Paraguai reage com indiferença à morte de Stroessner

Os paraguaios ficaram indiferentes à morte do ex-ditador Alfredo Stroessner, que governou o país entre 1954 e 1989, nesta quarta-feira, em Brasília. O atual presidente do país, Nicanor Duarte Frutos - do mesmo Partido Colorado de Stroessner - anunciou que, embora não exista nada contra o enterro do ditador no país, seu o corpo não será recebido com honras militares.?Stroessner morreu como foragido da Justiça e poucos tinham esperança de que ele voltasse vivo ao Paraguai para ser julgado pelos crimes que cometeu enquanto foi governante?, disse, pelo telefone, de Assunção, o vice-ministro das Relações Exteriores, Luis Morinigo Ganchi. ?O governo tentou que ele fosse extraditado, mas não foi possível?. O escritor e analista político paraguaio Alfredo Boccia, que também falou pelo telefone, acha que Stroessner morreu ?tarde demais? para ser ?amado ou odiado?. ?Existem mortes históricas como a de Ernesto ´Che´ Guevara e como promete ser a de Fidel Castro, mas para Stroessner o troco da história é a indiferença?, afirmou Boccia. Autor do best-seller Es mi informe sobre as cinco toneladas de documentos da ditadura Stroessner - chamados de ?arquivos do terror? -, Boccia afirmou que o movimento ?stroessnista? é minoria até mesmo no Partido Colorado. A legenda, fundada em 1887, foi decisiva durante seus sete mandatos exercidos, ininterruptamente, em quase 35 anos, e se manteve no poder durante os governos de transição e nos mais de 16 anos de democracia. Segundo Boccia, apesar de ser do mesmo partido do ex-ditador, o atual presidente Nicanor Duarte Frutos jamais integrou sua facção dentro da legenda histórica. Nicanor era jornalista quando o ex-ditador esteve no poder, recordou o analista. Este ano, nas últimas eleições para presidir o partido, que está no poder desde 1947, o neto do ex-ditador, Alfredo ?Goli? Stroessner Domínguez foi derrotado, confirmando, na opinião dos analistas, que o ?stroessnismo? perde cada vez mais importância na liderança do país. Nessa quarta-feira, ?Goli?, como é conhecido, gerou polêmica ao afirmar à imprensa paraguaia que o avô ?não tinha do que se arrepender?, ?porque fez o que deveria ter sido feito na época da guerra fria?. Uma das poucas vozes a se manifestarem contra a presença do corpo de Stroessner no país, Santiago Rolón, do Movimento Nacional das Vítimas da Ditadura, fez um apelo, através da imprensa paraguaia, para que os paraguaios saiam às ruas para gritar contra o ex-ditador, caso ele seja extraditado, agora depois de morto. Ainda assim, seu apelo foi visto como uma voz quase isolada, representando, principalmente, as famílias das vítimas da ditadura de Stroessner. BrasilO presidente da Comissão Verdade e Justiça, Monsenhor Mario Mebio Medina, confessou sentir ?alívio? ao saber da morte de Stroessner e criticou o Brasil por ter dado asilo político ao ex-ditador. ?Stroessner entregou (a hidrelétrica de) Itaipu para o Brasil. O asilo dado a ele foi uma espécie de pagamento?, acusou. ?E, infelizmente, Stroessner morre sem responder, sem pagar pelos crimes que cometeu. Agora, ele vai ter que acertar as contas com Deus?. Monsenhor Medina disse que a Comissão enviou um questionário ao ex-ditador, através da embaixada do Paraguai em Brasília, mas que jamais obteve resposta. ?A Justiça chegou a pedir a extradição dele, mas a culpa não é do Brasil, mas da falta real de vontade política dos próprios juízes em extraditá-lo?, afirmou Boccia. Para ele, há alguns anos ainda havia medo de que seu retorno pudesse despertar paixões políticas pelo ex-ditador e por isso não houve verdadeiro empenho para levá-lo de volta ao Paraguai e ao banco dos réus em seu próprio país. Por sua vez, indignado, Medina disse que a herança do ex-ditador foi a de um país ?política, intelectual e moralmente fragilizado pela corrupção?, com cerca de 400 desparecidos e famílias destruídas por parentes torturados ou mortos ou desaparecidos.?As regras de Stroessner que tanto mal fizeram e ainda fazem a alguns setores do país eram: aos amigos tudo, aos indiferentes a lei e aos inimigos da ditadura o castigo?, afirmou o presidente da Comissão Verdade e Justiça, também falando, pelo telefone, da capital paraguaia. FilhoDurante os anos em que esteve no poder, Stroessner era onipresente - tanto no Executivo quanto no Legislativo e Justiça, qualquer decisão era dele e passava por ele. Por isso, além dos crimes contra os paraguaios, opositores a seu regime, ele foi acusado de participar da ?Operação Condor?, controlada pelos governos ditatoriais do Cone Sul, como recordou Boccia, que também investigou as perseguições e desaparecimentos sistemáticos de argentinos, uruguaios e brasileiros, naquele período. ?O problema é que há pelo menos dez anos já não podiamos esperar mais nada de Stroessner. Aqui sabiamos que ele vivia quase como um vegetal e que não tinha mais condições para dar qualquer informação sobre os crimes cometidos?, acrescentou. Nos bastidores do governo de Nicanor Duarte Frutos e nas entidades de direitos humanos, a expectativa é de que o filho mais velho do ex-ditador, o coronel Gustavo Stroessner, que também vive em Brasília, responda por alguns processos judiciais, entre eles, como disse Boccia, o de enriquecimento ilícito. ?Os processos contra ele serão mantidos, de acordo com o que determine a Justiça?, afirmou o vice-ministro das Relações Exteriores do governo atual, filho de um ex-coronel que por ser dissidente do regime de Stroessner também foi perseguido político, como contou.

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