AAREF WATAD / AFP
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Para resolver crise humanitária, é preciso fim das hostilidades, diz analista

A crise humanitária que culminou na fuga de 900 mil civis da Síria deverá ainda se agravar, segundo o professor e especialista em Oriente Médio da Fundação Getúlio Vargas

Entrevista com

Salem Nasser, especialista em Oriente Médio da FGV

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 04h00

A crise humanitária que culminou na fuga de 900 mil civis da Síria deverá ainda se agravar. A previsão é do professor, Salem Nasser, especialista em Oriente Médio da Fundação Getúlio Vargas. “Teremos mais pessoas deslocadas e altos números de mortos”, diz, na entrevista ao Estado. Abaixo, trechos da entrevista: 

Turquia e Rússia chegam ao ápice da disputa na guerra da Síria. É o fim da batalha?

Era evidente que chegaríamos a esse momento. Agora os sírios só têm Idlib (no norte do país) pela frente e avançam rápido em direção ao enfrentamento. Caminha-se para uma batalha final e o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, está vociferando, mas não vai conseguir “bancar”, especialmente se os russos estiverem dispostos a acabar com isso - e me parece que esse é o cenário. A 'cartada' turca é mais frágil que a russa.

Haverá uma escalada no confronto?

Vamos assistir a um cenário dramático. Se os russos realmente quiserem mostrar sua força, ficam as perguntas: a Otan vai se envolver? E os americanos vão se envolver? A Turquia estaria agindo em concertação com o Ocidente ou à revelia? É muito difícil uma ação militar turca ser bem sucedida hoje contra a Síria. Agora estão recuperando tudo. Só falta Idlib. Uma batalha pode ser muito sangrenta, porque há muita gente ali, muitos grupos armados. Antes, quem era derrotado iria para Idlib. Mas, e depois de Idlib, vão para onde? Ou lutam até a morte ou aceitam um acordo para se render. Além disso, são muitos combatentes armados - fala-se entre 70 a 80 mil, e muitos são estrangeiros. Os países de origem vão aceitar esses grupos? 

Como lidar com os 900 mil deslocados? 

Nesse momento, tudo leva ao aprofundamento do conflito. Os deslocados vivem uma situação dramática e seu drama pode ser usado para fazer pesar a balança da narrativa para um lado ou outro. 'O governo, mais uma vez, vai atacar a região onde estão os opositores, os rebeldes, e isso resulta em 900 mil tragédias que são verdadeiras'. Ou o outro lado pode dizer: 'a região está dominada por terroristas, e isso faz com que 900 mil se desloquem'. Esse problema não será solucionado sem que a guerra acabe. E para acabar, haverá a última batalha. 

Como a comunidade internacional pode ajudar?

Os combatentes que vieram do mundo inteiro foram financiados, treinados e armados para combater o governo sírio.  Eles teriam de buscar uma solução pacífica para o entrave de Idlib. Mas como tirar os combatentes armados e para onde enviá-los? Se houvesse uma oferta razoável, evitaria a guerra e o drama que virá a seguir. Mas a comunidade internacional ou está incapaz de oferecer alternativa ou realmente não quer. Eles poderiam jogar o peso contra a Turquia para pressionar para desmobilizar. Mas até agora o Ocidente considera que dar uma vitória qualquer ao governo da Síria - e da Rússia - é contra os seus interesses estratégicos. 

Como o Brasil deve se manifestar em caso de um conflito maior?

Quanto menos se manifestar, melhor. Porque a gente sempre se manifesta de acordo com o que alguém lá acha que é o interesse americano ou israelense. Para onde virar os Estados Unidos, a gente vira, com a diferença de que eles sabem porque estão fazendo isso. A gente não sabe. Ao agir sem saber porque está agindo, passamos uma imagem de submisso, de fiel seguidor, de quem é pouco profissional. 

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