Para vencer o EI, é preciso armar a milícia curda

O problema é equipar os combatentes peshmergas sem agravar as divisões sectárias do Iraque

DAVID, IGNATIUS, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2015 | 02h01

Do alto do Monte Batma você tem uma vista panorâmica do estratégico território a oeste de Mossul que combatentes curdos (peshmergas), apoiados por aviões de guerra americanos, reconquistaram do Estado Islâmico (EI) no mês passado. A principal estrada que liga Mossul à fronteira síria foi encurtada e 259 quilômetros quadrados foram liberados.

Podemos ver foguetes lançados pelo EI e ouvir as explosões. "Eles não têm alvo certo, simplesmente disparam para mostrar que ainda estão aqui", diz o general Khalaf Ganjo, comandante curdo.

Ao fazer um tour com comandantes curdos esta semana, ficou claro para mim que a campanha apoiada pelos Estados Unidos contra o EI está tendo um lento, mas constante, progresso. Viajamos por estradas que semanas antes eram controladas pelos extremistas e passamos por inúmeras casas curdas dinamitadas pelos jihadistas quando se retiravam.

No quartel-general do comando avançado curdo, Masrour Barzani, que dirige as operações de inteligência, explicou como a batalha vem se desenrolando. Enquanto explicava o desenrolar da campanha, ele apontava para mapas nas paredes.

Os curdos se dispersaram com a investida extremista contra sua capital, Irbil, em agosto, mas se reagruparam. À medida que os peshmergas avançaram, seus comandantes conseguiram apoio aéreo da coalizão liderada pelos Estados Unidos. Eles expulsaram o EI de Irbil e de Makhmur, da barragem de Mossul, de Rabia, na fronteira com a Síria, e, mais recentemente, da área que visitei na Província de Nínive, no Iraque.

O sucesso, no entanto, acarretou um dilema. Quem concluirá a batalha no norte, recapturando Mossul? Os curdos não querem assumir a tarefa. Eles reconquistaram a maior parte do território que haviam perdido e sabem que sua entrada na cidade árabe sunita de Mossul causará problemas políticos.

O Exército iraquiano e uma milícia tribal sunita vêm sendo treinados pelos Estados Unidos, mas ainda não estão prontos para uma grande batalha. O presidente Barack Obama descartou o envio de soldados para longos combate em campo.

Quem retomará Mossul? Provavelmente ninguém, por algum tempo, Barzani disse que "se você deseja que essa guerra continue por anos, espere e forme o Exército iraquiano até os soldados estarem fortes o suficiente para derrotar o EI. Por outro lado, o EI estará livre para continuar recrutando, organizando e matando. O EI não vai parar enquanto você reforça a capacidade de combate".

Barzani explicou porque o Estado Islâmico é um adversário temível: suas melhores armas são carros-bomba. Foram enviados 14 deles contra linhas curdas em um só dia no mês passado. Os resolutos combatentes, muitos vindo de Chechênia, Casaquistão e Usbequistão, se explodem em vez de se render.

Apesar da força, os jihadistas também têm problemas internos. Os combatentes estrangeiros, chamados de "muhajiroun", palavra árabe para designar emigrantes, ficam com o dinheiro e as mulheres capturadas. Os combatentes locais, conhecidos como "ansar" estão ressentidos. Os jihadistas andam tão inquietos com traidores que qualquer pessoa que sai de Mossul tem de indicar um refém que será morto se ela não retornar. Combatentes em pânico que fogem de uma batalha são avisados de que serão mortos a tiros se chegarem à base do EI em Tal Afar.

Os EUA contam com os curdos para continuarem a luta contra esses assassinos enquanto outras forças iraquianas são treinadas, o que levou Barzani ao ponto mais importante: os curdos precisam de armas dos EUA. E rápido.

Necessitam especialmente de carros blindados para transporte de soldados e jipes humvee para proteger tropas, além de tanques, óculos de visão noturna para detectarem ataques surpresa e pequenos helicópteros de ataque para defender um front que se estende por 965 quilômetros.

São pedidos razoáveis diante do papel fundamental que os peshmergas têm neste combate. O problema é enviar armas para o governo regional curdo de uma maneira que não aumente as divisões sectárias do Iraque.

Barzani disse que ficaria feliz em receber armas por meio do governo iraquiano - desde que realmente fossem entregues. Na minha opinião, é a solução correta e deve ser uma medida prioritária a ser tomada pelo governo Obama. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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