Para que serve a monarquia?

Os militantes da república estão preparados. Eles utilizarão a pompa de sexta-feira para tentar abater a monarquia britânica. Seu ardor é grande, mas seu número, pequeno. Alguns milhares. Suas finanças são ainda menores. Um pouco de desalento tomou conta deles quando souberam que o casamento de William Arthur Philip Louis of Wales, futuro rei, e Catherine Elizabeth Middleton será assistido por 2 bilhões de pessoas e umedecerá os olhos de senhoritas de Cingapura a Punta del Este.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2011 | 00h00

No entanto, muitos britânicos consideram a monarquia obsoleta. Em 1800, o filósofo Jeremy Bentham a descrevia como "um absurdo montado em pernas de pau". Mais recentemente, Lorde Beaverbrook declarou: "A monarquia ruirá num bocejo de tédio." Má profecia. A monarquia não morreu. E não é o tédio que a ameaça, mas a agitação, por vezes o escândalo. Esses desconfortos deram bons resultados: a monarquia britânica evoluiu. Muito? Não. Um pouco.

No início de seu reinado, há 60 anos, Elizabeth II se recusava a receber casais divorciados em seus aposentos em Ascot. Depois, três de seus quatro filhos se divorciaram. Seu filho querido, Andrew, duque de York, tem amigos detestáveis - como um miliardário americano condenado por pedofilia -, sua neta Zara Phillips casou-se com um jogador de rúgbi de nariz quebrado. Embora o Buckingham tenha se recusado a convidar Tony Blair e Gordon Brown, em compensação, estarão presentes o cantor pop Elton John e seu companheiro, David Furnish.

Alguns republicanos são ainda mais cruéis. O canadense de origem britânica Grant Stoddard, que gostaria que o Canadá deixasse a Comunidade Britânica, fez uma releitura da história dos reis da Inglaterra. E ela não é nada encorajadora: ela tem um simpatizante nazista (Eduardo VII) e, mais distante no tempo, traidores (Carlos I), assassinos (Ricardo III), doentes mentais (George III) e um executor de mulheres (Henrique VIII).

"Mas e os outros reis?", nos questiona Stoddard. Ele mesmo responde: "Imbecis." Na verdade, não há nenhuma revelação. Shakespeare, seus reis loucos e rainhas assassinas nos haviam advertido. Stoddard acrescenta uma colher de veneno ao desenhar o futuro rei Carlos III (Charles). "Rabugento, com um rosto velho de traque misantropo, que fala com as plantas por meio das duas folhas de repolho de suas orelhas" - retrato, a meu ver, exagerado.

A questão é a seguinte. Por que ato de prestidigitação essa monarquia, que não serve para absolutamente nada, continua a fascinar? Lembremos que o rei tem três funções apenas: ele outorga honrarias, nomeia o primeiro-ministro que o Parlamento lhe diz para nomear e dissolve, nas mesmas condições, o Parlamento.

A essa pergunta, podemos dar respostas racionais. "Esse sistema assegura a permanência de uma classe dominante competente, unida pelos laços de família, de geração em geração", disse Edmund Burke, no século 17.

Função da monarquia. Eu proporia que a monarquia, em um planeta e em sociedades condenados ao definhamento e à decrepitude, tem a missão de introduzir em nossos horizontes borrascosos um elemento indestrutível, insensível à usura e às novidades, protegido da malevolência e dos caprichos da história e da política.

Nesse sentido, a monarquia assumiria a mesma função que preenchem, com mais modéstia, a religião, as feiras de antiguidades e os museus, as perucas dos magistrados britânicos, a tiara e os sapatos vermelhos do papa, as receitas de cozinha, os costumes, as lendas familiares que se transmitem dos avós para os netos, os trajes cor de escaravelho verde e dourado usados pelos membros da Academia Francesa, os rituais dos professores universitários, que obrigam seus alunos a respeitar suas dissertações, os costumes dos povos tupi-guarani, em suma, várias condutas encantadoras, anódinas, quase invisíveis, que permitem ao homem carregado pelas vagas borbulhantes do tempo, o momento de imaginar que ele permanece à margem da torrente, ao abrigo de seus furores.

Esses deveres, a monarquia britânica preenche com um talento e um brilho inigualáveis. Acrescenta-se a isso uma virtude suplementar: os rituais dessa realeza, forjados desde a Idade Média, atingem a perfeição. É isso que lhe permite introduzir uma outra dimensão, a do "conto de fadas".

A admiração das multidões por essas cerimônias a meio caminho do sublime e do grotesco pode também ser explicado por essa "magia". Assim como os parques temáticos da Disney, mas com mais "classe", a monarquia britânica nos oferece um "conto de fadas".

Milagre. Este ano, pela primeira vez, será uma plebeia, uma burguesa muito rica, por sinal, que misturará seu sangue ao "sangue azul" aristocrático da família real. Eis a missão histórica de Kate e a razão de nossa embriaguez. Cinderela sobe na carruagem do príncipe encantado e, mesmo depois da meia-noite, continuará princesa.

Após as 12 badaladas da meia-noite, ela não voltará a seus trajes de "camponesa" ou de "burguesa". Continuará princesa e, um dia, será rainha. Esse é o milagre. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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