EFE/MIGUEL GUTIÉRREZ
EFE/MIGUEL GUTIÉRREZ

Paraguai condena crise na Venezuela

Iniciativa do país sul-americano na ONU foi coordenada com EUA; Brasil optou por não aderir ao documento pressionando Caracas

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2016 | 05h00

Numa iniciativa orquestrada pela diplomacia dos EUA, o governo do Paraguai apresentou nesta quinta-feira no Conselho de Direitos Humanos da ONU uma declaração condenando a crise na Venezuela e pedindo que o presidente Nicolás Maduro abra o país para uma inspeção internacional. 

Mas o que era para ser uma ofensiva regional acabou dividindo o Mercosul e o Brasil optou por não aderir ao projeto que pressionava Caracas. O governo do Paraguai leu nesta quinta-feira uma declaração em nome de 29 países. Nela, as autoridades pediram à Venezuela que passe a aceitar as vistorias internacionais, algo que Maduro tem rejeitado. Os paraguaios também pediram que crise alimentar seja resolvida e Caracas considere uma intermediação do Vaticano na crise política.

Os venezuelanos e seus aliados receberam o discurso do Paraguai com “indignação”. O governo de Caracas acusou formalmente os representantes de Assunção de estarem agindo “em nome dos EUA”. “A declaração que o Departamento de Estado dos EUA redigiu e o Paraguai distribuiu é uma clara manifestação de intervencionismo”, disse o embaixador venezuelano na ONU, Jorge Valero.

O Estado apurou com fontes europeias de que, de fato, quem havia preparado a declaração e coordenado uma ação foi Washington. Mas, no debate oficial, a Casa Branca não tomou a palavra nem sequer comentou sobre a autoria da proposta.

Diplomatas europeus confirmaram que a iniciativa nasceu do Departamento de Estado americano que, há algumas semanas, chegou a circular um rascunho do que seria a declaração a países aliados. Entre os apoiadores do projeto, praticamente todos eram países com estreita relação com a Casa Branca, entre eles Alemanha, Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Israel e nações do Leste Europeu. 

Na última semana de negociação do texto, porém, quem assumiu o trabalho foi a delegação do Paraguai, na esperança de reunir um forte apoio latino-americano e dar a impressão de que a pressão vinha da região.

O vice-chanceler paraguaio, Oscar Cabello, viajou nesta quinta-feira para Genebra para ler a declaração. Mas, entre todos os latino-americanos, o único a aderir foi a Costa Rica. O Brasil optou por não aderir ao projeto, causando estranheza nos países europeus. Mas, segundo o Estado apurou, a resistência do Brasil não se refere a um eventual apoio aos venezuelanos, e sim um desacordo sobre como tratar da crise em Caracas. 

Para o governo de Michel Temer, estaria na hora de fortalecer os esforços de pressão na OEA, em Washington. Portanto, usar a ONU como palco dessa pressão poderia representar uma “perda de foco” ou mesmo um esvaziamento da OEA.

Também não caiu bem no Itamaraty a manobra da Casa Branca de buscar um país pequeno na América do Sul que atuasse em nome da declaração final. Procurada, a delegação paraguaia não comentou os laços com a proposta original dos Estados Unidos. 

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