LI XUEREN/XINHUA/AP - 18/5/2020
LI XUEREN/XINHUA/AP - 18/5/2020

Para rivalizar com UE e EUA, China corteja aliados com 'diplomacia amável'

Uma fala de Xi Jinping a graduados líderes do Partido Comunista sugere que Pequim se concentrará em cortejar aliados, mas não suavizará retórica contra EUA e Europa

Steven Lee Myers e Keith Bradsher / The New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 15h00

Graduados diplomatas da China censuraram colegas dos Estados Unidos em razão de sua hipocrisia e condescendência. Friamente, os chineses lembraram aos europeus da experiência de seu continente com o genocídio. E acabaram de acusar a Nova Zelândia, um país que tem cuidado para não ofender ninguém, de interferências graves nos assuntos de Pequim.

Então, quando o líder máximo da China, Xi Jinping, disse a altas autoridades do Partido Comunista, no início da semana passada, que deveriam melhorar sua comunicação com o restante do mundo, analistas e reportagens sugeriram que isso era um reconhecimento de que a maneira cada vez mais belicosa da China lidar com diplomacia nos meses recentes não foi bem recebida.

“Devemos nos concentrar em estabelecer o tom correto, ser abertos e confiantes, mas também modestos e humildes - e nos empenhar para criar uma imagem digna, amável e respeitável da China”, afirmou Xi, de acordo com relato da Xinhua, a agência de notícias estatal do país, a respeito de uma sessão coletiva de estudos na sede do partido, em Pequim.

A fala de Xi seguiu-se a uma série de contratempos diplomáticos que diplomatas e analistas afirmaram ter chamado a atenção do líder. A China está engajada em uma luta pela opinião pública, afirmou Xi a membros do comitê executivo do partido, que tomavam notas atentos ao que ele dizia.

Sua prescrição, porém, poderá intensificar, em vez de suavizar, crescentes tensões que têm resultado com cada vez mais frequência em embates diplomáticos. Ele usou (duas vezes) a palavra “luta”, que remete à era de Mao. E uma de suas orientações foi trabalhar melhor para explicar por que o marxismo funciona.

Ele também não sinalizou nenhuma mudança em políticas que contribuíram para crescentes críticas contra o comportamento da China. Em vez disso, descreveu um torneio ideológico pela conquista da opinião pública, com dois blocos competindo por seguidores e muitos países em meio ao fogo cruzado. A China não dá sinais de ter sido repreendida pelos recentes reveses diplomáticos, e parece mais preocupada em garantir que sua mensagem seja transmitida.

“Na verdade, ele está enfrentando problemas domésticos e externos”, afirmou Wu Qiang, analista político independente que vive em Pequim, citando as preocupações demográficas que levaram Xi a aliviar ainda mais a restrição ao tamanho das famílias. “Nesse caso, ele fez um ajuste estratégico. E ele é a única pessoa capaz de fazer esse ajuste estratégico.”

A postura intransigente da China em relação à diplomacia gerou consequências. Um acordo de investimento com União Europeia, alcançado em dezembro depois de sete anos de negociações, foi congelado no mês passado, após a China impor sanções a dezenas de eurodeputados.

O ministro de Relações Exteriores filipino postou recentemente uma enfática e ríspida exigência para que os chineses cessem sua presença em águas territoriais filipinas no Mar do Sul da China.

A Nova Zelândia, um país que a imprensa oficial chinesa já elogiou por suas políticas responsáveis, juntou-se à Austrália na semana passada em críticas contra a atual repressão em Hong Kong e Xinjiang, a região de predominância muçulmana no noroeste chinês.

Alguns consideraram a fala de Xi na semana passada um sinal de que a China está buscando moderar sua diplomacia de “lobo guerreiro”, batizada dessa maneira em razão de dois nacionalistas filmes de ação de 2015 e 2017. O tom de “lobo guerreiro”, porém, se tornou parte essencial dos esforços da China em conter as crescentes críticas.

“Não há nenhum genocídio” em Xinjiang, afirmou o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, a chanceleres de outros países, durante uma conferência online, há duas semanas, após a União Europeia impor sanções contra autoridades chinesas em razão de abusos de Pequim em Xinjiang - que alguns governos, incluindo dos EUA, qualificaram como genocidas.

“Nossos colegas europeus sabem o que é genocídio”, afirmou ele.

A China tem concentrado cada vez mais esforços em sua estratégia diplomática de expandir a rede de países que apoiam Pequim em fóruns como o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, afirmou Alice Ekman, analista sênior do Instituto para Estudos em Segurança da União Europeia, em Paris. A China tem arregimentado países para apoiar declarações que defendem suas ações em Xinjiang e Hong Kong.

