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Para Raúl Castro

Falso memorando de um agente cubano sobre o futuro da relação com a Venezuela

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

26 Março 2018 | 05h00

Falta pouco para que o sr. entregue a presidência de Cuba a seu sucessor. Sua saída coincide com o final de minha missão como chefe de nossas operações clandestinas na Venezuela. Mas não escrevo para me despedir e comemorar nossas realizações. 

Escrevo porque estou preocupado. A situação está insustentável e exige mudanças drásticas. O objetivo deste memorando é apresentar-lhe uma proposta que garanta a continuidade de nosso relacionamento com a Venezuela.

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A estabilidade de Cuba depende de que continuemos tendo aqui um governo “nosso”. A essa prioridade, viemos dedicando, há quase duas décadas, nossos melhores talentos, instituições e recursos.

Conseguimos controlar o país com as maiores reservas de petróleo do planeta sem dar um tiro e sem envolver abertamente nossas Forças Armadas. E o fizemos sem que, até agora, o mundo se desse conta de que as mais importantes decisões econômicas, políticas, de segurança interna ou relações internacionais na Venezuela foram determinadas por nós. O mesmo vale para as nomeações importantes nas Forças Armadas, Judiciário e serviços de inteligência e segurança. No que nos interessa, faz-se o que nos convém.

Os benefícios para nossa pátria foram imensos. Não se limitaram aos milhões de barris de petróleo que sustentaram nossa economia. A Venezuela também nos paga, generosamente, pelos médicos, técnicos e assessores de todo tipo que lhe enviamos. As comissões que nossas empresas cobram de Caracas para intermediar as importações de alimentos e outros produtos nos proporcionam grandes lucros. Nossa diplomacia se fortaleceu com o controle que exercemos sobre a chancelaria e as embaixadas venezuelanas. Graças ao petróleo da Venezuela, nossa influência sobre os países do Caribe e da América Central é enorme. Expulsamos dali os Estados Unidos.

Mas tudo isso corre perigo. O sr. sabe, mas vou repetir. A situação, que já era difícil, tornou-se impossível: 88% dos hospitais informam que estão sem remédios para os pacientes, 90% não conseguem oferecer serviços de emergência, 79% ficam frequentemente sem água e em 96% não há comida suficiente. A mortalidade infantil já é uma das mais altas do mundo. 

A ausência nas escolas primárias e de ensino médio assusta, uma vez que alunos e professores passam a maior parte do dia atrás de alimentos. Em 2017, os venezuelanos perderam, em média, 11 quilos e 89% da população vive em condições de pobreza. O índice de homicídios é um dos mais altos do mundo. O de inflação, também.

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A indústria petrolífera, que cria 90% das divisas do país, entrou em colapso. A produção de petróleo hoje é metade do que era quando o comandante Chávez chegou ao poder, em 1999. Calcula-se que 3 milhões de venezuelanos tenham deixado o país, número equivalente ao do êxodo da Síria.

Estamos prestes a matar a galinha dos ovos de ouro. Felizmente, as próximas eleições nos dão a oportunidade para evitar isso. Maduro é claramente incapaz de administrar a crise e vem perdendo apoio. Precisamos que, em maio, haja uma mudança de caras. Recomendo o seguinte:

1) Fazer Maduro perder as eleições e entregar o poder ao vencedor. Isso legitimaria a democracia venezuelana perante o mundo. Para persuadir Maduro, oferecemos-lhe um cargo simbólico e uma mansão em Havana. Mas, principalmente, devemos deixar claro a ele que, se não colaborar, estamos dispostos a fazê-lo perder a enorme fortuna que acumulou. Ele sabe que podemos fazer isso. Quando seus aliados virem que já não goza de nosso apoio, vão abandoná-lo. A eles, também, damos alguns “incentivos”.

2) Chegar a um acordo com o candidato presidencial de “oposição” que seja mais “flexível”. Garantimos a ele vença (ainda controlamos o Conselho Nacional Eleitoral, órgão que conta os votos e decide quem ganhou) e lhe damos liberdade de atuar como queira em várias frentes, especialmente na economia. Mas nosso apoio dependerá de continuarmos recebendo petróleo e decidindo as nomeações mais importantes nas Forças Armadas, serviços de inteligência e na equipe de segurança pessoal do presidente. Também continuaríamos decidindo quem vai dirigir a empresa petrolífera e os principais juízes.

Um benefício adicional desse esquema é que ele nos permitirá continuar usando a Venezuela como laboratório para aprendermos a administrar Cuba no futuro. A Venezuela teria, assim, um sistema político parcialmente aberto, com toda a aparência de democracia e algumas liberdades. Mas com a gente no poder.

Nota aos leitores: este memorando é falso, apenas produto de minha imaginação. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*MOISÉS NAÍM É ESCRITOR VENEZUELANO E MEMBRO DO CARNEGIE ENDOWMENT EM WASHINGTON

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