Para vizinhos e colegas, irmãos eram 'bons garotos'

Dzhokhar era popular entre os colegas de escola e Tamerlan queria integrar o time americano de boxe nas Olimpíadas de 2016

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL / BOSTON, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2013 | 02h03

Na altura do número 100 da Rua Norfolk, em Cambridge, a polícia de Massachusetts encontrou ontem uma significativa quantidade de explosivos feitos em casa. Os irmãos Tsarnaev moravam ali há anos. Na vizinhança com forte presença brasileira e portuguesa, o mais novo deles, Dzhokhar, era conhecido como o bom garoto do bairro. Tamerlan sonhava integrar o time americano de boxe na Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016.

Os brasileiros Antonio Gomes e Fátima Langa, sócios do Bom Café, lembraram-se ontem de ter recebido Dzhokhar pelo menos três vezes. O café, com internet livre, pão de queijo e salgadinhos brasileiros no cardápio, fica no mesmo quarteirão da casa dos irmãos Tsarnaev. Ontem, era um dos raros negócios abertos naquela vizinhança. Juntos, os irmãos também foram vistos várias vezes comendo asas de frango (a US$ 0,10 cada) no Brazilian BBQ, churrascaria no quarteirão vizinho.

"Eu me lembrei do mais jovem, especialmente em razão do boné virado para trás. Eram muito simpáticos, comentavam sobre a comida com a gente", disse o português João Pinto, um dos sócios da churrascaria, cuja casa é vizinha da dos irmãos.

O empresário deixou ao local de manhã, quando viu as notícias. Seu restaurante permaneceu fechado pela polícia até a tarde de ontem.

Pelo menos três ex-colegas de Dzhokhar na escola de ensino secundário Cambridge Rindge and Latin o mencionaram como um rapaz que estava "sempre sorrindo". Todos se mostraram surpresos com a identificação do amigo como autor da tragédia de Boston. "Não pude acreditar quando vi sua foto. Parecia uma brincadeira de mau gosto", afirmou Eric Mercado, de 20 anos. "Era um bom garoto. Nós almoçamos juntos por três anos no colégio e na universidade."

Segundo Eric, apesar da amizade estreita, nunca conversara com Dzhokhar sobre sua religião, temas políticos ou sobre sua origem chechena. Falavam, lembrou ele, sobre "garotas e aulas". Algumas vezes, Eric o vira fumar e tomar álcool em festas, apesar de a prática ser proibida pela religião muçulmana. Dzhokhar, de 19 anos, falava inglês com perfeição, sem sotaque, além de russo e checheno.

Os irmãos Tsarnaev chegaram aos EUA como refugiados chechenos, procedentes do Quirguistão, em 2002. Em 11 de setembro de 2012, Dzohokhar conseguiu sua naturalização como americano, segundo autoridades federais.

Popularidade. Sam Lan, estudante de Economia de 22 anos, lembra de Dzhokhar "como um cara feliz, do tipo que é o melhor amigo de todo mundo". Depois da formatura, em 2011, ambos mantiveram contato porque praticavam luta livre.

"Não posso apontá-lo como culpado, mas tampouco posso negar o que ele fez", completou John Cas, também de 22 anos, outro companheiro de colégio e de luta livre.

Dzhokhar concluiu o colégio em 2011 e foi um dos 45 estudantes premiados pela prefeitura de Cambridge com uma bolsa de estudos de US$ 2,5 mil para estudar na Universidade de Massachusetts, em Dartmouth.

Ele trabalhou como salva-vidas na Universidade de Harvard e foi capitão do time de luta livre da escola, do qual John Cas e Sam Lan faziam parte.

Seu professor de História no colégio, Larry Aaronson, hoje aposentado, lembrou ter conversado com ele algumas vezes sobre o conflito separatista na Chechênia, onde o estudante havia nascido.

"Ele era um garoto adorável, jovial, cuidadoso e se mostrava muito agradecido por estar aqui, nos EUA, e por frequentar a escola", afirmou Aaronson à CNN.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.