A lista chinesa de linhas vermelhas - assuntos que o governo considera inegociáveis diplomaticamente - está crescendo, em vez de encolher, afirmou ela. Diplomatas da China cada vez mais forçam países não somente a evitar esses temas, mas também a apoiar suas posições.

Uma nova linha vermelha envolve um assunto que parece ter enfurecido os líderes chineses: as investigações a respeito das origens do coronavírus, que apareceu primeiramente em Wuhan, no fim de 2019, e, desde então, contaminou 179 milhões de pessoas no mundo, matando aproximadamente 3,7 milhões.

A mão pesada da China para influenciar a investigação da Organização Mundial da Saúde - que em março qualificou como improvável a possibilidade de o vírus tez vazado de um laboratório em Wuhan - suscitou dúvidas em relação à maneira com que o governo chinês lidou com o surto em seu início e a possibilidade de Pequim ter omitido informações a respeito de sua origem.

O diretor-geral da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, tem dito que a possibilidade de que o vírus tenha vazado de um laboratório não recebeu suficiente consideração. O presidente dos EUA, Joe Biden, ordenou no mês passado que as agências de inteligências americanas redobrem esforços para determinar a origem da pandemia.

“Acho que eles devem estar sentido a pressão dessa mudança de narrativa em torno da covid-19”, afirmou Theresa Fallon, diretora do Centro para Estudos de Rússia, Europa e Ásia, em Bruxelas, a respeito dos líderes chineses.

Mas em vez de oferecer garantias e se comprometer em cooperar com a investigação, a China partiu para o ataque. Dois dias após a sessão de estudos de Xi, um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês exigiu que os EUA abram seus laboratórios de biologia para inspeção.

As ações da China também atiçaram tensões em outras frentes. Poucos meses após Xi obter uma vitória diplomática na negociação pelo investimento europeu, a que o recém-chegado governo Biden se opôs, o acordo desmoronou.

Em março, a União Europeia se juntou a EUA, Canadá e Reino Unido na imposição de proibições de viagens e congelamento de ativos a quatro autoridades chinesas de patente relativamente baixa, de uma agência de segurança local, em razão de seu papel na repressão em Xinjiang.

A China retaliou sancionando quatro entidades e dez indivíduos, incluindo membros do Parlamento Europeu, que tem a função de deliberar a respeito do pacto de investimento em votação.

A resposta da China foi amplamente considerada desproporcional e afundou o acordo. No mês passado, os eurodeputados decidiram, por esmagadora maioria, suspender as considerações a respeito do pacto até que a China reverta sua manobra.

A União Europeia já considera medidas para confrontar a China em relação a subsídios do país às exportações, a respeito de aquisições de empresas europeias financiadas por Pequim e sobre limitações chinesas à participação de empresas estrangeira em vários contratos de fornecimento. Mas a China pareceu disposta a sacrificar o tão suado pacto de investimento para mandar um aviso à Europa, afirmou Fallon.

“Vemos isso como, ‘Caramba, eles acabaram de dar um tiro no pé’”, afirmou Fallon. “Mas, pensando no longo prazo, talvez os chineses esperem que os outros pensem duas vezes antes de fazer isso de novo.”

A China não assume posições duras em todos os temas. Na semana passada, graduadas autoridades comerciais chinesas e do governo Biden estabeleceram o que Gao Feng, porta-voz do Ministério do Comércio da China, qualificou como trocas profissionais, francas e construtivas.

Ainda assim, o governo de Xi parece ter ajustado sua abordagem em relação ao novo governo americano, refletindo a percepção de que EUA e China entraram em uma nova era de competições e confrontos. Xi e seus principais diplomatas arregimentaram aliados em resposta à aliança de democracias que Biden disse que buscará.

Talvez não coincidentemente, Xi ligou ou mandou mensagens para vários governantes desde que as negociações do pacto de investimento congelaram, em 20 maio, incluindo Paquistão, Irã e Vietnã.

Wang, o chanceler chinês, reuniu-se com representantes de Hungria, Polônia, Sérvia e Irlanda. Em sua fala na sessão de estudos, Xi afirmou que o objetivo da China deveria ser expandir seu círculo de amizades na comunidade internacional.

Em uma análise a respeito da fala de Xi, David Bandurski, diretor do China Media Project, escreveu: “Numa luta como esta, há amigos, na forma de meios de comunicação alinhados e apologistas, e há inimigos, na forma de jornalistas, acadêmicos e políticos inconformados que insistem na crítica - exatamente o que esse esforço de diplomacia pretende neutralizar”.

Segundo Wang Huiyao, fundador do Center for China and Globalization, um grupo de pesquisas com base em Pequim, ainda que Xi não tenha sinalizado uma reversão em política externa, sua fala poderia, apesar disso, surtir impacto. “Sejamos amáveis. Isso é uma tremenda mensagem”, afirmou ele./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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