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Paraguaios lutam para preservar língua guarani

Principal idioma índigena do país pode desaparecer em duas gerações, segundo especialista

BBC

25 de agosto de 2012 | 08h33

BUENOS AIRES - Primeira língua indígena a dividir com o espanhol o título de idioma oficial em um país da América Latina, o guarani chegou à internet, mas é cada vez menos falado pelas crianças nos lares paraguaios. Analistas dizem acreditar que o idioma pode desaparecer em "duas gerações".

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Segundo o professor de linguística e de antropologia David Galeano, da Universidade de Assunção, o guarani era o idioma original dos países da América do Sul "antes da chegada dos conquistadores", nos séculos passados. A língua chegou a ser utilizada em boa parte do centro-sul do Brasil, mas é no território paraguaio que resiste atualmente.

O professor Ramón Silva, que fez um doutorado na língua, diz que o país foi o primeiro a reconhecê-lo e incluí-lo em sua Constituição. Alguns países chegam a reconhecer idiomas indígenas por meio de resoluções ou de forma circunscrita a determinadas regiões de seu território. Na Bolívia, por exemplo, a Constituição de 2009 estabelece como idiomas oficiais do Estado o castelhano e "todos os idiomas das nações e povos indígenas originários camponeses" - entre eles o guarani.

A sobrevivência do guarani no Paraguai foi abordada em um seminário internacional sobre o "bilinguismo" no país, realizado essa semana em Assunção. O evento foi organizado pelo governo local e pela Organização de Estados Ibero-americanos (OIE), e teve também a participação de americanos e europeus.

Os especialistas divergem sobre até quando a língua resistirá "em tempos de tecnologia e de globalização". "O guarani sempre foi o idioma nas nossas casas. Agora as crianças aprendem, na escola, a ler e a escrever, mas não a falar guarani. Para sobreviver, a língua deve ser falada. Por isso, acho que a tendência é que ela acabe em duas gerações", disse Ramón Silva à BBC Brasil.

A diretora de promoção de línguas da Secretaria Nacional de Cultura do Paraguai, Susy Delgado, discorda. "Se o guarani sobreviveu até aqui por que não sobreviveria em novos séculos?", afirmou.

Sobrevivência

Filho de pai brasileiro e mãe paraguaia, Ramón Silva, de 50 anos, é apresentador do programa de televisãoem guarani "Káy'uhape" (em espanhol "Tomando Mate"). No programa, que vai ao ar às 4h30 (hora local), quando a maioria dos paraguaios acordam, são apresentadas notícias nacionais e internacionais, além de entrevistas com autoridades locais em guarani.

Silva trabalha ainda na aplicação da lei que obriga escolas a incluírem a língua no currículo, já que hoje não são todas que o ensinam. A lei prevê também que aeroportos locais passem a informar, a partir do ano que vem, sobre chegadas e partidas dos voos não só em espanhol, como ocorre hoje, mas também em guarani.

A lei foi aprovada no governo do ex-presidente Fernando Lugo com objetivo de manter vivo o idioma falado por cerca de 90% da população, segundo dados oficiais.

Futebol

No Paraguai, é comum ouvir de políticos e analistas econômicos a taxistas e jovens engraxates falando em guarani. Nos campos de futebol, dentro e fora do país, os jogadores também costumam se comunicar na "língua mãe", como é chamado o idioma.

"(Os jogadores falam guarani) Especialmente quando querem evitar que o adversário entenda o que estão dizendo", afirmou Delgado. Ela tem livros de poesias em guarani e em espanhol, mas reconhece que o filho de 27 anos conhece apenas algumas palavras do idioma "original".

Na região da fronteira com o Brasil, os paraguaios costumam falar guarani e português. Muitas vezes, o espanhol não faz parte das conversas, inclusive de crianças - que às vezes não sabem a diferença entre português e espanhol.

"Na fronteira, os paraguaios falam principalmente portunhol (mistura do português e do espanhol), guarani e espanhol. Mas eles não são trilíngues. Eles mesclam os três idiomas e assim se entendem", afirmou Silva. Galeano diz que na fronteira, impera o "guaratuguês" (mistura do guarani com português).

Proteção

Um guia de turismo que costuma fazer a viagem entre Assunção e a igreja franciscana de San Buenaventura de Yaguarón, a 48 quilômetros da capital paraguaia, explica aos turistas estrangeiros que a história "trágica" do país acabou "protegendo o guarani da globalização". "A desgraça da história do Paraguai foi positiva para a sobrevivência do guarani", explica Ramón Silva. De acordo com ele, no período da colonização os espanhóis iam embora e as mulheres que permaneciam falavam guarani com as crianças.

"Na Guerra Grande (Guerra do Paraguai) e na Guerra do Chaco, os homens foram à luta e as mulheres ficaram sozinhas ou com as crianças. O guarani foi sendo passado, em casa, de geração para geração", diz Susy Delgado. Ela reconheceu que o "isolamento" político do país, ao longo da história, ajudou nesta sobrevivência. "Agora tem gente aqui no país que planeja fazer até teclado de computador em guarani."

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