Para sair da paralisia

É preciso levar as empresas nos EUA a sentir segurança o suficiente no futuro para investir a verba que têm guardada

THOMAS L. FRIEDMAN - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2013 | 02h08

Fiquei perplexo com um momento particular do discurso sobre o Estado da União de Barack Obama. O presidente propôs um investimento de US$ 1 bilhão para construir uma nova Rede Nacional para a Inovação Industrial para estimular a produção de alta tecnologia nos EUA. Acredito que será útil e estou certo de que o presidente terá de implorar para um financiamento como esse ser aprovado pelo Congresso.

Mas, sentado na plateia, ouvindo o discurso de Obama, estava o presidente executivo da Apple, Tim Cook. A Apple está sentada sobre US$ 137 bilhões que tem em caixa. Há muitas razões para a Apple não ter investido sua fortuna, mas aposto que uma delas é a incerteza econômica e o ambiente fiscal dos EUA. Pensem em quanto melhor estaríamos se a Apple e muitas outras empresas que estão sentadas em seu dinheiro sentissem confiança suficiente no futuro para gastá-lo. Elas são as empresas mais dinâmicas do mundo. Não precisam de nenhum governo para ajudá-las a inovar.

Mensagem: não há dúvida de que a economia está sendo freada principalmente pela queda na demanda que resultou da crise financeira de 2008. Mas ela é reforçada hoje pela incerteza e o temor de os EUA não terem a casa política em ordem e, portanto, as estruturas fiscal, regulatória, previdenciária estarem indefinidas. Por isso, empresas, investidores e consumidores se refreiam e evitam o forte impulso no crescimento e no emprego.

É uma tragédia. Pode-se sentir que a economia quer deslanchar, mas Washington está sentado sobre o botão do humor nacional. Nós, o povo, ainda nos sentimos como filhos de pais em perpétuo processo de divórcio.

A última sondagem Wall Street Journal/NBC News, de meados de janeiro, mostrou que os americanos veem alguns sinais de melhoria, mas "pouco mais da metade dos entrevistados se declarou menos confiante na economia em consequência das negociações orçamentárias".

O artigo do Journal citou Bill McInturff, um dos especialistas em pesquisas de opinião, dizendo: "Essa é agora a economia de Washington. E Washington está contribuindo para um sentimento muito negativo sobre o que vai ocorrer na economia". Richard Curtin, que dirige o índice de sentimento do consumidor Thomson Reuters/Universidade de Michigan, disse que sua equipe pergunta regularmente aos consumidores entrevistados se eles ouviram sobre eventos que estariam influenciando a economia - positiva ou negativamente. Desde agosto, o índice tem apresentado números recordes citando a paralisia do governo como um elemento negativo para a economia.

"A renda das pessoas está tão no limite que qualquer incerteza adicional sobre como os impostos ou os gastos governamentais poderão afetá-las tem um forte impacto em sua situação e em como elas planejam o futuro. Há uma verdadeira incerteza econômica por aí", afirmou. Além disso, disse ele, historicamente, "as pessoas sempre se voltaram para Washington em tempos de crise econômica, mas agora elas estão perdendo a confiança na capacidade do governo de reestruturar a economia, e isso afeta seus hábitos de compra e investimento". As pessoas agora pensam que precisam "assumir pessoalmente o controle".

O que fazer? Evidentemente, a guinada do Partido Republicano para extrema direita foi mais responsável por essa paralisia do que os democratas, mas Obama é o presidente. Ele quer acertar. O país precisa que ele acerte. Portanto, ele deve a si mesmo e ao país fazer mais uma boa tentativa de negociar gastos, investimentos e reforma fiscal antes de optar por uma estratégia de espancar o Partido Republicano na esperança de que ganhe a Câmara para os democratas em 2014 e daí aprovar sem problemas a agenda de seu segundo mandato.

Cautela. De qualquer modo, o presidente não pode simplesmente dizer que está preparado para decisões "duras". Ele precisa liderar com cautela e pôr um pacote concreto e abrangente sobre a mesa.

Novos investimentos poderiam combinar empregos imediatos em infraestrutura com alguns fomentadores de crescimento no longo prazo, como um amplo crescimento na capacidade de banda larga de alta velocidade. Isso teria de ser casado com uma reestruturação fiscal no longo prazo, inscrita em lei, que desacelerasse o crescimento dos benefícios da Seguridade Social e do Medicare, juntamente a uma reforma nos impostos para pessoas físicas e jurídicas.

Obama sugeriu sua disposição de fazer todas essas coisas. Elas precisam ser acordadas este ano e colocadas em vigor progressivamente a partir de 2014. Há muitos bons pacotes bipartidários por aí para escolher: só precisamos de um que nos coloque numa trajetória de reduzir nossa relação de dívida para o PIB. Caso contrário, teremos pouco em reserva para enfrentar a próxima crise econômica, um 11 de Setembro ou um furacão Sandy. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA E ESCRITOR

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