo externo dos Estados sunitas do Golfo, com o objetivo de chegar silenciosamente a um acordo e, depois, convencer os palestinos, em vez de lidar primeiro com os palestinos.

O governo israelense, há muito liderado por conservadores, vê os palestinos como intransigentes, arredios e incapazes de transigir em princípios de longa data, os quais Israel vê como demandas exageradas, caracterizando-os como negociadores que estão sempre desistindo das negociações de paz.

A política também reverte a ordem da Iniciativa de Paz Árabe de 2002, uma proposta endossada pela Liga Árabe que pedia o reconhecimento total de Israel por todas as nações árabes e islâmicas em troca da completa retirada israelense dos territórios ocupados, restringindo sua presença às fronteiras que existiam antes a guerra de 1967 no Oriente Médio.

Zombando das velhas previsões de que Israel ficaria cada vez mais isolado e enfrentaria um “tsunami” diplomático por não conseguir resolver o conflito palestino, Netanyahu elogiou a paz econômica e o que ele chama de T.T.P. – terrorismo, tecnologia e paz. Os outros países, incluindo os árabes, argumentou ele, veem Israel como um aliado na luta contra o terrorismo islâmico e uma fonte de inovação tecnológica, e não um obstáculo à paz.

Em linhas gerais, o acordo com os Emirados Árabes Unidos reflete o realinhamento dos eixos pró e anti-iranianos no Oriente Médio, fazendo com que os palestinos se sintam isolados e, com a justificativa da suspensão da anexação, usados como peões.

“MbZ tentou nos fazer de bobos”, disse Nour Odeh, escritora e analista palestina, referindo-se a Mohammed bin Zayed, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi e governante de fato dos Emirados Árabes Unidos. “Mas ninguém caiu nessa”, acrescentou ela. “A Palestina não aceitou”.

O acordo chega como um golpe adicional para os palestinos, que rejeitaram o plano de Trump para resolver o conflito do Oriente Médio como algo irremediavelmente tendencioso em favor de Israel e, posteriormente, restringiram suas relações com o governo Trump. Além da fadiga no mundo árabe, os palestinos também estão lutando contra seus demônios internos.

A política palestina está fraca há tempos, dividida entre as porções da Cisjordânia nominalmente controladas por Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, e seus rivais no Hamas, grupo militante islâmico que domina o empobrecido território costeiro de Gaza.

A luta agora não é apenas contra Israel, mas para manter a relevância.

“Aconteça o que acontecer, eu sou a única coisa que precisa ser resolvida”, disse Saeb Erekat, secretário-geral do comitê executivo da Organização para a Libertação da Palestina e negociador veterano. Insistindo que, em última análise, a questão palestina não poderá ser descartada ou ignorada, ele acrescentou: “Eu sou o fato em cima da mesa. Eu sou o verdadeiro fato em cima da mesa”.

Além disso, Erekat observou: “Nem um único emirado jamais lutou contra os israelenses em nenhuma guerra. Não existe guerra entre os Emirados e Israel”.

De fato, Israel e os Emirados vêm cooperando discretamente há anos em questões de segurança e comércio. Ministros israelenses visitam abertamente os sete Emirados e Israel mantém um pequeno escritório na Agência Internacional de Energia Renovável em Abu Dhabi. Ali também há uma sinagoga e um rabino residente, Levi Duchman, de origem novaiorquina.

As relações palestinas com os Emirados, em contraste, azedaram há quase uma década. Abu Dhabi abriga Muhammad Dahlan, ex-chefe da segurança de Gaza que se tornou um crítico mordaz de Abbas e seu inimigo no exílio. Os registros do Ministério das Finanças da Palestina indicam que os Emirados não enviam fundos ao governo de Ramallah desde 2014.

“Eles nem nos convidam para seu dia nacional”, disse Erekat.

Os Emirados também podem ter se sentido encorajados pelo cansaço do público árabe em geral e pela resposta quase apática aos movimentos do governo Trump que visavam a quebrar o consenso, como reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e transferir a embaixada dos Estados Unidos para a cidade em disputa.

Mas analistas palestinos disseram que o momento do mais recente anúncio provavelmente teve mais a ver com a chegada das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

“Os países do Golfo têm interesse em manter Trump no poder”, disse Ghassan Khatib, cientista político da Universidade Birzeit, na Cisjordânia. “Eles estavam muito felizes com a política de Trump para o Irã e descontentes com a de Obama. Portanto, farão de tudo para contribuir para a reeleição de Trump”.

Enquanto Omã e Bahrein elogiavam o acordo, junto com o Egito, muitos aqui esperavam que esses pequenos estados do Golfo fossem os próximos a estabelecer relações com Israel.

Em Ramallah, os palestinos denunciaram o acordo dos Emirados com Israel como uma traição vergonhosa, mas não pareciam surpresos. Logo após o anúncio na noite de quinta-feira, cerca de 20 jovens e homens se reuniram no café de Ashraf Hamoudeh para fumar narguilés e assistir a uma partida de futebol.

“Este acordo certamente prejudicará a causa palestina, bem como os interesses árabes”, disse Hamoudeh, 50 anos. “Viola o acordo entre todos os países árabes de que nenhum poderia assinar acordos de paz com Israel unilateralmente”.

Nader Said, pesquisador de Ramallah e presidente da consultoria Arab World for Research and Development, disse que o acordo apenas torna público e formaliza o que há anos vinha se gestando entre Israel e os Emirados.

Mas ele teme que “essa distração permita que Israel se concentre em consolidar seu controle sobre a Cisjordânia, construindo mais assentamentos e estradas”. E acrescentou: “Seria de se esperar que os Emirados Árabes Unidos adoçassem o acordo com alguns gestos em direção aos palestinos”.

Por outro lado, alguns israelenses especularam que Netanyahu pode até construir mais assentamentos, para aplacar elementos de sua base de direita, irritados por seu fracasso em cumprir a promessa de anexação.

A Autoridade Palestina também pode se encontrar numa situação difícil. Para impedir Israel de realizar seus planos de anexação, a autoridade desde maio restringiu a cooperação com Israel, inclusive a coordenação na segurança, e se recusou a aceitar as receitas fiscais que Israel coleta em seu nome e que constituem uma parte considerável de seu orçamento. Por enquanto, a anexação está fora de cogitação, mas a autoridade talvez não queira retomar imediatamente a cooperação para não legitimar o acordo Israel-Emirados.

Se existe algum lado positivo nessa história, talvez seja o protelar de uma anexação que muitos analistas disseram que poderia destruir de uma vez por todas as esperanças de um futuro estado palestino baseado na solução de dois estados, a fórmula internacionalmente aceita para resolver o conflito.

Mas Odeh, a escritora e analista, disse que, com a constante expansão dos assentamentos, a anexação crescente já está em andamento.

Nada mudará na postura palestina, nem na necessidade estratégica de Israel lidar com isto a longo prazo, disse ela, acrescentando: “Os palestinos não vão definhar. Estamos aqui e sabemos incomodar muito. Acho que eles já deviam saber disto”./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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