Cesar Olmedo/REUTERS
Cesar Olmedo/REUTERS

Paraguaios fazem campanhas e rifas para pagar tratamento de covid-19

Custos de UTI são 'catastróficos', diz especialista; pobreza e demissões em massa agravam cenário

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2021 | 20h00

ASSUNÇÃO - Nanci González levou o irmão doente de covid-19 para um hospital da rede pública, em Assunção, no Paraguai, mas o local estava tão lotado que seguiram para uma clínica particular, onde ele ficou internado na UTI e conseguiu se recuperar. Agora, a dívida da família é enorme.

"Entramos e colocaram oxigênio imediatamente, porque não estava com boa saturação. No dia seguinte, foi entubado", conta González à Agência France-Presse.

No total, seu irmão Rosalino, de 37 anos e sem comorbidades, passou 16 dias na Unidade de Terapia Intensiva. Para retirá-lo da clínica, a família recorreu à Justiça, pois deve o equivalente a US$ 50 mil (aproximadamente R$ 280 mil).

Nanci, que trabalha em casa como costureira e quase não recebeu encomendas desde o início da pandemia, decidiu rifar seu automóvel para conseguir um pouco do dinheiro que precisa para pagar a internação, com a sorte de que a pessoa que venceu optou por devolver o carro.

"No Paraguai, é quase uma tradição que, se tem alguém internado, o sistema de financiamento é a solidariedade social. As pessoas organizam rifas, comidas, festivais, qualquer atividade social de colaboração para que as outras consigam enfrentar os gastos", diz à Agência France-Presse Esperanza Martínez, senadora e ex-ministra da Saúde.

O sistema de saúde no Paraguai inclui os serviços de seguridade social, acessados via emprego formal por cerca de 20% da população, além de centros de atendimento público, que assistem cerca de 60% da população, e um pequeno setor privado.

"O sistema público de saúde nunca foi gratuito, mas sempre teve tarifas de baixo custo", explica Martínez. "Em tempos de covid, os custos são os de UTI, que sempre são catastróficos. A isto se soma a pobreza e a situação de desamparo de muitas famílias pelas condições econômicas que também são impostas pela pandemia como o isolamento, o fechamento de empresas e as demissões em massa", explica.

O Paraguai enfrenta uma aceleração de casos que provoca o colapso dos hospitais. Muitos pacientes são atendidos com oxigênio e soro em cadeiras, ou macas, posicionadas nos corredores.

Vanessa Morinigo, de 32 anos, teve de internar o pai em condições precárias. Pouco depois foi a vez de sua mãe.

"O caos é impressionante. Não há vaga. É um milagre conseguir uma cadeira com oxigênio. Meu pai passou oito dias sentado em uma cadeira com o pé todo inchado", relata.

Ela conta que os dois estão melhores agora, pois foram transferidos para uma instalação militar preparada para o atendimento de pessoas recém-saídas da UTI.

Ter um parente internado exige muita dedicação, inclusive para conseguir os tratamentos. Nas imediações dos hospitais, é possível observar diversas barracas improvisadas por familiares que acompanham pacientes. 

Para Morinigo, uma das coisas mais difíceis foi comprar os medicamentos necessários. Ela conta que gastava o equivalente a US$ 50 (aproximadamente R$ 280) por dia com os remédios para os pais.

"Tive que fechar meu negócio. Meu marido é o único que trabalha", contou.

Com pouco mais de sete milhões de habitantes, o Paraguai registra 299.684 casos e 7.209 mortes por covid-19. A campanha de vacinação acontece de maneira lenta. O governo culpa o não cumprimento de prazos pelo sistema Covax e contratos "draconianos e abusivos" impostos por fornecedores privados. /AFP

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