Ludovic Marin//Reuters
Ludovic Marin//Reuters

Para sociólogo francês, ‘reforma da Constituição fica ameaçada’

Para especialista em comportamento eleitoral Bruno Cautrès, a imagem de Emmanuel Macron como presidente que renova a política sai arranhada do escândalo, ainda em aberto   

Entrevista com

Bruno Cautrès, cientista político do Instituto de Estudos Políticos

O Estado de S.Paulo

24 Julho 2018 | 05h00

PARIS - O cientista político do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris, e especialista em comportamento eleitoral, Bruno Cautrès diz que imagem do presidente da França, Emmanuel Macron, como renovador do mundo político, sai arranhada pelas práticas antigas de acobertamento e compadrio.

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O caso já saiu do controle de Macron? Sua imagem foi abalada?

Salvo surpresas, haverá efeitos muito importantes sobre a imagem de Macron. É a primeira vez que os franceses veem o funcionamento do entorno de Macron, que lembra o funcionamento do “mundo de antigamente”. Macron representava uma nova maneira de fazer a política e esse escândalo lembra muito o velho mundo político.

Não está claro por que o Palácio do Eliseu protegeu tanto Benalla, certo?

O Eliseu não dirá jamais, porque seria reconhecer um erro muito importante. Não saberemos por que Macron não entendeu desde o início que seu interesse era de sacrificar essa pessoa, demitindo-o de seu posto. Não consigo ver qual seria seu interesse político em proteger Benalla. 

O caso ainda parece obscuro e cheio de questões em aberto, não?

Sim, temos dificuldades de compreender o caso. É preciso ser prudente. O mais provável é que Benalla tenha se tornado alguém muito próximo de Macron ao longo do tempo. O Palácio do Eliseu e a segurança do presidente da República tinham vontade de dar a essa pessoa um papel muito importante. Mas por quê? Por que o presidente da República concede importância tão grande a uma pessoa de 26 anos, que não era um grande policial militar, e ainda assim foi promovido com alto salário, com tantas vantagens? São pontos que vão permanecer em aberto.

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A oposição, que estava apagada, encontrou o caso que a fortalece frente a Macron?

Sim, e a oposição está no seu papel. Em uma democracia pluralista e moderna a oposição faz o controle democrático, coloca as questões que deve. A oposição está dando um sinal de vida, um sinal de que o papel da Assembleia Nacional permanece importante, no momento em que o governo planejava uma reforma constitucional. Não creio que o projeto de reforma da Assembleia possa acontecer como o governo gostaria. A revisão constitucional, com o timing e a configuração pretendidas pelo governo, fica comprometida.  

O senhor acredita que o governo pode perder nomes de peso, como o ministro do Interior, Gérard Collomb?

Sim, não estamos protegidos de uma surpresa. Creio que haverá uma vítima. Talvez aconteça na cadeia de decisão do Palácio do Eliseu, onde pessoas vão sem dúvida deixar seus postos. Collomb enfrentou muitas dificuldades na sua audiência na Assembleia Nacional, e muita gente acha que ele não esteve à altura ao dizer o tempo todo que ele não sabia de nada. O contraste foi muito ruim entre a audiência do ministro do Interior e a do chefe de Polícia, que demonstrou total domínio do que dizia, com alto sentido de responsabilidade.

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