Para reverter a 'arizonização' dos EUA

Democratas crescem no Arizona, cujas duras medidas anti-imigração influenciaram o debate sobre o tema em nível nacional

JEFF, BIGGERS, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, JEFF, BIGGERS, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2012 | 03h02

Análise

Falando da lei que persegue imigrantes ilegais do Arizona, o ex-presidente Bill Clinton levantou uma multidão que lotava um salão da universidade do Estado na semana passada. Ele fez um chamado especial aos "sonhadores" do Arizona, as fileiras extremamente organizadas de jovens imigrantes ilegais que buscam a permanência no país mediante a educação ou o serviço militar. Ao pedir votos para o ex-secretário da Saúde Richard Carmona, cuja campanha para tornar-se o primeiro senador de origem hispânica do Arizona lidera as pesquisas, Clinton provocou uma de suas maiores ovações.

Bem-vindos à prova de força do Arizona. A governadora Jan Brewer negou benefícios oferecidos pelo Estado a jovens imigrantes ilegais. A adoção pelo Partido Republicano da política da imigração do Arizona em sua convenção estabeleceu uma linha muito clara. A "arizonização" dos EUA foi o produto da influência do Estado no debate nacional sobre imigração. Jan consolidou a convicção da mídia e de outros setores de que a política de imigração do Estado está totalmente ligada a uma abordagem de tornar a situação dos imigrantes insustentável com a aplicação da lei.

Não que os xerifes, os milicianos armados na fronteira e os ativistas do Tea Party não existam no Arizona. Mas como as 5.500 pessoas que ouviram Carmona e Clinton lembraram ao Estado, esses elementos talvez tenham finalmente encontrado alguém à sua altura. Há uma campanha entusiasmada de cidadãos para convencer eleitores a não votar em Joe Arpaio, xerife do Condado de Maricopa e "pai" das medidas de endurecimento contra os imigrantes.

A crescente aliança entre os hispânicos, a geração dos baby boomers que está se aposentando e os centristas arraigados deve ter um impacto mais duradouro nos programas liberal e conservador no plano nacional do que o Tea Party, que está sempre nas manchetes, mas capenga.

Um outro Arizona estará despontando? Vejamos os progressistas que escreveram uma das Constituições mais sensatas do país, na época do nascimento do Arizona em 1912. Num discurso profético que pronunciou depois de negociar um acordo trabalhista que chamou a atenção de todo o país entre o sindicato dos mineiros em greve e as mineradoras de cobre, o governador George W. Hunt expôs o desafio com o qual os Estados Unidos se defrontavam: "Dia feliz para a nação será aquele em que as corporações serão excluídas da atividade política e uma enorme quantidade de capital não será empregada na tentativa de controlar o governo".

Entretanto, apesar de toda a sua sabedoria, Hunt sucumbiu às pressões contrárias à imigração dos sindicatos mais conservadores.

Em 1903, mexicanos-americanos, trabalhadores nativos e imigrantes lideraram as primeiras greves do Estado em Morenci.

Agora, trabalhando com vários outros grupos de defesa dos direitos civis, os Cidadãos Para Um Arizona Melhor lideram a campanha "Joe precisa ir embora", contra Arpaio, cuja outrora imbatível vantagem em relação ao seu adversário Paul Penzone se reduziu a alguns pontos porcentuais.

Com o xerife investigado por suas tendências racistas pelo Departamento de Justiça, o desafio a Arpaio entusiasmou os liberais outrora tímidos do Estado.

Se Arpaio for derrotado, a ascensão de "outro Arizona" e a rejeição do extremismo bipartidário poderá reverter a arizonização dos EUA. Embora o Arizona possa não votar em Barack Obama neste ano, uma derrota de Arpaio ou uma vitória de Carmona será um passo rumo ao desmantelamento do controle republicano da política de imigração do Estado.

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