Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

Estratégia para América Latina opôs cubanos à cúpula do PCB

Freire diz que Fidel errou ao não reformar país após fim da URSS; para Goldman, regime não soube se democratizar

Marcelo Godoy , O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2016 | 15h28

Era o começo dos anos 1980. Chegava a Cuba a primeira delegação de parlamentares brasileiros para furar o bloqueio a que havia sido submetida a Ilha desde os anos 1960. Entre eles estavam dois jovens deputados federais: Roberto Freire e Alberto Goldman. Eleitos pelo PMDB, ambos eram militantes do clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). “Não se podia ir diretamente a Cuba. No passaporte brasileiro estava escrito: ‘esse documento não é válido para Cuba e países socialistas’.”

Hoje no PSDB, Goldman, que foi governador de São Paulo, conta que o grupo de parlamentares foi a Lima, no Peru, e de lá para Cuba. “Na época da deposição de Batista (Fulgêncio Batista, ditador derrubado pela revolução de Fidel Castro), Cuba era o bordel dos Estados Unidos. Quando chegamos a Cuba, vimos que os resultados sociais eram evidentes, principalmente na Educação e na Saúde. Os grande erros foram a tentativa de transmitir o modelo cubano para outros países da América Latina e o fato de a revolução não ter construído um processo que fizesse a revolução evoluir em direção à democracia.”

Para o ministro da Cultura, Roberto Freire (PPS), uma escolha de Fidel foi fundamental para comprometer o legado da revolução: não reformar o regime após o desmoronamento da União Soviética em 1991. “Foi o grande erro. Sem o aprimoramento das conquistas sociais e econômicas, sobrou a ausência de democracia e esse fato hoje predomina sobre o legado positivo da revolução: a afirmação de uma maior justiça social.”

Depois da primeira estada em Cuba, o ministro retornou outras vezes. A primeira no 30.º aniversário da revolução e, depois, para discutir a dívida externa. “Os cubanos acreditavam que a crise da dívida podia criar condições objetivas para um processo revolucionário na região.” Freire discordava. Nos anos 1980, o Brasil havia declarado moratória e deixara de pagar os credores internacionais.

Reaproximação. Os atritos entre o PCB e Cuba nas décadas anteriores se deviam à decisão de Fidel de financiar a luta armada contra o regime militar no Brasil – o PCB era a favor de derrubar o ditadura por meio de uma política de frente ampla e democrática. José Salles integrava a cúpula do partido e foi duas vezes à Havana nos anos 1970 como emissário do secretário-geral do PCB, Luiz Carlos Prestes, para negociar uma reaproximação com os cubanos.

“Foram dois encontros. Fidel estava interessado em nossa atuação no Brasil depois da vitória da oposição nas eleições de 1974”. Para Salles, a reaproximação com o PCB podia ser uma admissão velada dos cubanos de que a política de exportar a revolução para o País havia sido um erro. Explícito, segundo Salles, só Raul Castro, irmão do líder cubano. “O Raul disse que eles (os cubanos) haviam errado. Ouvi Raul dizer isso.”.

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