Norberto Duarte/Reuters
Norberto Duarte/Reuters

'Paraguai enfrenta déficit democrático', diz especialista

Para professoras de Relações Internacionais, organização política não contempla premissas democráticas

Bruna Ribeiro, do estadão.com.br,

29 de junho de 2012 | 21h35

SÃO PAULO - Um rápido julgamento político e argumentos inconsistentes fizeram do impeachment do ex-presidente do Paraguai Fernando Lugo, há uma semana, motivo de crise política na América do Sul. Suspenso das reuniões do Mercosul até a realização de eleições presidenciais em abril do ano que vem, o contra-argumento do Parlamento para acusações de golpe é o de que o processo foi amparado pela Constituição do país.

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Para a pesquisadora em Relações Internacionais da USP e coordenadora do curso de Relações Internacionais das Faculdade Integradas Rio Branco (FIRB) Denilde Oliveira Holzhacker, apesar do artigo 225 da Constituição prever ações do Parlamento com relação ao Executivo, os parlamentares usaram as prerrogativas constitucionais para um julgamento político duvidoso em seus princípios.

"Assim como outros países democráticos na região, o Paraguai enfrenta o que denominamos de déficit democrático", explicou a pesquisadora. "Embora seja considerado um país de regime democrático, a organização política paraguaia não contempla todas as premissas democráticas, como a alternância de poder entre os partidos e a incorporação das demandas sociais".

A professora de Relações Internacionais das FIRB Regiane Nitsch Bressan ressalta que a construção de coalizões partidárias é inconsistente no país porque a alternância de poder é baixa. Ela cita como exemplo o que aconteceu nas eleições de Fernando Lugo em 2008, entre o partido dele (o APC) e o Partido Liberal, do então presidente Federico Franco. "Por sua vez, a situação paraguaia configura-se em grande instabilidade política, dado que após mais de trinta anos de governo autoritário pelo Partido Colorado, o país não teve tempo de construir um arranjo político que equilibrasse o poder interno".

Nas eleições parlamentares, por exemplo, o povo não vota diretamente e os representantes são escolhidos por meio de listas partidárias. Uma sociedade civil desmobilizada para se contrapor às forças tradicionais e os anos de ditadura impediram o desenvolvimento e amadurecimento político da sociedade civil, segundo as especialistas. Somadas a essa questão, as professoras também acreditam que o fato de as elites paraguaias serem tradicionais e conservadoras dificulta a ascensão de novos grupos políticos. 

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