AP/Jorge Saenz
AP/Jorge Saenz

Paraguaios elegem sucessor de Cartes

Novo presidente terá desafio de resolver o descompasso de um país em que o crescimento econômico não se reflete em estabilidade política

Fernanda Simas, enviada especial a Assunção, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 05h00

ASSUNÇÃO - O presidente eleito hoje no Paraguai receberá um país em crescimento econômico nos últimos cinco anos e com previsão do FMI de um salto de 4,5% no PIB em 2018. Também herdará uma nação com graves episódios recentes de instabilidade política e 26,4% da população vivendo na pobreza e 4,5% na miséria. O boom econômico tampouco se reverteu em diminuição clara da desigualdade.

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Diante deste cenário, os eleitores perderam o entusiasmo das últimas disputas eleitorais e veem com ceticismo o futuro político do país. 

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Ao caminhar da sede dos partidos Liberal e Colorado, no centro de Assunção, até o bairro de Varadero, a sensação é de passar por pelo menos três cidades distintas. Uma é agitada, com galerias e vendedores ambulantes na rua. Outra tem shoppings e hotéis luxuosos em ruas e avenidas arborizadas. A última, um bairro ao lado do porto fluvial da capital, tem ruas esburacadas, crianças brincando na rua e comerciantes conversando na calçada. 

Juan Adrián Gómez, de 65 anos, trabalha em uma oficina de desmanche de carros. Na parede branca, a pintura em azul indica que a opção hoje será pelo candidato do Partido Liberal, Efraín Alegre. Ele encabeça uma aliança que reúne também partidos de esquerda e centro. 

Questionado, Gómez confirma a opção, mas justifica a escolha pela tradição familiar. “Aqui somos totalmente Partido Liberal. Meu pai era Liberal e minhas oito filhas também são. Depois da ditadura (de Alfredo Stroessner, do rival Partido Colorado), tiramos nossa capa. Meu pai era perseguido e não podia assumir que era Liberal.”

Duas quadras para frente, o bairro ganha outro nome, Itá Pyta Punta (nome guarani para descrever a ponta da rocha vermelha), mas com as mesmas características de falta de infraestrutura. Em um trajeto de seis quadras, nenhuma escola, hospital, farmácia ou posto policial, apenas instalações militares, como da Marinha. Dois homens conversam na calçada, em cadeiras de praia, e bebem o tereré (infusão com erva-mate e água gelada). Questionados sobre em quem votariam hoje apenas respondem “Colorado. Aqui sempre colorado”, mas não explicam o motivo da escolha e voltam a conversar. O candidato do partido é Mario Abdo Benítez.

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O bairro San Jerónimo difere de seus vizinhos. Tem ruas mais estreitas e casas pintadas em diversas cores. Antes de ser considerado um ponto de atração turística, era uma favela. Os moradores do local comentam que nunca imaginariam que visitantes passariam ali de carro um dia sem medo de serem assaltados. Em uma pequena venda de comidas e bebidas, Glória diz que votará por Alegre e a maioria do bairro também. Mas não vê entusiasmo nas ruas. “Por que será? Não entendemos, tem gente aqui que trabalha na campanha dos liberais até, mas não há entusiasmo”, questiona.

“As pessoas estão desiludidas porque as opções dos partidos políticos tradicionais são mais do mesmo. Em 32 anos de vida, essa eleição parece ser a mais chata e monótona”, explica o analista político Juan Cálcenas sobre as manifestações dos paraguaios.

"Benítez representa o continuísmo do tradicional do Partido Colorado, que privilegia o cargo político sobre os méritos. Efraín Alegre não consegue cativar a simpatia do público, do eleitor. Tem uma postura clara em diferentes temas, como a reeleição presidencial (é contra), mas não causa simpatia. Não transmite a sensação de que pode encabeçar uma mudança real e aglutinar diferentes forças políticas.”

Segundo Cálcenas, é justamente a falha no investimento em programas sociais que leva à apatia em regiões da cidade onde antes o fervor político era maior, com muitas bandeiras colocadas nas janelas e portas das casas. 

“O boom econômico não chegou aos extratos médios e baixos da população. O governo de Horacio Cartes deu impulso a um círculo empresarial, mas a microeconomia não prosperou. Em Assunção, os números mostram mais emprego, mas isso não é suficiente para levar um estilo de vida digno, muito menos na periferia”, afirma.

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“Nas zonas rurais, o crescimento chegou aos grandes produtores, mas não aos camponeses”, conclui Cálcenas. Apesar do crescimento regular do país na última década, a desigualdade está próxima do índice de 2012, depois de ter tido um pico negativo em 2014.

Instabilidade política

Outro tema que continuará pautando o novo governo é a instabilidade política sentida no país em consequência dos escândalos de corrupção e da tentativa de Cartes, no ano passado, de alterar a Constituição e permitir a reeleição – medida foi apoiada pelo ex-presidente Fernando Lugo, opositor a Cartes, mas que também seria beneficiado pela decisão. 

Segundo a Transparência Internacional, o Paraguai é o segundo país da América do Sul com a maior percepção de corrupção, atrás apenas da Venezuela. Dos candidatos ao Senado hoje, 20 estão envolvidos em acusações e muitos devem ser eleitos por serem nomes que encabeçam as listas de votação dos partidos. Ou seja, ganharão foro privilegiado.

O diretor da agência de análise de risco político Control Risks para o Brasil e Cone Sul, Thomaz Favaro, explica que o alto índice de corrupção, os casos de nepotismo e a fragilidade das instituições são grandes desafios do novo governo, que devem pautar o êxito em formar alianças no caso de o partido vencedor não ter a maioria absoluta no Congresso.

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